domingo, 6 de março de 2011

As mulheres, sua resistência e a totalidade: ou quando as compositoras femininas compõem sua própria história

"A mulher de cabelos verdes", de Anita Malfáti

O dia internacional da mulher, comemorado a 8 de março, é mais uma daquelas datas, fatos ou personagens históricas que causam muita controvérsia quanto a seu resgate nos tempos atuais. É o que se percebe com a ambigüidade da disputa histórica por nomes e eventos como o de Sepé Tiaraju, Simón Bolívar, Contestado e Canudos, Lampião e outros mais. Sempre apropriados pelas mais distintas ideologias, acabam sendo disputados em sua significação histórica. Em termos transcontinentais, ocorre mais-ou-menos o mesmo com o dia internacional da mulher, sendo proclamado pelos socialistas como uma reivindicação sua ou como expressão de uma conquista conseguida pelos liberais. O fato é que, afora as mais diversas controvérsias sobre quem elevou primeiro essa bandeira, há um consenso geral de que o 8 de março teve sua origem na tragédia das trabalhadoras da indústria têxtil de Nova Iorque, em que mais de uma centena de mulheres morreram num incêndio que foi o estopim de uma situação de absoluta negligência e exploração do trabalho e do trabalho feminino, em específico.

Pois bem, rendendo homenagem a esta justa lembrança histórica, que não pode se reduzir a mais uma data festiva e celebratória do consumo e do estado de coisas atual, vou propor hoje uma reflexão que desenvolva uma idéia já registrada por mim neste blogue: os três cortes que estruturam nossa realidade, apresentando três opressões que se retro-alimentam e dão o tom de nossa história presente.

Para dar vida a esta reflexão, todavia, vou seguir um caminho lúdico, resgatando o referencial da música popular latino-americana como guia interpretativo. Na melhor das propostas deste blogue, a dialética entre teoria e prática, o mais das vezes, pode, sim!, se fazer pela ludicidade, já que o poeta é, pela etimologia da palavra, o criador. Não se trata de uma postura irracional ou nefelibática, mas antes de tudo CRIADORA, a partir da expressão cultural de um povo.

A mulher sempre foi objeto na literatura e, quando sujeito, foi forjada nos moldes do pensar patriarcal. Basta lembrar, na formação da língua portuguesa, as chamadas cantigas de amigo, em que a mulher é o eu-lírico, ainda que nunca a autora da cantiga.

O interessante é que a característica medieval perduraria por muito tempo na tradição literária e, em termos de língua portuguesa, só se derrubaria no século XX. Musicalmente, o mesmo pode ser constatado. As cantigas de amor e de amigo, próprias do troavadorismo galego-português, traziam em si a unidade da forma literária com a musical, já que eram declamadas e cantadas ao mesmo tempo, até que o desenvolvimento filológico consolidou a escrita e a separou da popular tradição oral. Pois bem, apesar de isso, a unidade masculina na feitura tanto de músicas quanto de poemas prevaleceu.

Sem dúvida, há muito o que se pesquisar sobre isso, mas o que importa aqui é fazer a conexão dessa ordem fenomênica com o relativo desprezo pelas compositoras da música popular entre nós. Você, leitor, o que responderia à questão: quem são os grandes compositores da música popular brasileira? Certamente, aparecerão aí de Antônio Calado a Hermeto Pascoal, de Noel Rosa a Chico Buarque, de Cartola a Tom Jobim ou de Lupicínio Rodrigues a Marcelo Camelo. E qual o motivo para não lembrarmos das mulheres?

A princípio, pode-se justificar que se trata de mera coincidência ou mesmo de subjetividade; para não falar nos casos em que se considera a competência propriamente dita. A meu ver, porém, esta realidade musical reflete os parâmetros patriarcalistas que regem nossa avaliação cultural e, ainda que isto possa carecer de fundamentação, faz com que esqueçamos, todos, de importantes criadoras da história nacional e continental recente, por meio da música.

Muitos dirão que tivemos e temos grandes intérpretes: Elizete Cardoso, Elis Regina, Clara Nunes ou Mônica Salmaso, para o caso brasileiro; Mercedes Sosa ou Ema Junaro, para o latino-americano. Mais do que, porém, detentoras de um potente instrumento musical consagrado e louvado - a voz -, as mulheres podem, e puderam, escrever a sua história e de seus povos.

Talvez a primeira lembrança deva ser mesmo a de Chiquinha Gonzaga, já que é tempo de carnaval. Ela, muito bravamente, enfrentou sua época e construiu-se como compositora popular/erudita. Era a mulher que começava a buscar a luz da ribalta:

"Ô, abre alas, que eu quero passar..."

Chiquinha Gonzaga foi a primeira mulher a reger uma orquestra em terra tupiniquim, assim como foi a primeira mulher a se notabilizar pela execução do chorinho - uma autêntica chorona pioneira, portanto. Não só ela tem seu espaço notório na música popular. Basta pensar que todo grande movimento musical brasileiro, no século XX, teve mulheres se destacando. O samba carioca do primeiro meado do século conhece Zilda do Zé, autora de "Saca-rolha" (junto de seu marido, Zé da Zilda). O samba-canção pré-bossa-novista teve na melancólica Maísa uma grande poetisa, destacando-se canções de grande sucesso como "Ouça" e "Meu mundo caiu". A própria bossa-nova conheceu algumas compositoras, como Dolores Durán, que acabou impulsionando o movimento apesar de ter falecido ainda em 1959. De toda forma, sua parceria com Tom Jobim, em "Por causa de você", é imortal, para não citar seu clássico "A noite do meu bem".

A partir da década de 1960, destacar-se-iam nomes muito importantes para a música escrita por mulheres, no Brasil. Basta pensar em Jóice, Rita Li, Dona Ivone Lara, Roberta Miranda e toda a geração surgida nos anos de 1980, marcadas pelo pop e pelo roquenrol.

Dentre todas, quiçá o nome de Jóice ganhe realce, pela polêmica em que se envolveu em 1967, quando sua música "Me disseram" foi classificada para o Festival Internacional da Canção, no Rio, e acabou dividindo críticos e público, pelo simples fato de conter versos na primeira pessoa feminina e um deles dizer:

"Já me disseram
Que meu homem não me ama..."

Ficaria ela sendo conhecida como detentora de uma postura feminista, a partir de então, ainda que não tivesse plena consciência disso. O mais assustador é a similaridade com o século XIII, quando das origens da literatura lusitana: homens podiam compor num eu-lírico feminino (como compuseram tantos na canção moderna brasileira: as músicas de Dorival Caími para Cármen Miranda ou as músicas que intepretavam todas as cantoras do rádio, para não chegar na década de 1960 mesmo, em que Chico Buarque, dentre outros, escreveu "Com açúcar, com afeto"), mas mulheres compondo, e em seu lugar-poético, era sinal de vulgaridade e imoralidade...

A canção "Essa mulher", de Jóice com Ana Terra, gravada em 1980, já representa uma postura mais consciente e crítica já que "essa mulher":

"É feita de sombra e tanta luz,
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural"

O sofrimento da mulher, sob o signo do patriarcalismo, se naturaliza e a força feminina tem de desfazer tal operação ideológica e pragmática. A canção popular, aqui, é uma de suas armas. Mas como se pode perceber pelo conteúdo da canção mesma, nunca é uma naturalização desapegada do modo de produção da vida naquilo que esta produção tem de mais material:

"De manhã cedo, essa senhora se conforma
Põe a mesa, tira o pó
lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão..."

O imaginário feminino, assim, vai ganhando força não como singela reivindicação isoladamente feminista, mas um "feminismo" razoavelmente a intuir sua estruturalidade no modo de vida opressor que embala mulheres e homens, trabalhadores e patrões, não-brancos e brancos. A opressão, é bom lembrar, desumaniza não só o espoliado, mas também o espoliador. Esta tese humanista e hegeliana é inconteste. E ela se verifica mesmo na divisão social do trabalho quanto ao gênero: a mulher, no privado; o homem, no público.

Outro grande exemplo que merece ser citado é o de Rita Li, a "ovelha negra" que já com outro tipo de postura, mais escrachada e polemizadora, coloca sempre o dedo na ferida. No disco de 1982, aparecia a música "Cor de rosa-choque":



"Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso de quem nada quer
Sexo frágil, não foge à luta
E nem só de cama vive a mulher

Por isso não provoque
É cor de rosa-choque"

A resistência feminina ante a opressão e a formatação que o modo de produção da vida impõe faz parte da resistência maior cuja significação histórica damos, na assessoria jurídica popular, como sendo central para se pensar uma outra forma de organizar a sociabilidade humana. O direito, patriarcalista e capitalista em suas bases, não consegue dar conta de exprimir esta nova ordem, esta nova forma de produzir a vida, de estabelecer os fulcros políticos de que necessitamos para superarmos nossa desumanização contínua. Homens e mulheres, todos um pouco machistas, devemos perceber a incindibilidade das desumanizações, ainda que possamos enfocá-las em suas especificidades.

É óbvio que, aqui, não dizemos nada de novo. Mas, neste caso, repetir é renovar, reforçar, redargüir o mundo em sua inércia aparente que não permite mudanças nem visões totais. O giro descolonial passa pela produção da vida em sua inteireza e a questão feminina não pode ser vista desde o prisma da fragilidade institucionalizada ou naturalizada. É certo que as Marias da Penha merecem toda proteção, mas assim como a música "Mãe solteira" (de Uílson Batista e Jorge de Castro) não consegue expressar, por seu ponto de partida parcializado, o problema da porta-bandeira chamada Maria da Penha que se suicida por causa do namorado, também o direito e suas leis protetivas não dão conta de uma nova forma de vida, política e sociabilidade. Só o testemunho de Maria da Penha pode recolocar a música em seu lugar (como nas canções de Jóice e Rita Li), assim como só o testemunho de uma nova organização política da sociedade pode dizer que necessidades e capacidades merecem guarida social, para além de o direito.

Para acabar, lembremos de Violeta Parra, compositora chilena, de temas sociais inesquecíveis, e que em vários momentos de sua obra pôde captar a totalidade, a partir da exterioridade do trabalho vivo, dos cortes estruturais da realidade, assim como da incorfomidade com a injustiça imperante, como na canção "Y arriba quemando el sol":

"Cuando fui para la pampa

llevaba mi corazón contento

como un chirigüe,

pero allá se me murió,

primero perdí las plumas

y luego perdí la voz,

y arriba quemando el sol.


Cuando vide los mineros

dentro de su habitación

me dije: mejor habita

en su concha el caracol,

o a la sombra de las leyes

el refinado ladrón,

y arriba quemando el sol.


Las hileras de casuchas,

frente a frente, si, señor,

las hileras de mujeres

frente al único pilón,

cada una con su balde

y su cara de aflicción,

y arriba quemando el sol.


Fuimos a la pulpería

para comprar la ración,

veinte artículos no cuentan

la rebaja de rigor,

con la canasta vacía

volvimos a la pensión,

y arriba quemando el sol.


Zona seca de la pampa

escrito en un cartelón,

sin embargo, van y vienen

las botellas de licor,

claro que no son del pobre,

contrabando o qué sé yo,

y arriba quemando el sol.


Paso por un pueblo muerto

se me nubla el corazón,

aunque donde habita gente

la muerte es mucho peor,

enterraron la justicia,

enterraron la razón,

y arriba quemando el sol.


Si alguien dice que yo sueño

cuentos de ponderación,

digo que esto pasa en Chuqui

pero en Santa Juana es peor,

el minero ya no sabe

lo que vale su sudor,

y arriba quemando el sol.


Me volví para Santiago

sin comprender el color

con que pintan la noticia

cuando el pobre dice no,

abajo, la noche oscura,

oro, salitre y carbón,

y arriba quemando el sol."

5 comentários:

  1. Violeta, uma das grandes!
    Tenho lido muito os poemas da Florbela Espanca, esta mulher maravilhosa, que foi capaz de transmitir sentimentos femininos e universais, pela sua delicadeza e dureza incomparáveis.

    Como nos versos:
    "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
    Do que os homens! Morder como quem beija!
    É ser mendigo e dar como quem seja
    Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

    É ter de mil desejos o esplendor
    E não saber sequer que se deseja!
    É ter cá dentro um astro que flameja,
    É ter garras e asas de condor!

    É ter fome, é ter sede de Infinito!
    Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
    É condensar o mundo num só grito!

    E é amar-te, assim, perdidamente...
    É seres alma, e sangue, e vida em mim
    E dizê-lo cantando a toda a gente!"

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  2. Qüestyonaddor Klamorozo7 de março de 2011 03:26

    Apenas homens falando de mulheres, utilizando da fria razão espermática para definir e classificar e escravizar a realidade multiplicante, positiva e visceral... onde estão as colunistas fêmeas, amazonas e venusianas?

    Muito triste tudo isso...

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  3. Realmente...

    Estamos ausentes. Mas eu sou meu gênero todos os dias e não sei se me encaixo no que esperam de uma "mulher" nesse dia e agora. Este ano a data coincidiu com algumas auto-reflexões que ando fazendo a esse respeito e que ainda não estão sólidas o suficiente para exprimi-las da forma como gosto.


    Contudo, achei boa lembrança do Pazello e do Ribas. Não fico chateada com homens tentando entender o que é uma mulher. Apesar de algumas tentativas não escaparem do lugar-comum a nosso respeito... Mas é um exercício sem fim e que se deve acrescentar aos demais de alteridade.


    Abraço em todos e todas!

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  4. Muito bem lembrado, Luiz. A literatura do século XX tem grandes exemplos. No Brasil, poderíamos lembrar de Cecília Meireles ou Clarice Lispector.

    Naiara, concordo com você. É um exercício contínuo mesmo. E se olharmos da perspectiva de que não podemos cindir nossas apreensões, veremos que mulheres e homens têm uma luta em comum!

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  5. Aleida Guevara, essa semana no TAC aqui em Floripa, comentou a quem quisesse ouvir que em Cuba, apesar de Cuba, ou porque Cuba, ainda é enorme o problema quanto ao patriarcalismo. Trabalho duro! Ainda hoje, muitas coisas que mulheres fazem são taxadas de imorais ou vulgares.
    É... discurso/verbalismo não é práxis!
    Abraços, boa postagem

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