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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Assessoria popular nordestina: a Dignitatis

Um dos grandes objetivos do blogue Assessoria Jurídica Popular é tornar possível o diálogo entre os assessores populares brasileiros, apresentando-se como canal privilegiado de comunicação entre eles. Sem a visibilidade, troca de experiências e a ação conjunta dos realizadores da AJP, esta perde sua principal força. Daí a necessidade, sentida por nós, de fixarmos nosso contato para podermos realizar mais do que nossas atividades/saberes locais.

Por isso divulgamos agora o blogue da Dignitatis - Assessoria Técnica Popular, organização popular que reúne, dentre outros, juristas, pedagogos, historiadores, jornalistas e geógrafos no intuito de trabalhar com os movimentos sociais e populares.

Longa vida à assessoria popular no Brasil!

Assim se apresentam os assessores populares da Dignitatis:

A DIGNITATIS - Assessoria Técnica Popular, organização civil sem fins lucrativos, pessoa jurídica de direito privado, tem entre seus objetivos principais prestar assessoria técnica popular aos movimentos sociais que atuam no campo e na cidade, assim como facilitar e articular atividades de formação na área de direitos humanos e cidadania.Enquanto concepção de Assessoria a Dignitatis remonta ao ano de 1995, mas a partir do ano 2003 com maior qualificação dos/as profissionais e o estimulo à participação em outras esferas de intervenção é criada através de registro jurídico a ONG Dignitatis – Assessoria Técnica Popular, ampliando sua atuação para outras áreas correlatas a luta pela promoção, defesa e efetividade dos Direitos Humanos.Atualmente a Dignitatis – Assessoria Técnica Popular conta com profissionais com conhecimento nas áreas do direito, pedagogia, geografia, jornalismo e história, assim como pessoas de outras formações e experiências que atuam nos Estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

AJP e Etnodesenvolvimento

Há algum tempo venho refletindo sobre as articulações possíveis entre Assessoria Jurídica Popular (AJP) e construção teórica definida como etnodesenvolvimento, não apenas devido o curso do qual sou professor e que possui o referido nome, mas também para apresentar possíveis novos entrelaçamentos da prática acadêmico-profissional da AJP.

Pois bem, uma primeira questão talvez seja propor certa conceituação do termo etnodesenvolvimento. No mesmo período histórico em que se pensava o conceito de desenvolvimento sustentável – década de 80 – nos países europeus, na América Latina fervilhavam debates entre diversos especialistasacadêmicos, culminando com sua primeira apresentação pública na “Reunião de Peritos sobre Etnodesenvolvimento e Etnocídio na América Latina”, promovida pela articulação entre a UNESCO e a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), em dezembro de 1981, na cidade de San José/Costa Rica.

Desde então, muitos autores – destaco: Rodolfo Stavenhagen, Guilhermo Bonfil Batalha, Ricardo Verdum, Gilberto Azanha, Ivani Ferreira de Faria e Rodrigo Azevedo Grünewald – vêm trabalhando na definição do conceito, sempre na linha de questionar o modelo de desenvolvimento historicamente imposto aos povos colonizados que tem por base ideologias capitalistas e coloniais, com a proposta de “outro” modelo que recupere o legado político-cultural e socioambiental destes povos.

Não pretendo realizar um apanhado teórico extenso, mas referi apenas, dentre os autores citados, aquele que considero que possui a definição que melhor possibilita a articulação com a práxis da AJP, que é o texto de 1982 de Guilhermo Bonfil Batalha denominado de “El etnodesarrollo: sus premisas jurídicas, políticas y de organización”. Para Batalla (1982), o etnodesenvolvimento requer que as comunidades sejam efetivamente gestoras de seu próprio desenvolvimento, que busquem formar seus quadros técnicos de modo a conformar unidades político-administrativas que lhes permitam exercer autoridade sobre seus territórios e os recursos naturais neles existentes, de serem autônomos quanto ao seu desenvolvimento étnico e de terem a capacidade de impulsioná-lo. Para o autor, há duas questões fundamentais para o etnodesenvolvimento: (a) capacitação de quadros técnicos dentro dos próprios grupos indígenas (ou, no sentido hoje atribuído, povos e comunidades tradicionais), sendo que os programas de capacitação devem tomar como base a cultura para a qual se destina esta capacitação; (b) programa de etnodesenvolvimento deve ser assunto interno a cada povo, ou seja, deve ser definido e levado a cabo por cada grupo, sendo que o Estado, por meio de suas agências, tem o dever de apoiar e criar condições para que se torne possível.

Evidentemente as duas questões fundamentais levantadas por Batalla (1982) são a autonomia e a capacitação ou qualificação técnica dos povos diferenciados socioculturalmente, para os quais a AJP pode colaborar. Penso isso muito com base no que estamos realizando aqui na região do rio Xingu/PA, no assessoramento jurídico do Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVPS), sendo a contribuição da AJP posta em dois planos: (a) na garantia da autonomia dos povos e comunidades tradicionais, sobretudo quando se objetivam em movimentos sociais, com especial atenção ao fortalecimento da participação nos espaços de negociação sócio-estatais, pois significa instrumentalizar a linguagem jurídica e os assessores jurídicos para atuar no auxílio à manutenção dos pleitos e proteção contra possíveis retaliações, em especial de políciais e da mídia, o que exige, por deveras, o acompanhamento permanente das ações políticas dos povos/comunidades/movimentos, colocando-se publicamente como assessor jurídico como medida que, de certa forma, constrói seguridade social aos membros internos, mesmo quando são alvos de ameaças e repressão; (b) na idéia de capacitação ou qualificação técnica, o que envolve a necessária formação de grupos de estudo ou de mini-cursos/oficinas em que sejam discutidos assuntos relativos às principais temáticas de direitos demandadas pelos povos/comunidades/movimentos, seja em termos de sua promoção (como os direitos indígenas e o direito ambiental) ou de sua proteção (como o direito penal, para saber lidar com a polícia e os agentes judiciais), sempre tendo por base os aspectos do pluralismo jurídico, da diversidade cultural e da autonomia que interferem radicalmente na percepção/aplicação dos direitos.

Penso que em contexto de conflito político nitidamente polarizado e de extrema impunidade institucional, como é o caso envolvendo a UHE Belo Monte, a AJP precisa estar articulada em rede com outras instituições públicas e sociais para saber tocar as demandas que surgem dos movimentos sociais, e que por vezes não está propriamente na necessidade de encontrar a melhor solução jurídica para os problemas sociais, mas antes na capacidade de dialogar com os movimentos sociais à eficácia das ações políticas a serem tomadas numa perspectiva de desobediência civil – ou de pluralismo jurídico – aos direitos e às instituições públicas, o que envolve a consideração de formulações estratégicas que considerem os riscos e os potenciais, os ganhos e as possíveis perdas simbólicas e físicas.

As reflexões ainda estão no início e há muito a problematizar com as experiências adquiridas a cada dia. Temos muito que aprender com os povos/comunidades/movimentos, neles é que estão os verdadeiros advogados populares que, sem precisar de nenhum diploma universitário, constroem as possibilidades de formulação e efetivação dos direitos no cotidiano dos embates políticos. O etnodesenvolvimento representa a escolha política por tipo de desenvolvimento social que respeite os interesses e as reivindicações étnicas situadas em determinado contexto local, cujos porta-vozes são homens e mulheres que, na maioria das vezes, só conheceu a face da repressão e do abandono do Estado, o que não significa dizer que não lutem por um Estado melhor, mas que pensar os direitos e o desenvolvimento a partir de suas epistemologias étnicas está necessariamente relacionado em repensar o modelo estatal, ao menos no que diz respeito à efetivação de políticas públicas e de participação social no poder.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Carta de Divulgação do Nascimento de Nova AJUP

Amig@s de RENAJU, de REAPE, de NAJUPAK, de Direitos e Movimentos, e de blog Assessoria Jurídica Popular, é com imensa alegria que comunicamos o nascimento da mais nova Assessoria Jurídica Universitária Popular (AJUP), denominada Assessoria Interdisciplinar e Intercultural em Direitos Humanos (AIDH).

A AIDH pretende realizar atividades de ensino, pesquisa e extensão em educação popular em direitos humanos a partir do espaço do Campus Universitário de Altamira da Universidade Federal do Pará (UFPA). Inicialmente, aprovamos o programa de extensão de mesmo nome no edital de financiamento de atividades de extensão da UFPA, seguindo três linhas de atuação: (a) formação sobre os direitos das crianças e dos adolescentes com conselheiros tutelares e associações indígenas da região do rio Xingu/PA; (b) realização de eventos de arte-educação na Universidade, denominados de Sarau de Poéticas e Direitos Humanos, para festejar a vida e refletir sobre os problemas sociais, com base nas linguagens artísticas; (c) assessoramento do Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVPS), nas ações político-jurídicas de enfrentamento ao projeto de construção da UHE Belo Monte.

Nossa assessoria nasce compartilhada por 18 membros, sendo a maior parte de estudantes do Curso de Licenciatura e Bacharelado em Etnodesenvolvimento, e fincada estruturalmente na faculdade deste curso. Portanto, é uma AJUP constituída fora do curso de Direito! Com estudantes universitários oriundos de povos indígenas, comunidades de agricultores, pescadores e movimento negro, além de participantes dos cursos de Letras e Geografia, e de uma servidora da Instituição.

Esperamos que o tesão ajupano esteja presente em cada ação que realizarmos a partir de agora, em prol de uma sociedade mais justa, sustentável e plural. Também aguardamos o momento de interagir mais diretamente com as pessoas das outras entidades espalhadas pelo Brasil.

Forte abraço a tod@s!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A comunicação e o apoio popular

A militância hoje está se organizando em torno da comunicação. Os assessores populares trabalham diretamente com a produção de informação, campanhas de agitação e propaganda.

Variadas vertentes políticas (anarquistas, socialistas, comunistas) reúnem-se em meios de comunicação alternativos, especialmente blogues e jornais. Neste blogue, por exemplo, reúnem-se professores, estudantes, advogados, trabalhadores, entre outros assessores populares.

O tema geral do direito insurgente remete a necessidade de pensar a comunicação nos mesmos marcos. É preciso utilizar a mesma estratégia fundada na dualidade da assessoria jurídica popular: positivismo de combate e pluralismo jurídico popular e insurgente.

Na comunicação pode ser feita a analogia para um jornalismo de combate e uma comunicação social popular e insurgente. Cabe tanto uma aliança com a classe dos jornalistas, que vem sendo duramente atacada nos últimos anos, como assumir o desafio de fazer comunicação com viés jornalístico.


Assessores populares: olhai para estes ternos olhos em fogo.


O jornalismo de combate significa tanto a proposta do entrismo, de Adelmo Genro Filho, de que é necessária a guerra de posição nos grandes meios das grandes mídias (jornal, rádio, televisão, internete) - além, é claro, de sua valorosíssima contribuição sobre uma teoria marxista do jornalismo, na obra "O segredo da pirâmide"; como o jornalismo de libertação, de Elaine Tavares, de entregar-se de mente e coração aos movimentos sociais e vivenciar junto com estes para ajudar a contar as suas histórias - com sua obra "Porque é preciso romper as cercas" . Este último já se coloca dentro da proposta maior de comunicação popular e insurgente, que significa a criação de novas estratégias, instrumentos, que reúnam a cientificidade, a arte e o conhecimento popular. Bons exemplos neste campo são mesmo o Núcleo Piratininga de Comunicação, Palavras Insurgentes, Centro Teatro do Oprimido, Fazendo Media, Brasil de Fato, entre muitos outros.

Façamos da asessoria jurídica popular um espaço de comunicação, que estrapole os limites dos projetos com rádios comunitárias e até mesmo este blogue - para construirmos a unidade para a luta.