quarta-feira, 20 de julho de 2011
Lírica de um filho da crítica
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Diálogo de professores de lugar nenhum
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| Esse fala é porque sabe! |
Um professor fala para outro:
- Eu não faço prova.
- Eu aplico prova mesmo, porque trabalho em grupo não funciona com aluno em adaptação, que faz só uma matéria numa turma, fica deslocado.
- Eu não faço trabalho só em grupo ou só individual.
- Trabalho em grupo privilegia quem tem grupo, e o individual também isola as pessoas.
- Isso não faz sentido, nenhum projeto é viável pelo teu argumento!
- Nenhum projeto pedagógico é viável sem liberdade para ensinar!
domingo, 6 de março de 2011
As mulheres, sua resistência e a totalidade: ou quando as compositoras femininas compõem sua própria história
"A mulher de cabelos verdes", de Anita Malfáti
ainda que não tivesse plena consciência disso. O mais assustador é a similaridade com o século XIII, quando das origens da literatura lusitana: homens podiam compor num eu-lírico feminino (como compuseram tantos na canção moderna brasileira: as músicas de Dorival Caími para Cármen Miranda ou as músicas que intepretavam todas as cantoras do rádio, para não chegar na década de 1960 mesmo, em que Chico Buarque, dentre outros, escreveu "Com açúcar, com afeto"), mas mulheres compondo, e em seu lugar-poético, era sinal de vulgaridade e imoralidade...
Outro grande exemplo que merece ser citado é o de Rita Li, a "ovelha negra" que já com outro tipo de postura, mais escrachada e polemizadora, coloca sempre o dedo na ferida. No disco de 1982, aparecia a música "Cor de rosa-choque":"Cuando fui para la pampa
llevaba mi corazón contento
como un chirigüe,
pero allá se me murió,
primero perdí las plumas
y luego perdí la voz,
y arriba quemando el sol.
Cuando vide los mineros
dentro de su habitación
me dije: mejor habita
en su concha el caracol,
o a la sombra de las leyes
el refinado ladrón,
y arriba quemando el sol.
Las hileras de casuchas,
frente a frente, si, señor,
las hileras de mujeres
frente al único pilón,
cada una con su balde
y su cara de aflicción,
y arriba quemando el sol.
Fuimos a la pulpería
para comprar la ración,
veinte artículos no cuentan
la rebaja de rigor,
con la canasta vacía
volvimos a la pensión,
y arriba quemando el sol.
Zona seca de la pampa
escrito en un cartelón,
sin embargo, van y vienen
las botellas de licor,
claro que no son del pobre,
contrabando o qué sé yo,
y arriba quemando el sol.
Paso por un pueblo muerto
se me nubla el corazón,
aunque donde habita gente
la muerte es mucho peor,
enterraron la justicia,
enterraron la razón,
y arriba quemando el sol.
Si alguien dice que yo sueño
cuentos de ponderación,
digo que esto pasa en Chuqui
pero en Santa Juana es peor,
el minero ya no sabe
lo que vale su sudor,
y arriba quemando el sol.
Me volví para Santiago
sin comprender el color
con que pintan la noticia
cuando el pobre dice no,
abajo, la noche oscura,
oro, salitre y carbón,
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Negro coração de Alegre Corrêa e Raul Boeira
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Oração ignominiosa de uma habitante da escuridão

No início deste ano, um desafio foi proposto por uma professora aos alunos de uma especialização em direito público: escrever um artigo em primeira pessoa do singular. A proposta foi ostensivamente rejeitada, pelo menos de início, por um número considerável deles e delas. A professora insistiu um pouco mais e ao fim de alguns minutos de discussão sobre ABNT e regras da academia, a proposta terminou tendo alguma aceitação de parte da turma.
Durante a escolha do tema do artigo, muitos decidiram por abordar o ensino jurídico, aproveitando alguns questionamentos levantados no decorrer da disciplina. Na realização da pesquisa necessária, lendo as páginas virtuais de uma dissertação de mestrado sobre esta temática, um trecho de um parágrafo chamou a atenção de uma das alunas:
“aluno ( entendido como um ser desprovido de luz, de acordo com a origem etimológica da palavra.)”
Ficou com aquilo na cabeça. Apesar de, tempos atrás, já ter atentado para o sentido etimológico do termo, o contexto pós-curso de direito provocou uma sensação com uma intensidade diferente... Intensamente ruim.
Tentando expelir aquilo de si de alguma forma, pegou um papel e foi rabiscando umas palavras soltas:
“Aluno /Desprovido de luz/Na ânsia do saber/escuridão/as amarras/o vazio/ o não-olhar/brinquedo de auto-afirmação/papel que se esforça em cumprir/negação de seu próprio ser/o julgamento: o júbilo do sim e o abismo do não/o caminho a seguir/ a vida a seguir/ o caminho a desistir/a vida a desistir/A luz que cega/A luz que é escuridão.”
“Aluno/palavra que fere/palavra do não ser/ Palavra possuída/Palavra aliciada/Substantivo inquestionável/Substantivo sem substância/O oco a ser eternamente preenchido/o oco estéril de ecos./ O oco sinônimo de nada.”
Vendo que a inspiração não tomava forma, que a poesia que pretendia não nascia, decidiu, então, apelar para a divindade mais próxima:
Oração ignominiosa de uma habitante da escuridão
Absolva-me, ó Ser Provido de Luz, da culpa que pende sobre mim! Culpa de não saber. Culpa de não ser. Dá-me um pouco da dádiva que a ti foi concedida com a mesma intensidade que ma foi negada!
Aceita como oferenda minha mente que jaz vazia. Se não for possível, se a culpa for maior que a expiação, em sacrifício me ofereço, eu que sou nada.
Que o sangue escorra da pedra, ou da tua mesa de trabalho. Que macule os papéis em que está escrita a Verdade. Entre eles estará, talvez, o papel que não consegui desempenhar.
Um dia, quem sabe, eu renascerei. Se este dia acontecer, permita-me um dia apenas ser. Um dia ser. Ou um dia também ser sobre o não-ser, para que então eu possa sentir-me divina como tu és. Ó, Ser Provido de Luz!
Amém.
Dissertação de onde foi colhida a citação:
http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2637
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O gênero e o direito (a gênera e a direita)
...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Analfabetos, fracos, pobres, rudes e santos
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Da biblioteca "Poesia crítica do direito"
segunda-feira, 8 de março de 2010
Poema "Todas as mulheres"
Vou cantar a mulher cultura
sua música e dança e poesia
Que é frevo, jongo, samba, maxixe
Quero dedicar noite e dia pra sambar contigo
Vou ofertar à mulher Maria e Iemanjá
Todas as rezas, rituais, magias
Que é missa e candomblé e maracá
Quero acender incensos e velas contigo
Vou beijar a mulher Brasil e América
Sua face índia e negra e branca e mulata
Que é amor, ternura, sem fim
Quando chegar meu abraço pra te homenagear
Por este dia junto a todas as mulheres do mundo!
Dia internacional da mulher
Mas a música é para todos os gêneros. Espero que gostem:
Lava esse cheiro de erva
Pimenta e capim do vale
Lava esse cheiro de erva
Pimenta e capim do vale
Lava o suor da colheita
E aceita que eu te agasalhe
Larga a madeira na estrada
E larga essa faca de entalhe
Larga a madeira na estrada
E larga essa faca de entalhe
Larga o patrão na picada
E aceita que eu te agasalhe
Larga o patrão na picada
E aceita que eu te agasalhe
Sempre há de haver algum trigo
E da terra algum pedaço
Guarda a tua mão pra um amigo
Que não vai querer teu braço
Guarda a tua mão pra um amigo
Que não vai querer teu braço
Deixa o dinheiro mal pago
E mande que ele trabalhe
Deixa o dinheiro mal pago
E mande que ele trabalhe
Enquanto você toma um trago
E aceita que eu te agasalhe
Enquanto você toma um trago
E aceita que eu te agasalhe
Deita teu corpo em meu ventre
Que eu guardo a tua semente
Deita teu corpo em meu ventre
Que eu guardo a tua semente
Ninguém carrega a colheita
Dos frutos que são da gente
Ninguém carrega a colheita
Dos frutos que são da gente
http://letras.terra.com.br/elba-ramalho/250649/
domingo, 31 de janeiro de 2010
Poesitando (n)o Direito

terça-feira, 19 de janeiro de 2010
O Direito e as cadeiras
"Cadeiras até que poderiam ser apenas cadeiras. Algum dia cheguei mesmo acreditar nisso. Realmente, é mesmo útil e cômodo entender as cadeiras, assim como o mundo concreto que nos cerca, apenas como coisas. Na Faculdade de Direito, lá estão elas, as cadeiras, servis e silentes, prontas ao nosso banal uso cotidiano, acomodando nossos corpos em meio aos sincrônicos métodos de “aprendizagem”. Assim, ainda para alguns, na douta Faculdade, dia após dia, cadeiras eram apenas cadeiras, e aulas era apenas aulas.
Mas há uma vital e profunda importância nas cadeiras, um significado ainda a ser desvelado. Dei-me conta disso em meio a um desses rituais que os estudiosos chamam de “aula”. Ao entrar na sala, pude ver que as cadeiras eram, na verdade, personagens da nossa própria história, reflexo de nossas próprias condutas, espelhos vivos dos nossos medos e desejos. Cada espaço da sala, preenchido por uma cadeira, era a marca de alguma existência, o testemunho de alguma presença materializada no espaço. Percebi que estava diante de uma platéia viva. Foi assim, no início de uma aula, que procurei pela primeira vez ouvir o que me tentava me dizer aquele profundo silêncio das cadeias da Faculdade de Direito.
Como um exército disciplinado, as cadeiras da Faculdade encontravam-se perfeitamente enfileiradas, voltadas para uma única direção. “Olhando” sempre para o mesmo quadro-negro (que na verdade é verde escuro); as rígidas cadeiras deixavam de ver o belo ocaso do Vale do Bairro Canela, uma cena única e marcante, embora considerada menor perante o respeitável mundo dos futuros juristas. Vi, nos olhares congelados daqueles assentos de plástico e ferro, parte de nossa cegueira cotidiana para as coisas simples e belas. Talvez o ocaso, aquele que ocorre ao lado das salas todos os dias, seja o único a guardar a força e o mistério do ato de aprender.
Entrando nas salas, além das posições únicas, algo mais grave ocorria com as cadeiras. Elas, em sua totalidade, estavam pregadas ao solo. Assim como parte do direito “ensinado”, as cadeias passavam a me revelar, com uma nitidez incrível, a crença de estaticidade que permeia o ideário tradicional do jurista. E como se nada acontecesse − porque na verdade cadeiras são apenas cadeiras −, deixamos que isso ocorra, acostumados com uma única posição, entorpecidos com a falsa segurança dos pregos de aço que nos fixam ao chão.
Mas talvez esses sinais permaneçam propositalmente ocultos à nossa brilhante inteligência jurídica. É preciso ser louco para ouvir o silêncio das cadeiras, e toda loucura é o inicio de algo novo. Ainda hoje, ao término das aulas, no apagar das luzes da Faculdade, tento ouvir e ver o silêncio das coisas, como se nelas estivessem verdadeiramente plasmadas as nossas intenções mais verdadeiras. O mármore branco, as placas de bronze, os livros de capa de couro, todos eles parte do que realmente construímos.
É possível que tudo o que percebi seja um delírio pessoal. Talvez cadeiras sejam realmente cadeiras. Mas, à noite, em reuniões clandestinas, quando os donos da verdade dormem e o Direito cochila, elas, as cadeiras, sonham ser algo mais. Querem sair do chão e voar, planando no Vale do Canela, sob a luz vermelha do ocaso. Porque sonhos são apenas sonhos, e isso já é o bastante".








