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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lírica de um filho da crítica

de Amauta T. de D. da Insurreição  e Claraz Dudas


 Filho aflito da crítica dura
Pesada briga com afeto e agonia
Reinventa a criminologia brasileira
Ataca o óbvio
Mata o pai

Filho rebelde e erudito
Obscura pena, espírito retinto
Olha pro céu
Dependurado em Deus
Cai no chão como uma pluma

Lyra da paixão
Enfrenta a sociedade com teu sexo e teu amor
Derruba preconceitos
Dorme com o Marx
Acorda com o Hegel

Colérico
Calórico
Telúrico
Colírio da crítica
Canário de túnica
Ante-sala do lirismo abre-alas
Intérprete desautorizado
Trai a burguesia
Traz os proletários

Um homem chamado Roberto
Roubando a sua classe e entregando aos oprimidos
De todos os gêneros
De todas as raças
Roubo certo, teogônico
Ensinando por linhas tortas a ser anjo:
Trepando com Prometeu, angelicalmente
E beijando o pescoço da coruja de Minerva...

Roberto na solidão da rua
Dá a mão pra puta sociedade
Noel Delacalle
Une os estudantes e professores do Brasil
Faz da escola uma grande estrada
Onde acampam os retirantes e os sem terra
Receba esta homenagem daqueles que vão ressuscitar Noel Delamare no corpo de um Roberto Lyra Filho



Coré-é-tuba, 11/07/2011

flagrante do momento da leitura e declamação desavergonhada

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Diálogo de professores de lugar nenhum

Esse fala é porque sabe!
Direto de lugar nenhum.

Um professor fala para outro:
- Eu não faço prova.
- Eu aplico prova mesmo, porque trabalho em grupo não funciona com aluno em adaptação, que faz só uma matéria numa turma, fica deslocado.
- Eu não faço trabalho só em grupo ou só individual.
- Trabalho em grupo privilegia quem tem grupo, e o individual também isola as pessoas.
- Isso não faz sentido, nenhum projeto é viável pelo teu argumento!
- Nenhum projeto pedagógico é viável sem liberdade para ensinar!

domingo, 6 de março de 2011

As mulheres, sua resistência e a totalidade: ou quando as compositoras femininas compõem sua própria história

"A mulher de cabelos verdes", de Anita Malfáti

O dia internacional da mulher, comemorado a 8 de março, é mais uma daquelas datas, fatos ou personagens históricas que causam muita controvérsia quanto a seu resgate nos tempos atuais. É o que se percebe com a ambigüidade da disputa histórica por nomes e eventos como o de Sepé Tiaraju, Simón Bolívar, Contestado e Canudos, Lampião e outros mais. Sempre apropriados pelas mais distintas ideologias, acabam sendo disputados em sua significação histórica. Em termos transcontinentais, ocorre mais-ou-menos o mesmo com o dia internacional da mulher, sendo proclamado pelos socialistas como uma reivindicação sua ou como expressão de uma conquista conseguida pelos liberais. O fato é que, afora as mais diversas controvérsias sobre quem elevou primeiro essa bandeira, há um consenso geral de que o 8 de março teve sua origem na tragédia das trabalhadoras da indústria têxtil de Nova Iorque, em que mais de uma centena de mulheres morreram num incêndio que foi o estopim de uma situação de absoluta negligência e exploração do trabalho e do trabalho feminino, em específico.

Pois bem, rendendo homenagem a esta justa lembrança histórica, que não pode se reduzir a mais uma data festiva e celebratória do consumo e do estado de coisas atual, vou propor hoje uma reflexão que desenvolva uma idéia já registrada por mim neste blogue: os três cortes que estruturam nossa realidade, apresentando três opressões que se retro-alimentam e dão o tom de nossa história presente.

Para dar vida a esta reflexão, todavia, vou seguir um caminho lúdico, resgatando o referencial da música popular latino-americana como guia interpretativo. Na melhor das propostas deste blogue, a dialética entre teoria e prática, o mais das vezes, pode, sim!, se fazer pela ludicidade, já que o poeta é, pela etimologia da palavra, o criador. Não se trata de uma postura irracional ou nefelibática, mas antes de tudo CRIADORA, a partir da expressão cultural de um povo.

A mulher sempre foi objeto na literatura e, quando sujeito, foi forjada nos moldes do pensar patriarcal. Basta lembrar, na formação da língua portuguesa, as chamadas cantigas de amigo, em que a mulher é o eu-lírico, ainda que nunca a autora da cantiga.

O interessante é que a característica medieval perduraria por muito tempo na tradição literária e, em termos de língua portuguesa, só se derrubaria no século XX. Musicalmente, o mesmo pode ser constatado. As cantigas de amor e de amigo, próprias do troavadorismo galego-português, traziam em si a unidade da forma literária com a musical, já que eram declamadas e cantadas ao mesmo tempo, até que o desenvolvimento filológico consolidou a escrita e a separou da popular tradição oral. Pois bem, apesar de isso, a unidade masculina na feitura tanto de músicas quanto de poemas prevaleceu.

Sem dúvida, há muito o que se pesquisar sobre isso, mas o que importa aqui é fazer a conexão dessa ordem fenomênica com o relativo desprezo pelas compositoras da música popular entre nós. Você, leitor, o que responderia à questão: quem são os grandes compositores da música popular brasileira? Certamente, aparecerão aí de Antônio Calado a Hermeto Pascoal, de Noel Rosa a Chico Buarque, de Cartola a Tom Jobim ou de Lupicínio Rodrigues a Marcelo Camelo. E qual o motivo para não lembrarmos das mulheres?

A princípio, pode-se justificar que se trata de mera coincidência ou mesmo de subjetividade; para não falar nos casos em que se considera a competência propriamente dita. A meu ver, porém, esta realidade musical reflete os parâmetros patriarcalistas que regem nossa avaliação cultural e, ainda que isto possa carecer de fundamentação, faz com que esqueçamos, todos, de importantes criadoras da história nacional e continental recente, por meio da música.

Muitos dirão que tivemos e temos grandes intérpretes: Elizete Cardoso, Elis Regina, Clara Nunes ou Mônica Salmaso, para o caso brasileiro; Mercedes Sosa ou Ema Junaro, para o latino-americano. Mais do que, porém, detentoras de um potente instrumento musical consagrado e louvado - a voz -, as mulheres podem, e puderam, escrever a sua história e de seus povos.

Talvez a primeira lembrança deva ser mesmo a de Chiquinha Gonzaga, já que é tempo de carnaval. Ela, muito bravamente, enfrentou sua época e construiu-se como compositora popular/erudita. Era a mulher que começava a buscar a luz da ribalta:

"Ô, abre alas, que eu quero passar..."

Chiquinha Gonzaga foi a primeira mulher a reger uma orquestra em terra tupiniquim, assim como foi a primeira mulher a se notabilizar pela execução do chorinho - uma autêntica chorona pioneira, portanto. Não só ela tem seu espaço notório na música popular. Basta pensar que todo grande movimento musical brasileiro, no século XX, teve mulheres se destacando. O samba carioca do primeiro meado do século conhece Zilda do Zé, autora de "Saca-rolha" (junto de seu marido, Zé da Zilda). O samba-canção pré-bossa-novista teve na melancólica Maísa uma grande poetisa, destacando-se canções de grande sucesso como "Ouça" e "Meu mundo caiu". A própria bossa-nova conheceu algumas compositoras, como Dolores Durán, que acabou impulsionando o movimento apesar de ter falecido ainda em 1959. De toda forma, sua parceria com Tom Jobim, em "Por causa de você", é imortal, para não citar seu clássico "A noite do meu bem".

A partir da década de 1960, destacar-se-iam nomes muito importantes para a música escrita por mulheres, no Brasil. Basta pensar em Jóice, Rita Li, Dona Ivone Lara, Roberta Miranda e toda a geração surgida nos anos de 1980, marcadas pelo pop e pelo roquenrol.

Dentre todas, quiçá o nome de Jóice ganhe realce, pela polêmica em que se envolveu em 1967, quando sua música "Me disseram" foi classificada para o Festival Internacional da Canção, no Rio, e acabou dividindo críticos e público, pelo simples fato de conter versos na primeira pessoa feminina e um deles dizer:

"Já me disseram
Que meu homem não me ama..."

Ficaria ela sendo conhecida como detentora de uma postura feminista, a partir de então, ainda que não tivesse plena consciência disso. O mais assustador é a similaridade com o século XIII, quando das origens da literatura lusitana: homens podiam compor num eu-lírico feminino (como compuseram tantos na canção moderna brasileira: as músicas de Dorival Caími para Cármen Miranda ou as músicas que intepretavam todas as cantoras do rádio, para não chegar na década de 1960 mesmo, em que Chico Buarque, dentre outros, escreveu "Com açúcar, com afeto"), mas mulheres compondo, e em seu lugar-poético, era sinal de vulgaridade e imoralidade...

A canção "Essa mulher", de Jóice com Ana Terra, gravada em 1980, já representa uma postura mais consciente e crítica já que "essa mulher":

"É feita de sombra e tanta luz,
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural"

O sofrimento da mulher, sob o signo do patriarcalismo, se naturaliza e a força feminina tem de desfazer tal operação ideológica e pragmática. A canção popular, aqui, é uma de suas armas. Mas como se pode perceber pelo conteúdo da canção mesma, nunca é uma naturalização desapegada do modo de produção da vida naquilo que esta produção tem de mais material:

"De manhã cedo, essa senhora se conforma
Põe a mesa, tira o pó
lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão..."

O imaginário feminino, assim, vai ganhando força não como singela reivindicação isoladamente feminista, mas um "feminismo" razoavelmente a intuir sua estruturalidade no modo de vida opressor que embala mulheres e homens, trabalhadores e patrões, não-brancos e brancos. A opressão, é bom lembrar, desumaniza não só o espoliado, mas também o espoliador. Esta tese humanista e hegeliana é inconteste. E ela se verifica mesmo na divisão social do trabalho quanto ao gênero: a mulher, no privado; o homem, no público.

Outro grande exemplo que merece ser citado é o de Rita Li, a "ovelha negra" que já com outro tipo de postura, mais escrachada e polemizadora, coloca sempre o dedo na ferida. No disco de 1982, aparecia a música "Cor de rosa-choque":



"Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso de quem nada quer
Sexo frágil, não foge à luta
E nem só de cama vive a mulher

Por isso não provoque
É cor de rosa-choque"

A resistência feminina ante a opressão e a formatação que o modo de produção da vida impõe faz parte da resistência maior cuja significação histórica damos, na assessoria jurídica popular, como sendo central para se pensar uma outra forma de organizar a sociabilidade humana. O direito, patriarcalista e capitalista em suas bases, não consegue dar conta de exprimir esta nova ordem, esta nova forma de produzir a vida, de estabelecer os fulcros políticos de que necessitamos para superarmos nossa desumanização contínua. Homens e mulheres, todos um pouco machistas, devemos perceber a incindibilidade das desumanizações, ainda que possamos enfocá-las em suas especificidades.

É óbvio que, aqui, não dizemos nada de novo. Mas, neste caso, repetir é renovar, reforçar, redargüir o mundo em sua inércia aparente que não permite mudanças nem visões totais. O giro descolonial passa pela produção da vida em sua inteireza e a questão feminina não pode ser vista desde o prisma da fragilidade institucionalizada ou naturalizada. É certo que as Marias da Penha merecem toda proteção, mas assim como a música "Mãe solteira" (de Uílson Batista e Jorge de Castro) não consegue expressar, por seu ponto de partida parcializado, o problema da porta-bandeira chamada Maria da Penha que se suicida por causa do namorado, também o direito e suas leis protetivas não dão conta de uma nova forma de vida, política e sociabilidade. Só o testemunho de Maria da Penha pode recolocar a música em seu lugar (como nas canções de Jóice e Rita Li), assim como só o testemunho de uma nova organização política da sociedade pode dizer que necessidades e capacidades merecem guarida social, para além de o direito.

Para acabar, lembremos de Violeta Parra, compositora chilena, de temas sociais inesquecíveis, e que em vários momentos de sua obra pôde captar a totalidade, a partir da exterioridade do trabalho vivo, dos cortes estruturais da realidade, assim como da incorfomidade com a injustiça imperante, como na canção "Y arriba quemando el sol":

"Cuando fui para la pampa

llevaba mi corazón contento

como un chirigüe,

pero allá se me murió,

primero perdí las plumas

y luego perdí la voz,

y arriba quemando el sol.


Cuando vide los mineros

dentro de su habitación

me dije: mejor habita

en su concha el caracol,

o a la sombra de las leyes

el refinado ladrón,

y arriba quemando el sol.


Las hileras de casuchas,

frente a frente, si, señor,

las hileras de mujeres

frente al único pilón,

cada una con su balde

y su cara de aflicción,

y arriba quemando el sol.


Fuimos a la pulpería

para comprar la ración,

veinte artículos no cuentan

la rebaja de rigor,

con la canasta vacía

volvimos a la pensión,

y arriba quemando el sol.


Zona seca de la pampa

escrito en un cartelón,

sin embargo, van y vienen

las botellas de licor,

claro que no son del pobre,

contrabando o qué sé yo,

y arriba quemando el sol.


Paso por un pueblo muerto

se me nubla el corazón,

aunque donde habita gente

la muerte es mucho peor,

enterraron la justicia,

enterraron la razón,

y arriba quemando el sol.


Si alguien dice que yo sueño

cuentos de ponderación,

digo que esto pasa en Chuqui

pero en Santa Juana es peor,

el minero ya no sabe

lo que vale su sudor,

y arriba quemando el sol.


Me volví para Santiago

sin comprender el color

con que pintan la noticia

cuando el pobre dice no,

abajo, la noche oscura,

oro, salitre y carbón,

y arriba quemando el sol."

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Negro coração de Alegre Corrêa e Raul Boeira

Hoje, para contemplar nossa linha lúdica, apresento a letra e a música "Negro Coração", de Raul Boeira e Alegre Corrêa.

Boeira e Corrêa na África-Nação.


Negro Coração
Alegre Corrêa/Raul Boeira

Quem dera não fosse tão longe a Bahia
quem dera acordar no balanço do mar
tivesse o meu samba a batida, a magia
a ginga, a malícia do samba de lá

Não fosse o dono da capitania
ruim da cabeca e doente do pé

Soubesse o valor que tem esssa alegria 
não abafaria o couro do bumbo do zé

Soubesse o gosto da folia
mandava importar da bahia 
o tempero do canbomblé

Bate o tambor do continente
negro coração, negro coração
América morena filha
D'África nação, D'Africa nação

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Oração ignominiosa de uma habitante da escuridão






No início deste ano, um desafio foi proposto por uma professora aos alunos de uma especialização em direito público: escrever um artigo em primeira pessoa do singular. A proposta foi ostensivamente rejeitada, pelo menos de início, por um número considerável deles e delas. A professora insistiu um pouco mais e ao fim de alguns minutos de discussão sobre ABNT e regras da academia, a proposta terminou tendo alguma aceitação de parte da turma.

Durante a escolha do tema do artigo, muitos decidiram por abordar o ensino jurídico, aproveitando alguns questionamentos levantados no decorrer da disciplina. Na realização da pesquisa necessária, lendo as páginas virtuais de uma dissertação de mestrado sobre esta temática, um trecho de um parágrafo chamou a atenção de uma das alunas:

“aluno ( entendido como um ser desprovido de luz, de acordo com a origem etimológica da palavra.)”

Ficou com aquilo na cabeça. Apesar de, tempos atrás, já ter atentado para o sentido etimológico do termo, o contexto pós-curso de direito provocou uma sensação com uma intensidade diferente... Intensamente ruim.

Tentando expelir aquilo de si de alguma forma, pegou um papel e foi rabiscando umas palavras soltas:

“Aluno /Desprovido de luz/Na ânsia do saber/escuridão/as amarras/o vazio/ o não-olhar/brinquedo de auto-afirmação/papel que se esforça em cumprir/negação de seu próprio ser/o julgamento: o júbilo do sim e o abismo do não/o caminho a seguir/ a vida a seguir/ o caminho a desistir/a vida a desistir/A luz que cega/A luz que é escuridão.”

“Aluno/palavra que fere/palavra do não ser/ Palavra possuída/Palavra aliciada/Substantivo inquestionável/Substantivo sem substância/O oco a ser eternamente preenchido/o oco estéril de ecos./ O oco sinônimo de nada.”

Vendo que a inspiração não tomava forma, que a poesia que pretendia não nascia, decidiu, então, apelar para a divindade mais próxima:



Oração ignominiosa de uma habitante da escuridão


Absolva-me, ó Ser Provido de Luz, da culpa que pende sobre mim! Culpa de não saber. Culpa de não ser. Dá-me um pouco da dádiva que a ti foi concedida com a mesma intensidade que ma foi negada!

Aceita como oferenda minha mente que jaz vazia. Se não for possível, se a culpa for maior que a expiação, em sacrifício me ofereço, eu que sou nada.

Que o sangue escorra da pedra, ou da tua mesa de trabalho. Que macule os papéis em que está escrita a Verdade. Entre eles estará, talvez, o papel que não consegui desempenhar.

Um dia, quem sabe, eu renascerei. Se este dia acontecer, permita-me um dia apenas ser. Um dia ser. Ou um dia também ser sobre o não-ser, para que então eu possa sentir-me divina como tu és. Ó, Ser Provido de Luz!

Amém.




Dissertação de onde foi colhida a citação:

http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2637

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O gênero e o direito (a gênera e a direita)

Os direitos dos humanos são prioridade
O humano é demasiadamente homem
Os direitos dos homens fundamentais
O direito humano é incompreensível
O direito homem animal
O direito animal
Homem
Direito
Mulher
A direita animal
A direita mulher animal
A direita humana é incompreensível
As direitas das mulheres fundamentais
A humana é demasiadamente mulher
As direitas das humanas são prioridade
...

Simone de Beauvoir: - O homem é livre; mas ele encontra a lei na sua própria liberdade.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Analfabetos, fracos, pobres, rudes e santos


Quem diria, um poema de um professor de direito. Parece que depois de Noel Delamare (pseudônimo de Roberto Lira Filho) o mundo jurídico se ressente de poetas/criadores para além de leguleios. Talvez, e com toda certeza, eu esteja sendo injusto. Os nobres bacharéis em direito são, todos, uns poetas. Mas, igualmente sem dúvida, a maioria absoluta são poetas beletristas. Depois de Delamare, nos ressentimos da poesia crítica, a única que pode florescer do asfalto jurídico - o resto são paralelepípedos, de formas angulosas, regulares e limitadas, além de cacofônicos ao menor sinal de um pedestre ou de um auto.


Sempre que se caminha no deserto, encontrar algo que não grãos de areias é a redenção. Mas não se trata de mero cáctus nem tampouco da decantada flor de cáctus. Se trata, realmente, de algo mais. Quiçá na romântica pretensão de que todos nós, bacharéis em direito que adoramos o lúdico, comecemos a nos esmerar na arte de produzir arte, sintetizar cultura, expelir o novo (ainda que a custa de pecados estéticos) ao invés de só citarmos Drumond; por isso e por aquilo - aquele algo mais - divulgo um inusitado poema de um jurista-sociólogo. Professor doutor, por sinal (e que, imagino, me repreenderá por aventar essa informação hierárquica). Um profissional, definitivamente, humano. Tenho por ele um grande respeito, apesar de o pouco tempo de convivência como seu colega em uma faculdade de direito. Nome: André Fiilipe Pereira Reid dos Santos. Profissão: sociólogo das profissões. Eis o poema, retirado de seu blogue pessoal (nominado, ironicamente, com as iniciais de seu próprio nome), o qual divulgo aqui:

(André Filipe Pereira Reid dos Santos)

O analfabeto é um fraco.
Ele não sabe ler?
O Pobre é um rude.
Ele não sabe ser?
E quem disse que os santos não?
E quem sabe ler e ser se não viver?

E se não olho bem firme,
Corro risco de achar que o invisível não existe,
Que não se vive,
Que é pura ilusão,
Que é tudo relativo.

Analfabetos, pobres e outros "fracassados"
Ainda vivem com força e poesia.
Ainda vivem com força a poesia.
Ainda sentem na carne cada dia.
Ainda vivem a vida dos santos.
Ainda morrem a morte dos santos.
Martirizados.
Mártires do lugar comum do consumismo:
Na vala comum da indiferença e invisibilidade.

Que os santos nos protejam da sapiência sem consciência,
Do sucesso a qualquer preço,
Da riqueza alienada
E da etiqueta forçada!
E que nos deixem livres!

Ah, quanta dor se ameniza nessa vida que se empilha e se equilibra!
E quanto ainda há por aprender!

O sujo é descartado pelo limpo.
E Olimpo se envergonha do que vê.
E você, vai fazer o quê?

segunda-feira, 8 de março de 2010

Poema "Todas as mulheres"

Apresento a todas e todos um poema que escrevi nesta manhã em homenagem a "Todas as mulheres":

Vou cantar a mulher cultura
sua música e dança e poesia
Que é frevo, jongo, samba, maxixe
Quero dedicar noite e dia pra sambar contigo

Vou ofertar à mulher Maria e Iemanjá
Todas as rezas, rituais, magias
Que é missa e candomblé e maracá
Quero acender incensos e velas contigo

Vou beijar a mulher Brasil e América
Sua face índia e negra e branca e mulata
Que é amor, ternura, sem fim
Quando chegar meu abraço pra te homenagear
Por este dia junto a todas as mulheres do mundo!

Dia internacional da mulher

Escolhi essa música para postar no Dia Internacional da Mulher, porque ela representa uma boa síntese do papel que a mulher desempenha e sempre desempenhou no mundo, desde os remotos tempos bíblicos: o ser provocador. Além disso, a música também vem trazendo algumas das idéias defendidas neste blogue e que lá são apontadas por um eu-lírico feminino. É uma letra forte.

Mas a música é para todos os gêneros. Espero que gostem:
CAPIM DO VALE
(Sivuca e Paulinho Tapajós- Elba no vocal)

Lava esse cheiro de erva
Pimenta e capim do vale
Lava esse cheiro de erva
Pimenta e capim do vale
Lava o suor da colheita
E aceita que eu te agasalhe

Larga a madeira na estrada
E larga essa faca de entalhe
Larga a madeira na estrada
E larga essa faca de entalhe
Larga o patrão na picada
E aceita que eu te agasalhe
Larga o patrão na picada
E aceita que eu te agasalhe

Sempre há de haver algum trigo
E da terra algum pedaço
Guarda a tua mão pra um amigo
Que não vai querer teu braço
Guarda a tua mão pra um amigo
Que não vai querer teu braço

Deixa o dinheiro mal pago
E mande que ele trabalhe
Deixa o dinheiro mal pago
E mande que ele trabalhe
Enquanto você toma um trago
E aceita que eu te agasalhe
Enquanto você toma um trago
E aceita que eu te agasalhe
Deita teu corpo em meu ventre
Que eu guardo a tua semente
Deita teu corpo em meu ventre
Que eu guardo a tua semente
Ninguém carrega a colheita
Dos frutos que são da gente
Ninguém carrega a colheita

Dos frutos que são da gente

http://letras.terra.com.br/elba-ramalho/250649/

domingo, 31 de janeiro de 2010

Poesitando (n)o Direito



Para manter a linha de reflexões poéticas sobre o Direito, ou melhor, sobre a ciência, dogmática e moralidade jurídica, resgato, do fundo da caixa de pandora de meu armário de relíquias perdidas, uma poesia que escrevi de maneira quase psicografada, como diz Zé Ramalho, sentando e deixando aflorar, numa torrente de emoções e idéias, o sentido de um caminho para refletirmos sobre nós: estudantes e profissionais do Direito. Afinal de contas, para que lado pende nossa balança?


Manifesto Crítico-Radical

O direito, meus caros,
Não está nos livros, nos códigos,
Nas salas de aula;
Não é falado ou escrito em bom português,
Latim, alemão ou inglês.

O direito, meus senhores,
Não habita os escritórios,
Não veste o tradicional paletó,
Não se enforca com a gravata
Nem se esconde na bela oratória.

O direito, meus patrícios,
O verdadeiro direito, habita o asfalto,
Os pés descalços e as sacolas da feira;
Tem graxa na roupa e cimento no rosto,
Sujeira nas unhas e casa de madeira.

O verdadeiro direito habita um mundo,
Um mundo que meus patrícios-senhores-caros
Des-conhecem.

Ali, onde a lei é a sobrevivência,
Onde o Estado coexiste com os Instados,
É que vais encontrar o direito, o verdadeiro
E maior direito.

Apressa-te!, Tu que agora é “magnânimo”,
Porque não é com latim que se faz justiça!

Avança, além de teu nobre e utópico condado,
Os plebeus te esperam ávidos, por justiça!

Só no povo e com o povo é que deves morar.
Ali, onde todos teus princípios e pré-realidades
Contradir-se-ão frente aos fatos expostos, dia após dia,
Aos teus admirados e trêmulos olhos.

Apressa-te, pois o conhecimento tem fome!
A febre e a justiça têm fome!

Joga-te, e não temes a queda – é grande o abismo
Entre a sala e a feira! – mas saibas, quando levantares,
E tocares nas macas pelos corredores,
Sentires o cheiro do peixe podre e veres as crianças
Pelos sinais, uma luz ofuscará os teus sentidos, e, finalmente,
Cegará a tua soberba e velha cegueira.

(Não te chamarei mais de patrício, senhor ou caro)

Os outros dirão que sois doido, profanarão que corrompes
Os milenares tratados dogmáticos...
Eu porém vos digo: “serás o mais sábio!”
Urge a universidade popular, o magistrado
Revolucionário, este pescador que te pesca do afogamento,
Parteiro... Todos eles habitam cada olhar, cada gesto e fenômeno
Do povo. Lá é tua casa e tua salvação,
Aqui, junto ao povo.

Assis Oliveira

Da biblioteca "Poesia crítica do direito"

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Direito e as cadeiras

Em continuidade ao nosso espaço lúdico, disponibilizamos o texto-poema-crônica enviado por nosso colaborador Vladimir Luz, Professor da UNESC, ex-aluno da Faculdade de Direito da UFBA e integrante do SAJU-BA:

"Cadeiras até que poderiam ser apenas cadeiras. Algum dia cheguei mesmo acreditar nisso. Realmente, é mesmo útil e cômodo entender as cadeiras, assim como o mundo concreto que nos cerca, apenas como coisas. Na Faculdade de Direito, lá estão elas, as cadeiras, servis e silentes, prontas ao nosso banal uso cotidiano, acomodando nossos corpos em meio aos sincrônicos métodos de “aprendizagem”. Assim, ainda para alguns, na douta Faculdade, dia após dia, cadeiras eram apenas cadeiras, e aulas era apenas aulas.

Mas há uma vital e profunda importância nas cadeiras, um significado ainda a ser desvelado. Dei-me conta disso em meio a um desses rituais que os estudiosos chamam de “aula”. Ao entrar na sala, pude ver que as cadeiras eram, na verdade, personagens da nossa própria história, reflexo de nossas próprias condutas, espelhos vivos dos nossos medos e desejos. Cada espaço da sala, preenchido por uma cadeira, era a marca de alguma existência, o testemunho de alguma presença materializada no espaço. Percebi que estava diante de uma platéia viva. Foi assim, no início de uma aula, que procurei pela primeira vez ouvir o que me tentava me dizer aquele profundo silêncio das cadeias da Faculdade de Direito.



Prédio da Faculdade de Direito da UFBA

Como um exército disciplinado, as cadeiras da Faculdade encontravam-se perfeitamente enfileiradas, voltadas para uma única direção. “Olhando” sempre para o mesmo quadro-negro (que na verdade é verde escuro); as rígidas cadeiras deixavam de ver o belo ocaso do Vale do Bairro Canela, uma cena única e marcante, embora considerada menor perante o respeitável mundo dos futuros juristas. Vi, nos olhares congelados daqueles assentos de plástico e ferro, parte de nossa cegueira cotidiana para as coisas simples e belas. Talvez o ocaso, aquele que ocorre ao lado das salas todos os dias, seja o único a guardar a força e o mistério do ato de aprender.

Entrando nas salas, além das posições únicas, algo mais grave ocorria com as cadeiras. Elas, em sua totalidade, estavam pregadas ao solo. Assim como parte do direito “ensinado”, as cadeias passavam a me revelar, com uma nitidez incrível, a crença de estaticidade que permeia o ideário tradicional do jurista. E como se nada acontecesse − porque na verdade cadeiras são apenas cadeiras −, deixamos que isso ocorra, acostumados com uma única posição, entorpecidos com a falsa segurança dos pregos de aço que nos fixam ao chão.




Cadeira com 5 posições: do descanso à revolução

Mas talvez esses sinais permaneçam propositalmente ocultos à nossa brilhante inteligência jurídica. É preciso ser louco para ouvir o silêncio das cadeiras, e toda loucura é o inicio de algo novo. Ainda hoje, ao término das aulas, no apagar das luzes da Faculdade, tento ouvir e ver o silêncio das coisas, como se nelas estivessem verdadeiramente plasmadas as nossas intenções mais verdadeiras. O mármore branco, as placas de bronze, os livros de capa de couro, todos eles parte do que realmente construímos.

É possível que tudo o que percebi seja um delírio pessoal. Talvez cadeiras sejam realmente cadeiras. Mas, à noite, em reuniões clandestinas, quando os donos da verdade dormem e o Direito cochila, elas, as cadeiras, sonham ser algo mais. Querem sair do chão e voar, planando no Vale do Canela, sob a luz vermelha do ocaso. Porque sonhos são apenas sonhos, e isso já é o bastante".

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Os lírios não nascem das leis

Hoje, no espaço da ludicidade, trazemos o poema "Direito" do estudante de direito Paulo César di Linharez, do Movimento "Os lírios não nascem das leis", da UFMA, Maranhão. Bela iniciativa de levar a arte para a empoeirada prateleira dos livros jurídicos.



Danço!danço!

por entre letras
palavras, conceitos.
E rio! farto, desses
livros entupidos
de doutas verdades.

Esse conhecimento
pomposo, enfadonho...
Dispenso!
E assim me meto a sonhar
fazendo tudo
ao avesso.

Da biblioteca "Poesia crítica do direito"

domingo, 17 de janeiro de 2010

O que o direito ensina errado?

Foto: Luana Moura

Olhava o barulho das escuras águas salgadas e escutava a bonita chuva amazônica que caia sobre a horta de cactos daquela casa enquanto perguntava o que o direito ensina errado. Afinal, o Direito precisa ser vislumbrado a partir de uma perspectiva ecológica no que se refere a uma integração entre os diferentes saberes e entre estes e a natureza. Consolidando, dessa maneira, um processo duplo e dinâmico.

Mas, o fato é que a natureza tal qual o destino, só pode revelar a verdade que cada um traz dentro de si. Assim é que, não posso dizer o que o Direito ensina errado. Somente o que o Direito me ensinou errado. Tendo esta pergunta em mente, a minha resposta é absoluta: nada. Não houve nada que o Direito me ensinasse errado porque eu jamais permiti que assim o fosse, porque eu só penso o direito com os olhos do amor.

Ao contrário do que nos diz a fabulosa Hannah Arendt, acredito que o amor possa ser utilizado para uma ação transformadora no mundo dos espíritos sem ser desvirtuado. Contanto que se tenha em mente o risco de que o amor que liberta pode se tornar uma paixão que aprisiona ou um fetichismo maldito que nos cega.

Sabendo disso, podemos alicerçar o nosso ser amoroso, estudante de direito, em uma educação que é ato de amor como diz Paulo Freire. Baseados, sobre maneira, em duas palavras: alteridade e diálogo.

A “alteridade” remete a idéia de alterar, alternância. A prática educativa é um acontecimento que precisa dessa espécie de inversão na medida em que demanda a existência de sujeitos. Não existe ser humano que saiba tudo, nem outro que se assemelhe a um buraco onde será depositado o conhecimento. De nada adianta leis positivadas, se não tivermos homens e mulheres com a vida em seus ouvidos, protejando-se para o eterno e com disposição para mil batalhas pelo humano. Não pelo Direito o qual deixamos incontáveis vezes e ainda na Faculdade, que nos desumanize. Mas, pelo humano.

A nossa realidade é o horror dos dias em que seres pequenos e frágeis dormem nas calçadas frias da cidade. Horror que não nos escapa os olhos, pois estamos conscientes da vida. Não precisa que haja morte para tornar a vida feia. Basta mortificá-la ou esquecer o quanto ela traz sentidos à nossa existência.

Por assim ser é que, conscientes da realidade, precisamos revolucioná-la. Para isto é preciso haver comunicação entre homens e mulheres.

Para a comunicação efetiva se faz imprescindível o diálogo. Este traduz a idéia de compartilhamento de opiniões com vistas a problematização do conhecimento aliado ao nosso tempo, compreensão mútua da realidade e transformação, ação, a partir dessa experiência de encontro. O diálogo em sentido verdadeiro não é simples jogo de palavras, mas exercício de alteridade entre humanos e busca de intervenção na própria estrutura em que se funda para resignificação das palavras e em conseqüência, do mundo. Dessa maneira, o diálogo se aproxima da política.

É certo que o social e o político são fonte de descrença em nossos dias e perderam a chama de seus significados precisos. No entanto, negá-los seria acreditar em todas as fatalidades que estão previstas, não agir para a purificação espiritual ou ter fé extrema que as energias cósmicas mudarão tudo sem que nos movamos.

Ao ser humano, além da possibilidade do sonho, foi dado a escolha e a atitude. Cabe a cada um(a) descobrir qual a verdade que vem disto: a utopia ou o devaneio.


(Texto escrito e apresentado por ocasião da Semana do Calouro 2009 do Centro Acadêmico de Direito Edson Luís da Universidade Federal do Pará)