quarta-feira, 9 de março de 2011

Saindo definitivamente de cima de muro...

Texto de Diana Melo Pereira - Advogada Popular da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e Integrante da XVIII Brigada de Solidariedade a Cuba - 2011





As linhas aqui esboçadas não são tecidas com a pretensão de se fazerem enquanto artigo, mas saem de mim enquanto testemunho...

Como todo testemunho, cabe inicialmente por honestidade, mencionar o quão parcial ele será (como se os ditos textos científicos não fossem, mas vamos lá)...



É parcial, sim.

E o testemunho virá, esse primeiro, já que muitos estão aqui, como semente encapsuladas que germinarão daqui há um pouco, carregado dos meus sentimentos, do meu calor.

Mas não só meu.

Um calor compartilhado com duas dúzias de corações pertencentes a minha e a outras nacionalidades. Corações que se descobrem e/ou se fortalecem na sua latinoamericanidade.

É uma tarefa tão difícil essa, a de recordar. Primeiro porque as lembranças não vêm devargarzinho, uma a uma, como que ditadas com calma por um juiz quadrado para que o escrivão dê conta de reduzir a termo.

Não.

Isso é moderno, masculino demais.

As lembranças vêm aqui aos atropelos, caóticas, explosivas e pedem um gole de vinho, suspiros, pedem pra acender um cigarro, incensos, porque despertam emoções demais. Quem sabe tivesse sido mais fácil escrever à medida que as coisas aconteciam...

Seria talvez mais rica a descrição dos fatos.

Ou não. Não sei muito. Muitas coisas estão ainda sendo digeridas. Muitas coisas talvez não sejam completamente digeridas nunca, tamanhas as emoções e a riqueza das coisas vividas. Vão ficar aqui regurgitando, para serem novamente mastigadas, por toda a vida.

É essa a conseqüência da experiência vivida em Cuba. Por Cuba em si. E por ela ter sido partilhada com tantas pessoas que se fizeram queridas no corpo da viagem.

O que me povoa da experiência? Uma grande vontade de me fazer sempre gente, sempre. Inteira. Gente que milita, que luta, que ama, que dança, que é corpo e alma. Que assume seu corpo. Voltei dessa viagem mais feminista que nunca no que diz respeito a não perder de vista que somos íntegros. Ludicidade, amor, afeto, indignação, racionalidade, paixão, tudo, tudo junto, misturado. Quem disse que o militante precisa ser sério? Quem disse que a seriedade é distante da brincadeira? Cuba é tudo isso. É seriedade, é brincadeira... E tudo ao mesmo tempo.

A ludicidade presente na Ilha é estampada no rosto do povo. No seu jeito de andar, no seu jeito de dançar...

A solidariedade vive nos sorrisos, até mesmo daqueles que são contra o regime, pelos mais variados motivos, dos mais rasteiros, acreditando que o capitalismo trará a resposta às demandas mais instantâneas, até as críticas mais seguras de si, dirigidas ao que o regime tem de autoritário. Mas vive principalmente na esperança e no orgulho daqueles que o apóiam. Que conhecem o que o capitalismo falseia e não acreditam nas suas falsas promessas. A falsa promessa de que tudo se pode conseguir através do trabalho e da livre concorrência, de que a dita racionalidade moderna e o progresso não têm limites.

Pois sim.

As duas falas me trouxeram a certeza de sair de cima do muro e defender a construção de um mundo socialista.

Sim. A construção. Nada pronto, nada que seja simplesmente recortado de Cuba e levado para o mundo. Segundo os cubanos, cada povo deverá construir seu próprio caminho. Pois sim. O cubano é o povo que defende o cosmopolitismo e a autodeterminação dos povos. Essa foi outra das mais preciosas lições desta viagem.

É essa fala que me coloca a urgência do trabalho alegre, que me dá forças de invadir a madrugada, que me dá a felicidade de ler e me inteirar e me coloca a responsabilidade de seguir lutando, pra ajudar a construir por onde passe as lutas diárias, localmente sim, mas cada vez mais conectada com a América Latina, com a África, com o mundo. É essa fala que me empurra a sair de cima do muro e não ter mais qualquer pudor de sair em busca de utopias.

Se um dia, a partir da convivência com os movimentos feministas e após perceber um bom número de suas vicissitudes, me disse feminista; se um dia, após conviver com os movimentos populares e descobrir o seu lado não romantizado, me disse advogada popular; se um dia, após viver o movimento estudantil e extensionista, vi que a luta levava a caminhos e descaminhos, continuo assinando como extensionista, depois desse caminho, vendo as possibilidades e os equívocos do mundo socialista, me proclamo, sem medo, socialista sim e defensora do socialismo em Cuba.

As lutas em nome da liberdade não são puras e nem precisam ser. Só precisam abrir mesmo esse caminho para a possibilidade. O povo cubano não deixou de lutar, não permanece estático. Talvez, à primeira vista, aqueles casarões antigos, os carros da década de 70 (ou até mais velhos que isso) tragam a falsa impressão de que aquela Ilha parou no tempo. Mas não. Ao se conversar com as pessoas nas ruas, ao perceber as movimentações e mudanças que continuam acontecendo no sistema, se percebe o quanto aquelas pessoas se reinventam e o quanto a dita ditadura é relativa e o quanto a dita democracia dos países capitalistas é também relativa.

Onde há mais liberdade? Aqui, no Brasil ou na Ilha Socialista? Onde há maior resistência à inovação nas instituições?

Cuba vivencia hoje um processo de re-planificação que passa a seu turno pelo incentivo à independência das pessoas do Estado. Sem perder de vista a necessidade de continuar garantindo o melhor sistema de saúde e educação do mundo, Cuba se reorganiza para que seu povo não passe fome. Frente a uma inevitável crise produtiva mundial, porque pautada em um sistema de crédito e de divisão mundial de produção que é extremamente frágil porque sustentado em um sistema financeiro que não tem qualquer pudor de quebrar países e deixar povos na penúria, Cuba se prepara para ser autosustentável na produção de alimentos básicos.

Prepara-se não para garantir a pura sustentabilidade do regime (o regime inclusive corre o risco de se quebrar com as modificações colocadas), mas para garantir a sustentabilidade do povo cubano. A política de recolocações (não de demissões) é a resposta encontrada pelos cubanos para combater a sua baixa produtividade agrícola. Os cubanos, como as cigarras, enxergam a possibilidade de fome mundial futura a partir de novas crises e se organizam para garantir que isso não atinja a Ilha.

Mas, para além de inteligente, essa preparação é também bela, porque podem ser os cubanos, a partir de sua perspectiva de solidariedade, que estenderão as mãos a dar de comer a outros povos, se forem vitoriosos na garantia de sustentabilidade. Porque sua perspectiva em relação aos outros povos sempre foi de construção solidária.

Assim o foi e continua sendo em relação à medicina e à educação. Os cubanos nunca guardaram a sete chaves suas conquistas, pelo contrário, sempre se ofereceram para ajudar outros povos. O que dizer da experiência concreta da ELAM? Escuela Latino-Americana de Medicina. Aberta a estudantes de toda a América Latina e inclusive dos Estados Unidos que se comprometem a voltar a seus países e atender às populações mais carentes.

Cuba solidária. Cuba viva. Cuba que preza pela vida não só dos seus, mas de todos os povos. Cuba que mostra que contra o ódio que coloca o embargo, a melhor resposta é o acolhimento e o ensinamento daquilo que conseguiram construir de melhor.

O que fazer, diante disso, senão sair de cima do muro quanto ao socialismo? O que fazer diante disso, senão assumir a tarefa de ler, de pensar, discutir e tentar construir o socialismo brasileiro? Mesmo que os nossos caminhos sejam outros... O que fazer senão me esforçar para construir uma pátria latinoamericana ou ainda mais que isso, uma pátria mundial baseada na solidariedade dos povos?

É verdade, Cuba não é perfeita, nem pura, que bom que não é.

Que bom que não quer ditar regras a ninguém.

Cuba me lembrou muito, fora todas as pensadoras feministas, Cuba me lembrou muito Warat, saudoso Warat, no que diz respeito a essa impureza, a essa imperfeição. Warat que queria sujar, carnavalizar e impurificar o mundo.

A tarefa é essa: colorir, carnavalizar o mundo.

Todos os dias.

10 comentários:

  1. Que bom contar com todas vocês em nossa companhia!

    Me chamou a atenção tua defesa do socialismo em Cuba, mesmo que contra a posição política de seus governantes, de negar este regime nos últimos anos. Concordo que não podemos colocar este país no mesmo rol de muitos outros capitalistas de nosso continente. É muito diferente.

    Se não fosse o seu socialismo, o que fundamentaria tantos boicotes internacionais?

    O que me preocupa, como a todos cubanos e cubanas, acredito que seja o seu futuro político. Seja socialista, capitalista, ou algo muito diferente, o que será de seu futuro?

    Leio, volta e meia, a coluna do blogue "Generación Y", de Yoni Sanchez. Me custa entender todo o contexto cultural e político deste país, mesmo tendo tido a mesma experiência de visitá-lo nas Brigadas Sul-americanas de Solidariedade com Cuba.

    Mas claro, teu texto me instigou a conhecer ainda mais, e a amar ainda mais!

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  2. Lindo texto, Diana! Saudações socialistas, Tina

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  3. Querido Ribas,

    Não conhecia o blog "Generation Y", até esta tua menção, mas senti como se já o conhecesse. Não pelas conversas que tive em Cuba, mesmo com os cubanos que fizeram críticas ao regime, quer mais rasteiras ou consistentes...
    Na verdade, me lembrou bastante um cubano muito simpático que conheci em 2003, depois do I FSB, no caminho entre Belo Horizonte e São Paulo (para onde estava indo me lançar às cegas atrás do movimento feminista de Sampa). A similitude com a Yoni foi que o senhor, passou uma boa parte do caminho relatando como em Cuba só havia coisas terríveis, bem ao estilo "os comunistas que comem criancinhas". Não tinha qualquer elemento na época, mas aquela fala não conseguia me convencer. Não sabia bem porque, mas algo não me soava verossímel o bastante. Uma sensação muito parecida com a que tinha quando ouvia os jargões pejorativos quanto aos índios, negros e mulheres, mesmo bem antes de conhecer qualquer movimento social, mesmo bem antes de lutar ao lado das pessoas e dos grupos. Lembrou-me muito também a cobertura da Veja e da Globo sobre os relatos feitos sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra ou da fala dos "jornalistas" policiais sobre o movimento de Direitos Humanos... Ou seja, a gente sabe (ou, quando não sabe de todo, tem a intuição forte) e o meu texto quis dizer isso, que o espaço de luta não é puro, não é "bom" ou "mau", nem acabado. É dialético. E Ribas, raras foram as vezes em que me deparei em Cuba com pessoas que defendiam o regime socialista cubano como intrinsicamente "bom" e que deveria permanecer estático, porque perfeito. Acreditando na solidariedade enquanto sul, enquanto guia, e nas possibilidades e força do próprio povo, defendiam mudanças que, segundo as vozes que ouvi, nos mais diversos espaços, estavam sendo democraticamente construídas. Se percebe que não conseguimos saber de tudo sobre a Ilha durante o espaço de tempo que compreende as Brigadas e talvez a gente saia de lá com mais curiosidade e dúvidas do que quando se chegou, mas, quanto mais via, quanto mais conversava com as pessoas, mais sentia orgulho de pisar em solo cubano. Sobre a liberdade de expressão, ou falta dela, antes de julgar Cuba, olho para o Brasil e para s lutas que travamos todos os dias para ter voz e d@s companheir@s assassinad@s porque tiveram a ousadia de denunciar e lutar contra violações de direitos humanos. Em Cuba não sei ainda ao certo como as liberdades podem ser limitadas, mas no meu país sei bem que não somos tão livres assim para a manifestação de idéias ou de manter em punho bandeiras levantadas. E pagamos com a vida, com a integridade física os atrevimentos... E não matam só o nosso corpo, com tiros pelas costas, nos matam a unha, com a fome e com a miséria, com as barreiras colocadas entre o povo e o pensar crítico. Não estou aqui querendo fugir do debate, mas páro e reflito um pouco,coço a cabeça, e não vejo qual a justificativa plausível de se manter o bloqueio a Cuba pelos motivos que se levantam. Cuba não é democrática? E nós, por acaso somos? O povo brasileiro participa mesmo do processo de escolha de seus governantes? A fundo? Diante dos critérios estabelecidos para punir Cuba, de falta de garantia de liberdades fundamentais, qual país do mundo não seria bloqueado? Sobre a falta de liberdade de ter um diário, como a Yoni colocou ser uma coisa que pertença à realidade cubana, por conta de seu socialismo, o que pode dizer a menina da periferia que tem sua casa invadida durante a noite por policiais sem um mandado? Ela pode dizer que tem a liberdade de ter seus segredos?
    Inspirada pelos ares daquela Ilha e em muitas lutadoras e lutadores que conheço, continuo eu,imperfeita, impura e contraditória que sou, lutando pra construir essa liberdade que não existe sem uma luta por igualdade. De outra coisa sei: a história de resistência daquela Ilha alimenta minha esperança na solidariedade e no amor. Vamos conversando. Há muito a descobrir...

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  4. Diana! Em poucas palavras, "gracias" pela tua postagem, é justamente de muitos "encontros" que necessitamos na construção de alternativas possíveis.

    Grande beijo

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  5. Fideo à guevariana11 de março de 2011 17:14

    "Que bom que não quer ditar regras a ninguém."

    Com esta frase do post, expresso meu repúdio à censura de comentários deste blog. Curioso os que se dizem socialistas fraternos denegarem o direito legítimo de cada qual expressar sua opinião, apenas porque é contrário ao "monopólio" da crítica.

    É por farejar de longe esta hipocrisia de longa data que reina entre os "esquerdinhas" brasileiros que escrevo aqui novamente:

    "Sigam o que vai no coração. Nem sempre é o socialismo. Nunca será este que os censores de idéias pregam aqui. Às favas para este socialismo".

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  6. VIVA O SOCIALISMO!!!! Num mundo de injustiças, nossa luta ainda tem lugar. Lutemos para que o mundo seja dado pelos que acreditam que podem nos direcionar a história.
    Seguremos nossa história nos dentes, quando nossos braços não tiverem forças e nossas pernas tremam. Porque, mesmo com poucas forças, ninguém pode nos tirar a vontade de lutar e de transformar o mundo.
    Parabéns pelo texto, Di. Se a censura nos impede de produzir as coisas que o mundo precisa ouvir, esse o lugar construído para isso.

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  7. "Fideo à Guevariana",

    Onde você foi censurado aqui? Se está falando do seu comentário sobre esta postagem, acho que você se confundiu e colocou nesta aqui:

    http://assessoriajuridicapopular.blogspot.com/2011/03/reflexao-partir-da-leitura-de-balaios-e.html

    Dá uma olhadinha.

    E voltando à questão da censura. Duvido que você venha a sofrer isto aqui no blogue. No máximo, vai receber críticas pelo que escrever.

    E se você acha que devemos ouvir o que há nos nossos corações, por que não se desarma um pouco e vem acrescentar ao diálogo do blogue compartilhando conosco o que há no seu?

    Eu já me declarei não-marxista em algum comentário anterior e nem por isso sofri qualquer imprecação ou censura aqui. Antes de tudo, este espaço é para divulgação das temáticas referentes à Assessoria Jurídica Popular e para o debate do que vier a ser apresentado. Não há seleção dos participantes do debate por credos, ideologias, partidos, leituras ou times de futebol. Reduzir a complexidade de um ser humano a uma de suas escolhas? Jamais!Pelo menos é essa postura que eu percebi por aqui até agora.

    Assim, repito, tomo a liberdade de convidá-lo a, revendo um pouco sua postura, tentar o diálogo por aqui. Nós só temos a crescer com isso, sabe, ouvindo o outro, tendo respeito pelo o que ele tenha a dizer, ainda que venhamos a discordar absolutamente.

    É isso. Prossigamos,então.

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  8. Caro(a) anônimo(a)
    Censura? Agora vc vai precisar explicar isto.
    Ah, aproveite para dizer quem é.
    "Crítica" apócrifa é ruim de aturar.

    A cada comentário seu responderemos com muitos outros repletos de boniteza.

    Nosso lema é freiriano: "o monstro de cinco mil anos não resiste a dois minutos de pura ternura".

    Linda resposta Nayara, um abraço

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  9. É, não houve censura. Poderia ficar por isso mesmo, com alguma marotice estilo "foi mal, galerinha", mas parece que quiseram tsunamizar a simplicidade. Então rebato:

    Convites revisionistas, deles não preciso. Eis a afirmação da crítica que não reconhecerá na postura hostil do lúmpem um benefício, se não um "vício", algo "mau" e "terrível". Como se o natural fosse mimetizar as posturas felizes e dançantes dos abonados. Assim, nada tem que julgar a postura de quem quer que seja, sra. Nayara.

    A este Luís, apenas lamento que tenha visto o equívoco e mesmo assim me "instigado". Foi o equívoco correspondente de sua parte. Além de desconhecer a origem da monstruosidade, ela própria o outro lado da "boniteza". Enquanto uma existir, a outra existirá também. É por isso que o monstro de cinco mil anos vai viver outros cinco mil anos.

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