sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A “classe-que-vive-do-trabalho”: e o que a AJP tem a ver com isso?

Frequentemente é utilizado neste blogue o termo “classe-que-vive-do-trabalho”, em geral para designar uma determinada parcela da sociedade, com a qual a AJP se identifica politicamente e busca atuar no sentido de sua libertação. Mas o que é, quem vem a ser especificamente essa classe? Como ela se conforma no Brasil de hoje? E até que ponto essa categoria efetivamente é importante na práxis dos assessores jurídicos populares, universitários ou não?

O espaço é curto, então tentemos apenas apontar alguns elementos introdutórios a cada uma dessas questões, uma de cada vez.

Primeiro. O termo “classe-que-vive-do-trabalho” foi formulado pelo sociólogo brasileiro Ricardo Antunes no livro “Adeus ao trabalho?”, e se contrapõe diretamente ao termo, cunhado pelo filósofo austro-francês André Gorz, da “não-classe do não-trabalho” em seu famoso livro “Adeus ao proletariado”. Esta obra, publicada em 1980, representou um marco de ruptura de Gorz com o marxismo (ainda que na sua vertente existencialista à la Sartre) e de aproximação do pensamento pós-moderno, movimento que foi igualmente realizado por uma série de intelectuais até então envolvidos nas lutas do movimento operário europeu e dos movimentos de libertação nacional nos países neocoloniais (como Antonio Negri, Alain Touraine, dentre outros).

A tese de Gorz era de que transitava-se para uma sociedade pós-industrial na qual o trabalho teria perdido a centralidade que dispunha até então, o que significaria, por consequencia, que também o movimento operário teria perdido grande parte de seu potencial contestador e revolucionário. Na verdade, uma tese eurocêntrica e mergulhada apenas nas “aparências” (e não na “essência”) do movimento dos capitais especialmente a partir da crise econômica de 1969-1974, que fez com que uma série de empresas transferissem parques industriais completos para países do Terceiro Mundo, em busca de menores salários e menos encargos sociais, com o intuito de recuperar suas taxas de lucro.









Gorz: a "não-classe do não-trabalho"; Antunes: a "classe-que-vive-do-trabalho"

Tinha que ser, portanto, um intelectual de um país periférico (sem tirar os evidentes méritos de Antunes) a contestar a tese da perda da centralidade do trabalho, dado que, se na Europa houve uma diminuição dos operários fabris e a expansão de setores de caráter tecno-científico (áreas de programação de software, robótica, microeletrônica, biotecnologia etc), na América Latina, Ásia e África houve um intenso movimento de “industrialização recolonizadora” (cf. conceito de Darcy Ribeiro) que produziu enormes impactos sociais, econômicos e culturais sobre estes povos.


Contudo, o conceito da “classe-que-vive-do-trabalho” não é apropriado apenas para os países periféricos (que, por sinal, também sentem nos últimos anos o mesmo processo de redução do operariado fabril), mas pode-se dizer que é “universal”, ao menos onde o modo de produção capitalista é predominante, em tempos da chamada “acumulação flexível” (marcada pela precarização do trabalho, perda de direitos trabalhistas e securitários, desmonte e cooptação dos instrumentos de organização dos trabalhadores etc). Os imensos ganhos de produtividade do trabalho obtidos pelo capital nas últimas décadas, a partir da introdução de inovações técnicas, maquinários modernos, gestão científica do trabalho, aplicação combinada de métodos produtivos fordistas e pós-fordistas etc, efetivamente fizeram reduzir a quantidade de trabalhadores necessários na produção de mercadorias, mas de forma alguma fizeram perder a centralidade do “valor-trabalho” como motor do modo de produção capitalista.

Pelo contrário, o aumento da produtividade permitiu um aprofundamento da divisão social e internacional do trabalho, criando ramos cada vez mais específicos e especializados na agregação de valor aos produtos a partir de inovações científicas, na realização mais rápida do capital a partir da venda das mercadorias (pensem nos imensos hipermercados, nas vendas pelas internet etc) e na criação de novos setores de prestação de serviços. Ainda que o número de “trabalhadores produtivos” (ou seja, produtivos para o Capital: produtores de novos valores de uso que são também valores de troca) tenha diminuído, sua produtividade aumentou justamente por causa do incremento dos “trabalhadores improdutivos” (improdutivos, mas necessários para o Capital: não chegam a agregar novos valores de uso à mercadoria, mas fazem com que esta seja vendida e consumida mais rapidamente).
Se eles não produzem mais-valia, por que são tão
indispensáveis às empresas? Por que são tão explorados?


A “classe-que-vive-do-trabalho” corresponde, portanto, a todos estes trabalhadores que vendem sua força de trabalho para sobreviver (são proletários, portanto), justamente por não possuírem qualquer meio de produção que os permita fazê-lo autonomamente. Sejam trabalhadores “produtivos” ou “improdutivos”, todos são igualmente necessários à produção e reprodução do Capital, e, na medida em que fornecem direta ou indiretamente mais-valia ao capitalista, são objetivamente explorados e se configuram, portanto, como os sujeitos históricos centrais do processo de libertação do modo de produção capitalista. O tal “sujeito histórico” não se restringe, portanto, ao clássico operariado fabril, mas tampouco prescinde deste para a construção de um novo projeto de sociedade.


Cabe ressaltar ainda que dentro deste conceito da “classe-que-vive-do-trabalho” não se inclui o campesinato, mas apenas o proletariado rural (assalariados agrícolas) e camponeses sem-terra que trabalham como parceiros, meeiros ou semi-assalariados rurais. O que não significa que a classe-que-vive-do-trabalho não possa e não deva construir alianças (e alianças só ocorrem entre classes distintas) com o campesinato e mesmo com a pequena-burguesia.

S
egundo. Discutir a conformação da classe-que-vive-do-trabalho no Brasil de hoje é tarefa bastante complexa, que exige a análise de dados estatísticos com metodologias adequadas (o que nem sempre ocorre, dado que o IBGE se utiliza ora de conceitos keynesianos, ora neoclássicos – o que prova que os números nunca são neutros!), e que, especialmente quanto aos últimos anos, ainda não estão disponíveis (possivelmente a divulgação do Censo 2010 nos ajudará nessa tarefa). De qualquer forma, a partir de alguns dados resumidos tomados de um estudo do PNAD 2002 realizado pelo IPEA, já é possível verificar as alterações produzidas no mundo do trabalho em comparação a 1985.
Tarsila, quem é a classe-que-vive-do-trabalho hoje no Brasil?!
Estimou-se que em 2002 a PEA (População Economicamente Ativa) no Brasil era de 80 milhões de pessoas, distribuídas da seguinte forma:
  • 21.703.298 eram empregados com carteira assinada (4.921.282 operários industriais, 4.326.200 empregados no comércio, 2.734.804 no setor administrativo, 2.221.483 em serviços de limpeza e zeladores, 1.860.882 servidores públicos, 396.849 assalariados agrícolas, 3.975.166 em outras categorias);
  • 12.218.039 eram trabalhadores sem carteira assinada;
  • 6.000.000 eram trabalhadores domésticos;
  • 8.000.000 de camponeses;
  • 6.000.000 de camponeses sem-terra ou semi-proletarizados;
  • 2.470.000 proletários rurais; e
  • 18.804.414 desempregados (sendo destes, 8 milhões entre 16 e 24 anos).
Obs.: Havia ainda 6.772.162 na condição de pequenos e médios proprietários urbanos ou atuando como profissionais liberais.

Estes são dados a partir dos quais é possível iniciar uma análise da classe-que-do-trabalho no Brasil de hoje, mas sabendo que a sua disposição sofreu sensíveis variações nos últimos anos, em virtude dos programas sociais e de transferência de renda, da política neodesenvolvimentista voltada à geração de empregos (muitos com carteira assinada, mas em geral com baixos salários e pouca qualificação), o aquecimento da economia e do mercado de consumo interno. A redução do desemprego, o gradual aumento da massa salarial e o maior número de trabalhadores com carteira assinada têm feito inclusive com que a classe se disponha com menos temor a formas coletivas de luta, a ponto de o número de greves ter crescido nos últimos 3 anos. Certamente ainda é cedo para se falar em um novo ascenso das lutas de massas, mas não é infundada essa esperança, desde que combinada com uma agirança!

Terceiro. E por falar em agirança: de que forma a AJP tem se relacionado com a classe-que-vive-do-trabalho? Não é correto dizer que não há relação, mas também não é errado dizer que as assessorias universitárias e as organizações de apoio não têm se relacionado com a classe com base nessa perspectiva da classe como um todo, nem mesmo no que faz dela uma classe: a questão do trabalho. O fato é que recaiu-se, desde meados da década de 1990 a meu ver, nas formas de organização e de luta de caráter pós-moderno, aceitando a fragmentação das lutas e das demandas que, por muitas que sejam, pertencem a uma única e mesma classe (ou a potenciais aliados de classe, como o campesinato sem-terra e – por que não? - as chamadas “populações tradicionais”).

Quantos projetos da RENAJU atuam hoje com trabalhadores, para além de sem-tetos, sem-terras, sem-escolas, sem-dignidades, sem-direitos? Quantos advogados populares na RENAP têm aproximação com sindicatos e associações profissionais? Não se trata de abandonar ou menosprezar o trabalho que já se faz, mas de compreender a totalidade das relações sociais e atuar de forma mais abrangente, contribuindo na formação da classe para si. O sem-terra, o sem-teto, o desempregado, o oprimido também é trabalhador, e provavelmente tem (ou deveria ter) um sindicato e um partido que atenda aos seus interesses de classe.

"Antes de sermos sem-terra, somos trabalhadores!"

S
abemos que nem a RENAJU e nem a RENAP têm ou devem ter o caráter de organizações partidárias ou de representação da classe-que-vive-do-trabalho, mas, se a luta não se resume a uma pauta de pequenas reformas e algumas concessões de direitos, mas à construção de uma nova sociedade sem exploração e sem opressão, então a aproximação e o apoio (técnico e político) à classe e às suas ferramentas organizativas é uma questão de primeira ordem, que deve estar no centro das discussões nos encontros, congressos e grupos de discussões da AJP.

13 comentários:

  1. ótimo post, Diehl.
    Bom saber mais sobre esse conceito. Só quero fazer um adendo.
    Em relação a Antonio Negri, li muito pouco dele, mas, do que li, pelo menos em relação a essa questão do mundo do trabalho, ele não se coloca como se a preponderância do dito "trabalho intelecual" na europa se estenderia pra todo e qualquer lugar no globo. Pelo contrário, a própria abordagem nele pressuõe a existência de um imperialismo que organiza mundialmente a divisão do trabalho, e que a preponderância do operiado é forte nos países do Sul.

    Negri se aproxima muito dos ditos "pós-modernos", e dos não ditos, como Deleuze, Guatarri, e Foucault. Mas a uma clara tradição marxista no seus escritos, o principalmente no que diz respeito a importância da categoria classe.

    No livro feito em parceria com Michel Hardt, "Multidão", ele trabalha um nova forma de problematizar a classe, e o próprio conceito de multidão é um conceito de classe.

    O movimento operaísta italiano, do qual Negri fez parte, também tem umas reflexões interessantes. Nele, é proposto o conceito de operário social, isto é, o operário na sua acpeção mais ampla, não só no trabalho, mas sua relação no conjunto da sociedade, abrangendo, por exemplo, questões como a moradia e o lazer. Houve um esforço deste movimento no sentido de trabalhar conjuntamente os aspectos do trabalho, da fábrica, com aspectos ligados ao contidiano e as condições de vida como um todo do operário. Seria uma experiência interessante de conhecer, já que, no meu entendimento, os anseios da AJP vão nesse sentido.

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  2. Ótima instigação ao debate, Ciro. Sempre temos que ter cuidado em não definir (e por vezes mesmo rotular) os autores injustamente, e, por mais que o que mais nos interesse é discutir a praxis da AJP, sabemos que ela é permeada por idéias e concepções, e daí a importância de debater autores, teorias etc.

    Não tenho dúvidas de que Negri é um autor inteligente e progressista, com uma história de engajamento político, motivo pelo qual precisamos nos apropriar dialeticamente de sua contribuição. O mesmo para muitos outros que não cheguei a citar, mas que passaram mais ou menos pela mesma trajetória (como Habermas por exemplo, por mais que não se inscreva no pensamento pós-moderno).

    Me parece porém que Negri segue um processo intelectual que vai paulatinamente rompendo (e não superando dialeticamente, como seria o caso) com as categorias fundamentais do materialismo histórico, cada vez mais descrevendo apenas aparências que só fazem esconder as essências dos processos. Esse conceito de "Império", por exemplo, que Negri descreve como sendo agora um "Império sem imperialismo", coisa um tanto questionável hoje com Wikileaks, desmoronamento de "ditaduras amigas", 4ª Frota etc etc. Uma boa crítica disso está no livro "O Império e o imperialismo" de Atilio Borón.

    Sobre o conceito de "Multidão" me parece que ocorreria o mesmo. Podemos considerar como "multidão", como massa amorfa, sem classes ou simplesmente "pluriclassista" processos de rebelião popular como temos visto nos últimos anos na América Latina, ou agora no Magreb? Ou será que são "os de baixo", classisticamente dispostos na base da divisão social do trabalho, que mais uma vez se rebelam contra a exploração e a opressão?

    Me parece que o problema de Negri é o problema geral da interpretação de 1968 no mundo, época que marcou o momento máximo de engajamento dele no movimento operário, estudantil e anti-colonial na Europa. A derrota do movimento, atribuída ao movimento operário (e não à baixa consciência de classe) e aos partidos marxistas (e não ao estalinismo, ao reformismo e ao oportunismo) fez com que muitos intelectuais se afastassem e buscassem outros sujeitos e concepções (o que por outro lado permitiu imensos avanços em outras áreas, diga-se).

    Talvez caiba ainda um debate sobre se conceitos como "império" e "multidão" não pecariam de uma dose de eurocentrismo, que o faz generalizar certas interpretações que só se adequam à realidade européia (ou talvez nem isso!).

    Desnecessário dizer que essa é minha opinião pessoal e respeitosa aos adeptos do pensamento deste e outros autores no mesmo sentido. Se todos tivessem a mesma opinião, este blogue seria um "monólogo coletivo", e não um verdadeiro diálogo.

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  3. Ainda que o debate acerca do campesinato não possa prescindir de maiores aprofundamentos, posso dizer que concordo com o Diego em suas reflexões.

    O que poderia colocar como um problema dentro dessa análise, porém, é justamente o porquê da falta de aproximação de nossas redes de assessoria jurídica popular com relação à classe-que-vive-do-trabalho tal qual o Diego assinalou aqui a partir de Ricardo Antunes. E digo isso só para corroborá-lo, mas, ao mesmo tempo, para procurar afastar a tese, a meu ver pouco sólida, de que é possível disputar, pela via das AJPs, o espaço de trabalho com sindicatos e côngeneres (e, com isso, não quero dizer que esta seja a própria proposta do Diego). A aproximação com a classe-que-vive-do-trabalho só se fará com: 1. rigorosa organização política; 2. estrutura de financiamento consolidade; 3. articulação estudantil-profissional extremamente aperfeiçoada. Trabalhar com os "sem", conforme a opinião da postagem, é uma marca de nossas AJPs. Talvez, haja no mínimo 2 motivos: um deles, de índole histórica, qual seja, o sentido que o movimento dos trabalhadores tomou no Brasil e, ao mesmo tempo, o impacto das discussões antropológicas entre nós (o que significa abarcar os chamados novos movimentos sociais e as comunidades tradicionais); por outro lado, porém, trata-se de um reflexo da própria organização da AJP, seja com estudantes seja com advogados. Trabalhamos com os "sem", porque também nos apresentamos como "sem": sem-organização política; sem-estrutura econômica; sem-articulação necessária. Nosso trabalho - e a constatação é bastante antiga já - artesanal e dependente de contexto (o que fica claro nas universidades, em geral públicas, que a cada ano tem de renovar a maioria, quando não inteiramente, de seus membros ajupianos).

    A assessoria de sindicatos e espaços de trabalho formal em geral envolve muitos interesses econômicos. É ingenuidade pensar que, da forma como estamos organizados hoje, conseguiremos atingir essas realidades sem nos comprometermos politicamente, para não falar em economicamente.

    Ainda assim, mesmo com este diagnóstico, não devemos esperar as melhores condições. É tempo de levar adiante esta discussão, e começar a pensar essa realidade dentro do movimento de assessoria popular.

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  4. Está aí um ponto delicado para trabalharmos no movimento de assessoria popular.
    Pessoalmente, considero que esta aproximação é estratégica e constitui a própria razão de ser da assessoria popular.
    Tanto a assessoria estudantil quanto a advocacia popular precisam debater este problema, nem que seja para afirmar com maior clareza e consciência o "rompimento" com as teses marxistas e a adoção dos "pós-modernos".
    O que não pode é termos a ilusão que estamos construindo um "movimento de assessoria popular" sem movimento popular.

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  5. Sei que sou insuportavelmente insistente nesse debate, mas me parece que é justamente nesse ponto que a AJP (universitária ou não) encontra-se emperrada hoje, certamente por questões ideológicas conjunturais, cuja superação me parece uma tarefa para já (e não apenas para quando estivermos mais maduros ou organizados), e que antes de ser puramente teórica, é fundamentalmente prática.

    Mas para isso alguns "tigres de papel" precisam ser derrubados. Por exemplo, a onipotência do movimento sindical, de suas estruturas e aparatos político-burocráticos. O neoliberalismo se encarregou de destruir a espinha dorsal do sindicalismo, o que no Brasil ocorreu simbolicamente com a derrota da greve dos petroleiros em 1995. A partir daí, a militância migrou para outros movimentos, muitos mantendo sua convicção revolucionária, mas muitos cedendo às tentações dos modismos intelectuais.

    Hoje, menos de 40% da classe-que-vive-do-trabalho no Brasil é sindicalizada, e, destes, muitos são sub-representados, ou mesmo literalmente explorados por suas direções (sua mais-valia se converte em imposto sindical). E o Direito não perde sua cota de culpa nessa história: hoje os sindicatos atuam na lógica do "eu resolvo", privilegiando mais e mais os meandros legais e cada vez menos as soluções que passam pela luta coletiva, que é a que realmente pode alterar a conjuntura em prol da classe.

    Diante disso, me parece que há sim algo que a AJP possa fazer nesse âmbito, seja no sentido da educação popular e do diálogo com a classe para a conquista de direitos, seja no sentido prático-militante da AJP de apoiar as lutas, e no seu sentido técnico assessorando juridicamente os trabalhadores (e inclusive tentando convencer os colegas advogados sindicais a aplicar o Direito não num sentido tecnicista, mas como um dos instrumentos da luta).

    Uma sugestão de primeiro passo? Que tal contribuir na próxima greve que pintar em nossa cidade? E que tal trazer os relatos dessas lutas para o blogue, de forma a refletirmos coletivamente sobre os limites e as possibilidades da AJP?

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  6. Esqueci de avisar: coloquei a síntese do estudo do IPEA no Scribd, talvez seja interessante colocarmos um link na biblioteca digital.

    Eis o link: http://www.scribd.com/doc/48459964

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  7. Olá

    Vejam a repercussão da postagem no blogue Brasil e Desenvolvimento.
    http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2011/02/20/a-classe-que-vive-do-trabalho-e-a-assessoria-juridica-popular/#comment-1897

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  8. Sim! É mais um blogue com o qual precisamos nos aproximar e dialogar. Quiçá comentar as postagens no blogue deles!

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  9. Concordo com o Diego em vários momentos da sua fala e, apesar de não ter tido contato com a obra do Antunes, a escrita clara e simples do Diehl consegue nos situar inicialmente nesse debate.

    Me reconheço muito no discurso quanto á crítica aos pós modernos, embora não o realize de uma forma tão ferrenha e, ao meu ver, dura, quanto o Diego. Particularmente sempre me inquietei ao me deparar com a análise realizada pelos pós modernos ao perceber o quanto falavam de uma realidade que flagrantemente não era a nossa, mas apenas um recorte dela, uma que não contempla, por exemplo, a vida na periferia e a violência operada contra a população mais pobre e trabalhadora e a criminalização da sua vida (o que nos insere em outro debate, eu sei) e que não coloca em discussão o quanto a exploração de pretos, pobres, mulheres, estrangeiros e crianças ainda é executada para garantir o funcionamento do capital e que essa exploração serve de mola propulsora para que a organização em torno do trabalho seja realizável.

    Embora as concordâncias, um ponto e uma ausẽncia apenas me deixaram com algumas fagulhas de inquietação e apesar de acreditar que não tenhamos grandes discordâncias sobre os assuntos, vamos lá:

    1- quanto a luta junto às comunidades tradicionais e camponeses.
    As observo como um elemento tão poderoso de articulação de forças no combate a esse modelo global capitalista de exploração de uns para benefício de uma minoria que detém os meios de produção e que determina o que seja lucrativo ou não, o que tenha valor ou importância ou não; quanto a articulação de forças da classe que tem sua força de trabalho explorada. Nem menos, nem mais, mas tão importante quanto.
    A forma de vida dessas comunidades tradicionais e dos campesinos, que plantam pra comer e realizam um comércio que não se enquadra nesse modelo agro-exportador, coloca-se frontalmente contra o modo de produção capitalista e sua visão de desenvolvimento e somente poderão existir com a superação dele.
    A autocrítica que podemos realizar, no entanto, é se se tem percebido que as lutas fazem parte do enfrentamento direto ao capital ou se tem se tratado as lutas de uma forma fragmentada sem a crítica ao sistema como um todo. Como se não houvesse relação com uma luta que é maior.
    Essa percepção, a meu ver, coloca-nos outra tarefa: a de realizarmos o fortalecimento dos espaços de convergência de lutas, a exemplo do que ocorreu há um tempo atrás na Assembléia Popular e destacarmos, enquanto AJUPs, o quanto as lutas pontuais (contra a instalação de um Polo siderurgico, por exemplo, ou a instalação de Belo Monte) fazem parte de uma crítica ao capital.
    Não é demais ressaltar que essa observação não retira a importância de que sim nos reaproximemos da classe trabalhadora e explorada e que conheçamos mais de perto experiências de articulação e luta das trabalhadoras e trabalhadores como a da Flascô em Campinas.

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  10. 2- O segundo ponto é o silêncio quanto a uma discussão que acredito que deva integrar o debate das AJUPs é a do que se considera como não trabalho, o dito trabalho reprodutivo, principalmente (mas não somente) confiado às mulheres e que sustentam o sistema tanto quanto o "trabalho na fábrica".
    Um debate sobre exploração da força de trabalho não pode mais ser generalizado, de forma que contemple como atinge de forma diferenciada homens e mulheres, relegando a essas últimas (ao lado dos nossos já conhecidos negros, mestiços, estrangeiros e crianças) os piores trabalhos e os mais mal remunerados. Um discurso que a primeira vista poderia ser observado e digerido pelos pós modernos, como é a discussão do feminismo que esquece a importância da classe na determinação da opressão que as mulheres sofrem, é parte integrante do debate por uma sociedade sem exploração do trabalho. O patriarcado há muito se uniu ao capitalismo e é um dos eixos poderosos que garantem sua sustentação. As mulheres devem ser percebidas como elemento chave nessa re-tomada de contato com a classe que trabalha porque se trata de um grupo, dentro dos trabalhadores, numericamente considerável e que tem grandes dificuldades de se colocar politicamente por questões estruturais, que passa pelo acúmulo do trabalho 'reprodutivo', da violência que sofrem ao ocupar espaços públicos e de uma cultura e educação que não valoriza nelas esse potencial.

    Espero as discordâncias, ou (quem sabe) concordâncias rsrsrsrsrsr

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  11. Debate bastante rico, esse. De minha parte, gostaria de colocar ainda outra questão:a enorme dificuldade que nós, ligados ao mundo acadêmico, temos de nos situar no mundo do trabalho enquanto trabalhadores; de estarmos conscientes de nossa classe. Estou construindo a greve d@s professor@s e esse tem sido um momento histórico oportuno para essa reflexão - ao menos entre as pessoas que estão buscando se mobilizar. Certo dia, num ato público, um companheiro professor disse que não se entendia como um trabalhador. Para ele, essa categoria estaria ligada à exploração, e ele, como um intelectual, não se sentia explorado. FIquei pensando que a greve atual dos docentes das universidades ocorre num contexto de extrema precarização das condições de trabalho dos professores e da sua proletarização tb. O Reuni causou a expansão sem a qualidade necessária, e é importante que essa percepção não esteja só no plano do discurso, mas que consigamos perceber o quanto ela se concretiza em nossa vida acadêmica:turmas superlotadas nas quais não se consegue fazer um trabalho de qualidade, pouco propícias ao debate, que esgotam a voz d@ professo(a) (eu tenho faringite ao menos 3 vezes por ano); falta de local para dar aulas, enorme pressão para que a gente "produza", ao mesmo tempo em que boa parte das atividades, em especial as ligadas a trabalhos de mobilização política, que muitas vezes passam pela extensão, simplesmente não são contabilizados (a sensação de trabalhar tanto e não ter "pontos" suficientes)... enfim, são muitos os problemas, e vejo que pode não estar muito claro quem seja o nosso "patrão" que nos explora ( no caso da universidade pública), mas somos explorados, sim. E estamos cada vez mais endividados, nosso salário não chega ao fim do mês (a proletarização), ainda que, obviamente, nossas condições objetivas de remuneração sejam muito melhores do que a média dos outros trabalhadores do país.
    E quanto aos estudantes, em especial os do direito, que constróem a assessoria jurídica popular, em que medida pertecem e se reconhecem enquanto classe trabalhadora? Em que medida planejam suas atividades pensando em contribuir com a organização e a luta dessa classe? Acho urgente a reflexão, para que possamos realmente ter um projeto político claro e à esquerda nas ajups.
    Ana Lia Almeida

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