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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Uma Rede com 20 anos de defesa gratuita dos direitos de gente pobre

Jacques Távora Alfonsin
A Renap (Rede Nacional de Advogadas/os Populares) acaba de realizar em Lousiania, Goiás, o seu 20º Encontro anual, celebrando os correspondentes 20 anos de prestação de serviços jurídicos gratuitos ao povo pobre do Brasil. Dezenas de advogadas/os fizeram avaliação dos seus trabalhos, reunidas/os em oficinas temáticas, em plenárias que, embora predominantemente festivas, trataram de planejar o empoderamento ético, político e jurídico do povo oprimido e pobre que defendem.

Algumas características do passado dessa Rede foram lembradas, buscando analisar virtudes e defeitos das muitas tarefas executadas em duas décadas. Entre as virtudes, um certo consenso pôde ser verificado em pelo menos quatro das suas características:
1. Uma unidade de objetivos e ações mantida num espírito de mútua colaboração em rede virtual de comunicação frequente entre suas/seus integrantes, troca de experiências presidida por um fraterno respeito quando eventuais divergências surgiram relativamente ao melhor posicionamento da Rede sobre questões específicas do seu trabalho.
2. Um diálogo frequente, perseverante e fecundo, progressivamente aberto e ampliado com os movimentos sociais e entidades de defesa dos direitos humanos fundamentais do povo pobre, marcado por uma proximidade fiel às suas reivindicações, humildemente ouvinte, atenta às verdadeiras perguntas antes de dar respostas exclusivamente baseadas em lei e, por isso mesmo, insuficientes e inadequadas. Sem pretensão de conhecer a realidade melhor do que esse povo, nem impor saberes alheios à sua experiência sofrida, muito menos liderar o seu protagonismo emancipatório, prestando os seus serviços não para mas sim com ele, considerado como companheiro e não como cliente, partilhando vitórias e derrotas.
3. Uma postura de permanente e ativa oposição ética, política e jurídica desenvolvida teórica e praticamente contra o sistema socioeconômico capitalista em tudo quanto o mesmo é responsável por mistificação e dominação legal, opressão, injustiça social, pobreza e miséria, tudo refletido em cada processo administrativo ou judicial, em cada audiência pública, em cada manifestação de rua, em cada protesto coletivo de denúncia dos vícios históricos, presentes na realidade brasileira, de interpretação tendenciosa das leis, predominantemente privatista e patrimonialista, em favor do capital. Serve de exemplo frequente disso a exploração do trabalho escravo, a criminalização e a prisão de gente sem-terra e sem-teto, quilombola e índia, catadora de material e excluída, condenada por mandados judiciais deferidos liminarmente quando ocupa terra, sem qualquer exame do uso da mesma conforme, ou não, a sua função social.
4. Uma firme e decidida coerência de testemunho público semelhante ao de advogadas/os que inspiraram a rede, como Plinio de Arruda Sampaio, verdadeiras/os “profetas”, questionadoras/es dos nossos padrões de convivência baseados no egoísmo, na desconfiança recíproca, com instituições satisfeitas, acomodadas num Poder Público burocrático, majoritariamente distante do povo, cioso do “devido processo legal” e da sua própria autoridade e dos seus privilégios, verdadeiro empecilho ao gozo e exercício da soberania popular, da qual deveria ser a garantia própria de um Estado democrático e de direito. Por isso mesmo, a Rede se firmou como parceira de movimentos sociais e ONGs particularmente, além de parte das/os representantes do Poder Público, com sensibilidade social capaz de ultrapassar os dogmas do positivismo normativista, com consciência crítica atenta aos novos paradigmas de interpretação e atuação ético-política e jurídica do direito achado na rua, do direito alternativo, do chamado positivismo de combate, do pluralismo jurídico e do constitucionalismo latino-americano, formas organizadas de um novo direito, estruturante, vivo e justo.
Muitas moções, algumas de apoio e estímulo a diversas iniciativas públicas e privadas atualmente se movimentando em defesa de direitos humanos fundamentais, outras de repúdio a formas de dominação abusiva autoproclamada como legal foram votadas no final deste encontro. Uma análise delas, mesmo resumida, não cabe neste pequeno espaço de breve histórico do ocorrido, mas podem ser acessadas talvez ainda essa semana no site da Rede.
Defeitos? Como toda a organização popular, a Renap também tem os seus, mas, felizmente, quase todos de origem externa, na prevenção dos quais ela vem se vacinando progressivamente. Aí podem aparecer influências tendentes a desviar a Rede de suas finalidades, como as de ideologias e religiões autoreferenciadas como únicas, cuja soberba as separa e isola dos seus erros passados, até passarem como não acontecidos; partidos políticos interessados em aparelhar nichos infiltrados de pura propaganda voltada para as próximas eleições; moral burguesa de pura aparência, como a da tolerância com os inaceitáveis abusos imorais do capital, refletidos no mercado, e de intolerância e apoio da repressão contra quem os enfrenta; “respeito à lei” como forma de garantir ordem e segurança para poucas/os, desordem, injustiça e insegurança para a maioria.
A advocacia disponível e gratuita prestada pela Renap à gente pobre do Brasil, enfim, sai deste encontro fortalecida por algumas certezas de melhor e forte motivação para a prestação dos seus serviços. Por mais grave e ameaçadora que se mostre a crise política pela qual passa o país, ela não perderá o foco do seu trabalho. De medo, basta o da pusilanimidade e o da fuga de responsabilidades. De coragem, basta a da verdade, da justiça, do amor e da paz diariamente partilhadas entre suas/seus integrantes.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MLB encaminha demanda da ocupação Lanceiros Negros

Por Rodrigo de Medeiros

Nesta quarta-feira (25 nov), o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), por meio do advogado Rodrigo de Medeiros, membro da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP), provocou o Ministério das Cidades e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a respeito das demandas da ocupação urbana dos Lanceiros Negros, de Porto Alegre-RS.

Reunião com Jorge Martins, da Secretaria Nacional de Acessibilidade e
Programas Urbanos do Ministério das Cidades
O intuito do MLB é conseguir a intermediação do Ministério e da OAB para a efetivação de um diálogo com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, para a garantia do direito à moradia das famílias desta ocupação. A ocupação do espaço urbano ocioso é um direito e as famílias da Ocupação Lanceiros Negros o estão realizando.

Com Marcus Vinícius Coelho e Marcelo Lavenere (presidente e ex-presidente do Conselho Federal da OAB), 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sustenta a pisada na AJP

"O que nos une nos move é um conjunto de causas coletivas que se entrelaçam" 
Ludmila Cerqueira Correia é Coordenadora Técnica do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFPB, Professora no Curso de Direito da UFPB, doutoranda na Pós-Graduação em Direito da UnB e integrante do Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua, coordenado pelo professor José Geraldo de Sousa Júnior.
Ela também foi uma das responsáveis pela organização do primeiro livro do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFPB (disponível no site da Presidência da República*).
Em uma conversa com Priscylla Joca, para a fanpage da RENAP-CE, Ludmila Correia falou sobre Direitos Humanos, Direito Achado na Rua, movimentos sociais, e muito mais, partilhando conosco sua bela experiência no campo da Assessoria Jurídica Popular (AJP).

Confira a entrevista completa abaixo:
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A poesia “Sustenta a Pisada” (de Cátia de França) aparece como epígrafe no primeiro livro lançado pelo Centro de Referência de Direitos Humanos da Paraíba, bem como é subtítulo do mesmo livro. Nesses tempos em que parece que vivemos o encrudescimento do conservadorismo no Brasil e retrocessos no campo de direitos humanos, como você percebe que nós, assessores jurídico populares, podemos e devemos sustentar a pisada?

Acredito que a escolha pela Assessoria Jurídica Popular nos remete a uma caminhada que é feita a cada dia, sem fórmulas nem receitas, com rupturas e continuidades. O que nos move é a possibilidade de transformar a realidade em que vivemos, de continuar acreditando que outro mundo é possível. Nessa pisada, tem algo que vejo como diferenciado na Assessoria Jurídica Popular, e está justamente no modo de fazer as coisas, na forma de buscar as transformações e os avanços. E no quadro atual, pensar estrategicamente com quem nos aliamos e como podemos nos articular em rede para os desafios que nos vêm sendo colocados, acredito que seja um bom começo. Existe um compromisso quando optamos pela Assessoria Jurídica Popular, que passa pela dimensão coletiva e isso é o que diferencia a nossa atuação.

 Em sua trajetória na Assessoria Jurídica Popular (AJP), você teve oportunidade de vivenciar a AJP na graduação, como estudante e professora, na advocacia popular e agora, mais recentemente, na pós-graduação, como doutoranda na UnB, integrando o “Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua”, coordenado pelo professor José Geraldo de Sousa Júnior. Como você percebe a importância da AJP na sua vida e na educação e prática jurídica em geral?


Costumo dizer que a Assessoria Jurídica Popular me deu régua e compasso, me deu o norte num curso de Direito extremamente dogmático, pouco crítico e voltado, principalmente, ao estudo para concursos públicos. O mais engraçado disso tudo é que conheci a Assessoria Jurídica Popular num projeto de extensão dessa mesma Universidade, mas que não estava ligado ao Curso de Direito e sim, diretamente, à Pró-Reitoria de extensão. A partir dessa janela, um mundo se abriu com muitas possibilidades de vivências e experiências diversas, desde as temáticas de atuação (direito à moradia, direito à cidade, sistema prisional, luta antimanicomial, direitos da criança e do adolescente, direito à terra, e tantos outros), até as metodologias utilizadas (como a educação popular), os espaços institucionais, fóruns de debates e as organizações de defesa dos direitos humanos. Conhecer e participar dos encontros da RENAJU – Rede Nacional de Assessoria Jurídica Popular Universitária foi muito importante para fortalecer a minha escolha por este campo e para entender que era possível impregnar a nossa atuação, nos espaços/instituições em que estivéssemos, com os pressupostos da AJP. Após alguns anos de atuação como advogada popular em organizações de defesa de direitos humanos na Bahia e em Pernambuco, percebo que essas experiências contribuíram para me questionar sobre como pessoas e coletividades podem modificar a realidade em que vivem e qual a nossa co-responsabilidade, enquanto profissionais do Direito nesse processo. Acredito que esta preocupação tenha sido o embrião para decidir cursar o mestrado em direitos humanos, mais adiante, e compreender que a Universidade, com destaque para o curso de Direito, é um espaço a ser ocupado por nós para contribuir com a sua transformação. Daí a importância da Universidade se abrir a essas experiências da AJP e, mais que isso, assimilar as suas metodologias e formulações na educação jurídica, influenciando, assim, práticas jurídicas diferenciadas.

Movimentos sociais por vezes exigem o cumprimento de leis, por vezes tensionam por determinadas interpretações legais, por vezes resistem às leis (ou projetos de leis) consideradas como injustas e ilegítimas, por vezes propõem novas leis diante do Estado, e por vezes não reconhecem o Direito Estatal como único existente e reivindicam outros sentidos de Direitos.  Como o Direito Achado na Rua vê essas teias de resistências, reivindicações e insurgências existentes entre movimentos sociais e o Estado?

Acompanhando mais de perto o percurso de O Direito Achado na Rua, desde o arcabouço teórico dessa corrente que existe desde a década de 1980 no Brasil e os debates mais recentes a partir da disciplina que leva o mesmo nome no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Brasília e do Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua, sob a coordenação do professor José Geraldo de Sousa Junior, percebo que todas essas teias fazem parte do processo de construção do Direito. Vale registrar que no semestre 2014.1, no curso da mencionada disciplina na UnB, tivemos uma experiência bastante significativa com a proposta do professor José Geraldo de estudar/construir a concepção e prática de O Direito Achado na Rua, no percurso de Roberto Lyra Filho, destacando os seus desafios tarefas e perspectivas atuais. Durante o programa da disciplina, conseguimos discutir essas questões das resistências, reivindicações e insurgências dos movimentos sociais frente ao Estado, sobretudo a partir da concepção de “sujeito coletivo de direitos” e os desafios postos atualmente com as novas configurações dos movimentos sociais no Brasil. Nesse percurso, houve um momento muito interessante, em que pessoas vinculadas a movimentos sociais diversos estiveram conosco para dialogar sobre tais questões, sobretudo com os últimos acontecimentos nas ruas do país: as jornadas de junho de 2013, a forma de representação e atuação desses sujeitos nesse período, a ausência de lideranças em alguns dos movimentos ali presentes, o momento de descentralização e dispersão ali evidente, os debates e enfrentamentos públicos sobre o decreto que instituiu a Política nacional de participação social. Assim, acredito que a partir de O Direito Achado na Rua, há a compreensão de que os movimentos sociais, através da sua atuação política (o que pressupõe resistências, reivindicações e insurgências), tencionam a ampliação da cidadania, o aprofundamento da democracia e a luta por novos direitos.

O Direito é achado na rua, nas praças, em Complexos Psiquiátricos, em povos indígenas, em comunidades tradicionais, na luta por direitos, em múltiplos espaços e temporalidades. Ao tempo em que vivemos sob a égide de um Direito Estatal que se tece em uma cultura jurídica positivista e monolítica, e que vêm restringindo direitos humanos garantidos em leis estatais. Nesse complexo contexto, que possíveis estratégias e caminhos podem ser trilhados por assessores jurídicos populares a fim de buscar construir culturas jurídicas plurais, descoloniais e interculturais no Brasil?

Há algo que é muito precioso na Assessoria Jurídica Popular e que constitui um dos seus pressupostos: a atuação junto com os movimentos sociais e grupos vulnerabilizados. É a partir do exercício da alteridade entre nós, assessoras/es jurídicas/os populares e os movimentos e grupos com os quais atuamos, o qual possibilita uma relação dialógica, que conseguimos enxergar novos caminhos de atuação conjunta. É justamente a partir das diferenças apresentadas por esses sujeitos coletivos que aprendemos quais possíveis novos caminhos e estratégias adotaremos nas lutas jurídicas e sociais pelo reconhecimento de direitos. Nesse caso, entendo que é a partir das práticas desses povos/grupos/comunidades que novas perspectivas de atuação e construção do Direito podem surgir, como tem ocorrido em alguns países da América Latina, com o novo constitucionalismo “desde abajo”, demarcando a centralidade da participação popular nos processos constitucionais.      

“O sol que virá, a pisada no susto, sustento sustentará”, assim termina a poesia de Cátia de França. O que você diria mais para aqueles e aquelas que seguem na AJP?

Me recordo de um evento, ou mais que isso, uma experiência que me marcou e foi decisiva na minha escolha em continuar no caminho da AJP: o Fórum Social Mundial, do qual participei em janeiro de 2003. Naquela época, eu atuava como advogada no Centro de Defesa da Criança e do Adolescente da Bahia e fui para o Fórum representar essa organização em algumas atividades. Ali um mundo de coisas se descortinou pra mim e foi um dos momentos mais significativos para sentir que na luta coletiva nunca estamos sós, é a luta coletiva que nos fortalece. E me parece que é esse o sentido que encontro na AJP para continuar seguindo adiante: o que nos une e nos move é uma causa coletiva ou um conjunto de causas coletivas que se entrelaçam. Nesse percurso, queria chamar a atenção para um espaço que entendo estratégico para a AJP: a Universidade. Desde que comecei a lecionar no curso de Direito, sobretudo nas universidades públicas, percebi o quanto a formação crítica e na perspectiva da AJP é importante para esse outro mundo possível que buscamos e temos tentado construir. Daí a necessidade de ocuparmos esse espaço para a sua ressignificação e renovação; esse é um compromisso nosso, de assessoras e assessores jurídicos populares, que integra a nossa responsabilidade cidadã e contamina estudantes, a partir do ensino, da pesquisa e da extensão, pra lutar conosco nas velhas e novas trincheiras.    
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* O livro está disponível, de modo gratuito, no link seguinte: http://www.sdh.gov.br/assuntos/bibliotecavirtual/promocao-e-defesa/publicacoes-2014-1/pdfs/centro-de-referencia-em-direitos-humanos

** As fotos, gentilmente cedidas pela entrevistada para a fanpage da RENAP-CE, retratam Ludmila Correia em diferentes momentos de atuação, junto a um grupo de estudantes extensionistas do grupo de pesquisa e extensão Loucura e Cidadania do CRDH/UFPB; em uma fala para grupo de estudantes sobre “O Direito Achado na Rua: contribuições para a assessoria jurídica popular”; e em reunião do coletivo Diálogos Lyrianos do Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua (UnB), com o professor José Geraldo de Sousa Júnior.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Projeto Carajás e a crítica ao desenvolvimentismo pela AJP

A coluna AJP na Universidade de hoje traz o relato da advogada popular maranhense Maria Inez Pinheiro sobre o seminário internacional “Carajás 30 anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia Oriental”, ocorrido há exato um ano, nesta semana. O tema relatado é de importância central para a compreensão da conjuntura brasileira, premida por um projeto desenvolvimentista, em que o capital neoliberal assume formas perversas para povos e comunidades tradicionais, bem como para trabalhadores rurais e urbanos. O texto foi produzido originalmente para a disciplina de “Teorias Críticas do Direito e Assessoria Jurídica Popular”, da Especialização em Direitos Sociais do Campo da UFG, na Cidade de Goiás, ministrada por Ricardo Prestes Pazello.

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PROJETO CARAJÁS: 30 ANOS DEPOIS

Maria Inez Pereira Pinheiro
Advogada popular no Maranhão, estudante da Turma de Especialização em Direitos Sociais do Campo - Residência Agrária (UFG)

Filme de Murilo dos Santos sobre os atingidos pela Estrada de Ferro Carajás (clique para assistir)

"Os advogados do povo trabalham não como defensores típicos, desempenhando tecnicamente sua profissão dentro do espaço desenhado para eles pelo sistema, mas como parte da missão da luta de classes. Eles procuram transformar os tribunais em palcos onde a luta e direitos dos povos, sua resistência e revolta contra a opressão e a exploração são legitimados" (Hakan Karakus, advogado turco, membro da Associação Internacional dos Advogados do Povo)

Desde sua implementação, o Programa Carajás tem provocado muitos impactos sociais, econômicos, culturais e ambientais nos estados do Pará e Maranhão. Por outro lado, milhares de pessoas vêm mobilizando-se, resistindo e contestando a lógica do “desenvolvimento” propagandeada por um modelo desenvolvimentista baseado nos chamados grandes projetos.

Após 30 anos de mineração, siderurgia e projetos de “desenvolvimento regional”, implementados a partir do Programa Grande Carajás, os movimentos sociais, comunitários, sindicatos e pastorais, bem como grupos de estudos e pesquisas de universidades dos dois estados, em colaboração com várias entidades de outras regiões do país e do mundo, articularam-se para organizar o Seminário Internacional “Carajás 30 anos: resistências e mobilizações frente a projetos de desenvolvimento na Amazônia Oriental.

A realização do Seminário Internacional “Carajás 30 anos” foi um processo amplo, que contou com vários seminários preparatórios em Imperatriz (no período de 16 a 18 de outubro de 2013), Marabá (21 a 23 de março de 2014), Santa Inês (21 e 22 de março de 2014) e Belém (09 a 11 de abril de 2014). Todas as etapas preparatórias culminaram com a realização do Seminário Final em São Luís, na Universidade Federal do Maranhão, no período de 05 a 09 de maio de 2014. O evento contou com a participação de professores, pesquisadores, estudantes do ensino básico, superior e de pós-graduação, militantes sociais, lideranças comunitárias, assessores, advogados populares e especialistas na questão dos movimentos socioambientais da Amazônia, do Brasil e de outros países da América Latina e da África.

Protesto contra a Vale, a 8 de maio de 2015
Durante esse período de formação e organização do seminário, tivemos a participação de vários(as) advogados(as) populares que contribuíram com as discussões e se colocaram em defesa dos povos atingidos pelo projeto de “desenvolvimento” que vem sendo implementado pela Vale durante esses 30 anos.

Nessa atividade os advogados Eduardo Correia, Danilo Chammas, Guilherme Zagallo e Maria Inez Pereira Pinheiro, membros da Rede de Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) do Maranhão, assumiram como temas de trabalho: Violência e criminalização dos movimentos sociais; Marcos Legais poder judiciários e instituições jurisdicionais; Violações de direitos humanos no Grande Carajás; Projeto Grande Carajás 30 anos de mineração.

Participar dessas atividades reafirma os compromissos com as demandas judiciais e a construção de direitos dos povos, em uma demonstração de que é possível casar assessoria técnica jurídica e formação política na defesa da população.



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Leia também:

Crítica da ecologia política, por Ricardo Prestes Pazello

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Expectativa de justiça no "Caso Vanderlei" no Ceará

Ocorrerá o julgamento nesta quinta (13), no Tribunal Regional do Trabalho do Ceará.

Cláudio Silva - advogado

Está marcado para o próximo dia 13 de novembro, às 13:00, o julgamento, pelo Tribunal Regional do Trabalho (7ª região, Ceará) do recurso da empresa Del Monte na ação trabalhista que trata da morte do trabalhador rural Vanderlei Matos da Silva.

No processo iniciado em maio de 2009, a empresa foi condenada ao pagamento referente aos danos moraria e materiais em favor da viúva do trabalhador, além de verbas trabalhistas.
Vanderlei trabalhou na empresa Del Monte, na função de preparar a solução tóxica, e morreu meses depois. Conseguimos, com apoio decisivo das pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo TRAMAS, coordenado por Raquel Rigotto, médica e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, demonstrar o nexo de causalidade entre o trabalho e a morte do trabalhador.
Após a condenação pela Justiça Trabalhista de Limoeiro do Norte, a empresa Del Monte recorreu. O julgamento está na pauta do próximo dia 13 de novembro.

No momento, ocorrerá a sustentação oral, ou seja, exposição verbal, dos argumentos dos advogados do trabalhador e da empresa. Após, os desembargadores apresentarão seus votos.
Pela repercussão, ineditismo e relevância do caso, a presença de apoiadores/as e pessoas que direta ou indiretamente atuaram na questão é muito importante.
Esperamos que seja confirmada a decisão vitoriosa da 1ª instância. Certamente essa confirmação será um importante precedente para milhares de casos de trabalhadores/as contaminados no trabalho com agrotóxicos em todos Brasil.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

ANADEP e RENAP lançam livro "Defensoria Pública, Assessoria Jurídica Popular e Movimentos Sociais e Populares"

Em novembro de 2013, a Associação Nacional dos Defensores Públicos (ANADEP) e a Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) lançaram o livro "Defensoria Pública, Assessoria Jurídica Popular e Movimentos Sociais e Populares", fruto de esforço coletivo de defensores públicos e assessores jurídicos populares, organizado por Amélia Rocha, Ana Carneiro, Luciana Zaffalon, Priscylla Joca, Rodrigo de Medeiros e Talita Furtado.

A obra conta com mais de trinta artigos, escritos por pesquisadores-militantes das mais diversas regiões do país. Destaque-se que entre os organizadores e os autores constam vários membros do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), o que demonstra a interface entre teoria e prática. São eles: além de entre os organizadores Priscylla Joca e Rodrigo de Medeiros, também Allan Hahnemann Ferreira, Cleuton Freitas, Érika Macedo Moreira, Assis da Costa Oliveira, Carolina Vestena, Rosane M. Reis Lavigne, Daniel Valença, Shirley Andrade e Ricardo Prestes Pazello.

A nota especial é o prefácio de Carlos Frederico Marés (também membro do IPDMS), dedica à figura histórica do advogado popular e teórico do direito insurgente Miguel Pressburger. Segue o prefácio na íntegra:


ASSESSORIA JURÍDICA POPULAR: O LADO DO DIREITO FICA À ESQUERDA


(prefácio ao livro de ROCHA, Amélia; CARNEIRO, Ana; ZAFFALON, Luciana; JOCA, Priscylla; MEDEIROS, Rodrigo de; FURTADO, Talita. (Org.). Defensoria Pública, Assessoria Jurídica Popular e Movimentos Sociais e Populares: novos caminhos traçados na concretização do direito de acesso à justiça.  Fortaleza: Dedo de Moças, 2013)


A defesa de camponeses e outros oprimidos sempre foi uma advocacia de risco. Risco de perder a liberdade, a integridade física e, não raro, a vida. Miguel Pressburguer[1] ensinou a minha geração de advogados populares que não podemos saber pouco direito, temos que saber muito, conhecer a lei e seus teóricos em cada detalhe e usar a lei quanto mais perto de sua literalidade, melhor. É o positivismo de combate, defendia. A ideia de Pressburguer, aprendida na luta judicial diária em defesa dos camponeses, nas leituras de livros possíveis na cadeia política e no estudo consciente do direito e do marxismo, era de que deveríamos usar a lei e a doutrina conservadora em sua literalidade de justiça. Todos sabemos que a liberdade, igualdade e justiça são molduras desusadas do sistema, mas temos que insistir para que valham para os camponeses, dizia. Para se fazer isso, é preciso uma postura de esquerda, isto é, crítica, insurgente, inconformada.

Naquele tempo, ainda antes de Miguel criar a entidade, depois chamada de ONG, “Apoio Jurídico Popular” - AJUP – quem defendia camponeses, índios e outras populações do campo contra latifundiários e grileiros era chamado de comunista, tivesse ou não atuação junto ao Partido clandestino, mas pesando sempre as penas a eles cominadas e a rudeza das botas da repressão política. Cada advogado de pobre tinha a experiência pessoal de prisões políticas e, não raro, torturas. E a única arma que podia esgrimir era a interpretação da lei, do espírito de justiça que embalava ou deveria embalar a lei.

Ter lado não é apanágio dos advogados populares. Todo advogado tem lado, não existe advogado neutro. Muitos, porém, tem o lado de quem primeiro o procura, não tendo muita importância a razão da causa, a defesa do cliente é sua profissão, são os chamados profissionais, ou liberais. Outros escolhem primeiro o lado, depois, se houver, o cliente; uns escolhem o lado por pura especialidade, só fazem determinada coisa ou ato; outros, por razão política, como Miguel Pressburguer e todos os outros advogados populares e assessores jurídicos de movimentos sociais.

A escolha do lado por razão política é a mais difícil e menos “profissional”, quer dizer, menos rentável. É uma opção de militância. Nessa militância, os imprescindíveis são os que fazem a opção por toda a vida, como dizia Brecht, e como fez Pressburguer.

A opção, porém, não é a mesma sempre. Durante as ditaduras militares na América Latina, a militância era a luta, no caso dos advogados, jurídica, contra as ditaduras, pelas liberdades, pelos direitos civis. Na medida em que o tempo passou, a luta pelos direitos foi se modificando e se sofisticando. Se antes era pelas liberdades individuais, depois passou a ser pelos direitos coletivos de pessoas, grupos, comunidades, povos e, finalmente, tudo isto juntado ao meio ambiente. Este foi um fenômeno latinoamericano e para isso foram criadas instituições como o ILSA - Instituto Latinoamericano de Derechos Legales Alternativos, hoje camada de Instituto Latinomaericano por uma Sociedade e um Direito Alternativos, com sede em Bogotá e se tornou uma rede de advogados trabalhando pelas liberdades civis e depois pelos direitos coletivos.

A defesa de direitos coletivos indígenas, quilombolas, camponeses foi ganhando espaço na advocacia popular, sem descurar das demandas individuais, especialmente combatendo a cada vez mais clara criminalização dos movimentos sociais que se realiza na perseguição penal de militantes. Este deslocamento de causas acompanha um crescimento da democracia na região. Quanto mais democracia se consegue no plano político mais estreitamento parece haver no Judiciário, cada vez mais julgando a favor da propriedade privada e contra os movimentos sociais. Curiosa contradição da democracia burguesa, basta se ter liberdade para lutar, o sistema policial-judiciário se insurge contra quem luta.

Sociedade contraditória, ao mesmo tempo em que a interpretação judicial diminuiu os direitos sociais e coletivos, a sociedade ampliou o espaço de atuação dos movimentos sociais. A advocacia e a assessoria jurídica popular se estenderam, se qualificaram, cresceram, surgiram redes, ganharam professores, teóricos, Congressos, encontros e respeitabilidade. Ganhou força a articulação. Mas continuou pequena frente a sempre abusivo avanço da fronteira agrícola e do capitalismo no campo.

Afinal a defesa contra as injustiças individuais e coletivas se estendeu para o próprio Estado que não teve outra alternativa senão criar as Defensorias Públicas. Mais do que criar, aceitar o novo sentido que se deu e está se dando a elas. De fato, visto de um ponto de vista mecanicista do Estado, o papel das Defensorias Públicas seria atender os pobres, individualmente, em suas “pretensões resistidas”, permitindo que chegassem com suas demandas individuais ao Poder Judiciário, estruturalmente caro, complexo e inacessível senão a iniciados, mas, em todo caso aberto para qualquer um, como no conto de Kafka “Diante da Lei”. Mas as Defensorias foram além e entenderam seu papel de defensores dos direitos e interesses coletivos, sociais e ambientais, isto os aproxima das assessorias e advocacias populares e os distancia do interesse imediato do Estado. É neste jogo dual que se definirá o futuro das Defensorias e, por causa deste jogo, nem os advogados populares, nem as assessorias jurídicas podem diminuir sua atuação e não podem nem pensar em deixar toda a defesa popular para as Defensorias, nem as Defensorias podem se submeter aos interesses do Estado e seus governantes. Aliás, a luta contra uma Defensoria Pública Popular e Coletiva, se faz sentir em muitos Estados brasileiros e, inclusive, em decisões judiciais que tentam limitá-la a uma advocacia que não disputa terra, moradia, meio ambiente e populações tradicionais. A resistência está se fazendo sentir com firmeza e as Defensorias Públicas não abrem mão de, cada vez mais, assumirem a defesa do coletivo.

Na defesa dos direitos coletivos, da sociedade e das comunidades há um permanente, reiterado, insistente confronto com os direitos individuais, especialmente o de propriedade, por isso, o lado escolhido pelos defensores, advogados populares, assessores dos movimentos sociais não pode ser senão o lado esquerdo do direito, como direito insurgente, achado na rua, positivista de combate, alternativo no sentido mais profundo da palavra, radical, porque toma as coisas pela raiz.

Este livro, dividido em quatro partes dá conta exatamente desta necessidade e desta disputa no seio do Estado. Em cada uma de suas partes o leitor viajará por este complexo mundo em que as jovens Defensorias Públicas se irmanam as já calejadas advocacia e assistência jurídica popular. Aqui se lerá teoria, experiência e prática do mundo da defesa dos direitos coletivos dos movimentos sociais, o que já é um êxito e os caminhos ou descaminhos que faltam para atravessar a ponte e se aproximar de um mundo mais justo e mais puro em que a Justiça do Estado exista apenas para impedir a injustiça.

Por isto entendo que este livro, que alimenta nossa esperança porque é escrito por jovens, me lembra os velhos juristas insurgentes, aos quais, com o nome de Miguel Pressburguer rendo uma emocionada homenagem.

Curitiba, outubro de 2013.
Carlos Marés[2] 



[1] Thomaz Miguel Pressburger foi advogado popular, coordenador do Instituto Apoio Jurídico Popular, foi diretor do Departamento de Pesquisa e Documentação da OAB/RJ, no Rio de Janeiro – RJ, assessor jurídico da Comissão Pastoral da Terra do Rio de Janeiro e nacional. Faleceu em 13 de julho de 2008. Ver:  "Thomaz Miguel Pressburger, presente!" 
[2] Carlos Frederico Marés de Souza Filho. Doutor em Direito do Estado. Professor Titular de Direito Agrário e Socioambiental da PUCPR. Fundador do Núcleo de Direitos Indígenas. Sócio fundador e primeiro presidente do Instituto Socioambiental-ISA. Membro diretor do Instituto Latinoamericano por uma Sociedade e um Direito Alternativos – ILSA. Membro diretor do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública – IBAP. Procurador do Estado do Paraná.


Saiba mais:

terça-feira, 5 de março de 2013

SOBRE A AJUP ROBERTO LYRA FILHO

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Depois de muito tempo sem escrever neste blogue, retorno trazendo o relato das atividades que estamos desenvolvendo aqui no Planalto Central, a partir da Assessoria Jurídica Universitária Popular (AJUP) Roberto Lyra Filho.

Nossa AJUP pode ser considerada uma feliz convergência, começando por seu nome, que congrega a sigla da experiência de Pressburguer e Baldez no RJ (AJUP) com o nome daquele que é talvez a maior referência do pensamento jurídico crítico no Brasil, Roberto Lyra Filho, prata da casa, da Universidade de Brasília (UnB).

A AJUP é também a convergência de um grupo de advoga@s populares que, desde o final de 2011, passou a se organizar para atuar voluntária e coletivamente na defesa jurídica de movimentos sociais no Distrito Federal. Tudo começou com o apoio ao acampamento Gildo Rocha, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), passou pelo acampamento 8 de Março do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e também acompanhou casos de despejos na Cidade Estrutural (região administrativa que cresceu em torno do Lixão de Brasília) e a luta dos índios Fulniô-Tapuya contra a destruição do seu Santuário dos Pajés pelo capital imobiliário, em virtude da construção do chamado “Setor Noroeste”.

No início as dificuldades foram imensas, tendo em vista por vezes a nossa inexperiência, mas especialmente a falta de organização. Com o tempo, foi possível estreitar contatos e atuar de forma preventiva, antecipando conflitos que se avizinhavam. No entanto, a falta de um apoio institucional e a falta de contato com os estudantes da UnB gerava dúvidas sobre a continuidade dos trabalhos. Outro problema identificado era que a atuação se restringia à advocacia popular, sem congregar atividades de educação popular, e que ainda por cima assumia muitas vezes uma perspectiva imediatista, “apagando os incêndios” dos conflitos cotidianos.

Felizmente, foi posível congregar um grupo de estudantes da Faculdade de Direito da UnB e de outros cursos jurídicos de Brasília, e, com o apoio do professor José Geraldo de Sousa Júnior, coordenador da AJUP, foi possível a sua formalização no Decanato de Extensão da UnB como Projeto de Extensão de Ação Contínua (PEAC). Com isso foi possível obter apoios na forma de bolsas e fomentos, impulsionados ainda pelo apoio do Núcleo de Prática Jurídica (NPJ), no qual o projeto possui atualmente um espaço para sua organização.

A assessoria jurídica popular era até então relativamente desconhecida na FD-UnB, cuja trajetória é forte na construção de projetos de extensão que atuam na educação popular em direitos humanos, sempre sob a perspectiva do Direito Achado na Rua, mas sem maior experiência no campo da advocacia popular (a maior experiência nesse sentido havia ocorrido no caso da Vila Telebrasília, no início dos anos 1990). A AJUP veio portanto para se somar às iniciativas de extensão popular, com o diferencial de buscar articular 3 eixos de atuação: (i) advocacia popular; (ii) educação popular; e (iii) fortalecimento político dos movimentos populares.

A advocacia popular é entendida não apenas como a atuação jurídica perante o Poder Judiciário, mas também como assessoria técnica aos movimentos populares nas negociações que ocorrem cotidianamente com o Poder Executivo, no acompanhamento de projetos de lei em tramitação no Poder Legislativo, na promoção de debates com outros agentes do sistema de justiça (Defensoria Pública, Ministério Público etc), e muitas outras atividades que surgem no cotidiano da atuação.

Já a educação popular é vista como o meio para a construção do diálogo com o movimento popular, desde as lideranças até as suas bases, buscando socializar as informações geralmente “codificadas” pela linguagem jurídica e por todos os seus aspectos técnicos. Trata-se de um trabalho de tradução, além de uma atividade de pesquisa-ação, já que, na interação com a comunidade, é possível extrair, junto com ela, os principais problemas enfrentados no cotidiano da luta política e social.

O fortalecimento dos movimentos populares é promovido pelas atividades de advocacia e de educação popular, compreendendo que o papel d@ assessor@ jurídic@ popular não é o de liderar ou organizar @s trabalhador@s, mas contribuir para processos autônomos de organização popular, fortalecendo os movimentos já organizados, inclusive com a inserção de novas pessoas e de novas comunidades nessas organizações. Não há, portanto, uma dicotomia entre atuação na comunidade e atuação no movimento social, mas uma necessária articulação entre ambos os aspectos.

Talvez um dos maiores desafios enfrentados atualmente pela AJUP seja a construção de um equilíbrio dialético entre seus 3 pilares, já que não há na verdade uma separação estanque entre eles. Na prática, foi possível compreender o quão pedagógica pode ser uma luta política, motivo pelo qual a atividade de advocacia popular, quando impulsiona essa luta, pode ser considerada também uma atividade pedagógica (exemplo disso pode ser encontrado no video abaixo). Por outro lado, a advocacia permite a construção de laços de confiança com os movimentos populares, tornando os contatos e as atividades de educação popular mais propícias ao debate franco entre trabalhador@s e integrantes do projeto.


Atualmente, a AJUP está organizada em 3 frentes de atuação. Uma frente atua com o MTST; outra com os movimentos que compõem a Via Campesina; e a terceira com @s catador@s de materiais recicláveis da Cidade Estrutural e também com o Movimento Popular por uma Ceilândia Melhor (MOPOCEM). Não há portanto uma organização interna do projeto com base nos chamados “ramos jurídicos”, mas sim a partir dos movimentos sociais concretos com os quais o grupo se propôs a atuar. Assim, @s integrantes de cada frente buscam construir relações orgânicas de confiança com as organizações populares, propondo-se a assessorá-las nos temas considerados problemáticos e sobre os quais a AJUP pode dar contribuições efetivas.

O fato de ter em todas as frentes a congregação de advogad@s e estudantes, não apenas do Direito mas de diversos outros cursos (Psicologia, Comunicação Social, Ciência Política etc), faz com que a AJUP tenha uma atuação diferenciada. Não seria exagero dizer que o projeto é pioneiro nesse sentido, considerando o modo de atuação dos demais projetos e programas de AJP atualmente existentes no país, pois supera na prática a velha dicotomia entre "assessoria X assistência". Não à toa, em menos de 5 meses de criação, a AJUP já havia se tornado uma importante referência junto aos movimentos populares do DF.

Os desafios colocados para a AJUP hoje são inúmeros e imensos. Construir novos estatutos jurídicos de forma democrática e dialogada com @s catador@s de material reciclável, enfrentando o interesse de atravessadores locais e das grandes empresas do setor; pressionar junto com o movimento sem-teto o Poder Legislativo distrital pela aprovação de projeto de lei que impulsione a construção de moradias populares; pressionar o Poder Executivo distrital e federal a destravar a reforma agrária junto com a Via Campesina; ampliar o número de estudantes, sobretudo de outros cursos, nas frentes do projeto; construir novas frentes de atuação que dêem conta de outras demandas atualmente não contempladas (como nas áreas de saúde, educação, transporte, trabalho etc); construir uma política de comunicação interna no projeto e de divulgação mais efetiva aos eventuais interessados...

Essas são apenas algumas das tarefas e dos desafios colocados para o próximo período, que devem estar necessariamente vinculados à atividade de pesquisa-ação, para a qual a construção do Instituto de Pesquisa,Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS) poderá prestar uma contribuição fundamental.

Estivesse vivo hoje, Roberto certamente estaria feliz e empolgado com o futuro da AJUP que leva seu nome. Vida longa à AJUP Roberto Lyra Filho!

Para saber mais:

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ana Cláudia Tavares e a advocacia popular no Rio de Janeiro


Dissertação de Ana Cláudia Diogo Tavares, professora e advogada popular, intitulada "Os nós da rede: concepções e atuação do(a)advogado(a) popular sobre os conflitos sócio-jurídicos no Estado do Rio deJaneiro", do curso de Mestrado em Sociologia e Direito na Universidade Federal Fluminense, de 2007.

Resumo:
Na presente dissertação analisamos as concepções e formas de ação dos(as) advogados(as) que atuaram e/ou atuam na assessoria jurídica ao Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST) no Estado do Rio de Janeiro, no período de reorganização local deste movimento (1995) até os dias atuais (2006). Examinamos os fatores (sócio-culturais e históricos) que influenciaram a organização de advogados em uma rede, denominada, atualmente, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), e nas práticas desses profissionais. De forma que procuramos compreender não apenas o olhar de advogados(as), auto identificados(as) como advogados(as) populares, sobre os conflitos sociais que envolvem a luta pela reforma agrária, mas também os instrumentos jurídico-políticos utilizados na defesa dos movimentos populares, no intuito de auferir as diferenças entre a advocacia tradicional e a popular. Nesse sentido, situamos, através de entrevistas com esses atores sociais, seus desafios e estratégias, assim como traçamos um panorama de diversas contribuições da Teoria Crítica do Direito, sublinhando a ideologia e a aplicação empírica dessas teorias pelos referidos assessores

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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Poema do Rodrigão sobre encontro da Renap em Salvador


Juraci, ô Juraci...

Rodrigo de Medeiros,  31/12/12


Ah, naqueles dias em Itapuã,
Rodeados por tão, tão bons amigos,
Na expectativa de tardes vãs,
Bem longe das disputas e perigos,
Pessoas boas, por isso, nada sãs,
Rememorando seus contos antigos,
A beber em Juraci e Vinicius,
A curtirem todos os seus bons vícios.

Vinicius que serviu o mais famoso,
Tinha a sua social percepção,
Por meio de um estigma jocoso,
Fazia critica à exploração
Por trabalho, não era preguiçoso,
Trazia outros valores, pois ação
Que não traz para vida bom sentido,
Não se deve bem dá assim ouvido.

Por isso, que trouxe Nova Schin,
Quando Skol no freezer, no fundo,
Bem ficou. Viu que não valia assim,
Esforço, pois beber era profundo
Desejo, e não por marca e sim
Estar com companheiros neste mundo.
Seu Vinicius, então, nos relembrou,
Missão que cada um se colocou.

Ao pagar conta, nosso Potiguar,
Pegou Vinicius a vida tecendo,
A rede de pesca a costurar,
O que traz as pessoas acolhendo,
Dando peixe, que vem pão a ganhar,
Por isso deu chamado, nem vendo,
Pra que Juraci fosse receber
Conta, sem o, então, desentreter.

Mas quando faltou gelada cerveja,
Por não ter posto no freezer antes,
Foi mesmo boa preguiça, sem peleja,
Pois os que são da vida, bons amantes,
Preferem bem contemplar, nem que seja
A custa de qualquer ganho; que distantes
São os valores ali cultuados,
Do capital contrários, apartados.

E por fim, quando Vinicius pediu
Para Julia ver a conta conosco,
Foi à forma que ele coloriu
À noite, com tanto, tanto bom gosto,
Desfilar que alegria conferiu,
A todos aqueles curtidos rostos,
Que sorriram com mais esta história,
Guardada com alegria na memória