sábado, 13 de fevereiro de 2010

Poema de Ana Lia Almeida

Divulgamos poema "Prece a nós, que somos jovens", de autoria de Ana Lia Almeida, do NEP Flor de Mandacaru, da UFPB.

Este foi publicado por ela em seu blogue ParaiBAcana em 25 de outubro de 2004.


Prece a nós, que somos jovens

Que o grito não se cale. Que a atitude não cesse.
Que a vontade não se esvaia .Que a inocência não se perca .
Que acreditemos sempre que é possível,
Mais ainda: que tornaremos viável. Que contagiemos cada vez um número maior de pessoas com nossa síndrome de inquietude .
Não abandonemos, suplico, os jovens inconformados que há em nós
Mesmo quando não mais formos jovens e, porventura, haja algum conforto em nossas vidas. Aos corações que se partem, tempo.
Aos desconhecidos, sorrisos. Às febres, mãe.
Às vitórias, brindes. Às derrotas, consolo.
Às injustiças, normas, às lacunas, bom-senso.
Aos inimigos, que não os haja, em os havendo, paciência. Aos amigos, a completude de nós. Ao amor... ah! Deixemos que nos exceda, que não entendamos como vivíamos antes dele tornar-se nosso conhecido.
Nós, que somos jovens, que vivamos constantemente como que diante de um grande acontecimento, ato heróico que é o simples existir.
Que sejamos imortais, pois já deixamos marcas fortes nos que nos circundam.
Nós, que somos jovens, que sigamos tentando salvar o mundo.


Da biblioteca "Poesia crítica do direito"

8 comentários:

  1. Luiz,

    Muito bem garimpado este poema. Além de sua beleza ESTÉTICA, traz um problema ÉTICO que me parece central. Assim, ao menos, o encaro. Que nossa insurgência, construída e cinzelada durante nossa juventude, não se esvaia, como exorta a poetisa com relação à vontade da "jovem guarda"! Mas para nos mantermos jovens, precisamos nos manter unidos. Os livre-pensadores só podem deixar de ser mônadas se engajados na práxis intersubjetiva. Sem, portanto, um projeto coletico, todos cairemos. E, para que "a atitude não cesse", oxalá consigamos fazer desse blogue um instrumento dessa batalha, não só de idéias, mas também de experiências!

    Um grande abraço para a autora, Ana Lia!

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  2. Gosto tanto dessa miscelânea do blogue: notícias, artigos, protestos, desabafos, poemas, não necessariamente bem delimitados (notícia-protesto, protesto artigo, poema-desabafo, poema-notícia, poema-protesto...).

    Nessa postagem, em versos tão singelos, a poetisa transmite o que há de mais importante a ser mantido ou resgatado da nossa própria juventude.

    Muito obrigada srta. Ana Lia!

    Grande abraço!

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  3. Ana,
    Poetisa do amor, da oficina do amor no ERENAJU Fortaleza em 2005, que beleza de poesia!
    Fico pensando que a principal lição que a juventude de maio de 1968 na França e da década de 80 no Brasil deixou para nós foi entender que a indignação, e não a juventude, é uma questão ética e política que deve ser assumida por todos e todas, independente da geração que pertença.
    Por isso, somos e seremos todos jovens enquanto ser jovem não for algo cronológico, mas um estado de espírito.

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  4. Um belíssimo texto. Com as batalhas que travamos diariamente aqui no Maranhão, é alentador encontrar, ainda que virtualmente, amigos comprometidos com os mesmos valores que os nossos. Não abandonaremos a luta.
    Que não deixemos de ser jovens, então.

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  5. Galera

    Que lindo poema-protesto-manifesto, não é?
    Este sentimento de juventude está presente por aqui, com certeza!
    Sim Assis, anos 80 no Brasil, mas também 60, a marcha dos 100.000 foi um marco para a juventude brasileira!
    Paulo, tamo junto parceiro, nos manda um poema!
    Renata, esta imagem eu colhi no mar de informações que é a internete, não sei quem a fez, ou onde foi utilizada. Faz parte desta anarquia (desordem que é ordem).
    Aliás, a imagem foi para homenagear a autora do poema, que é anarquista.

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  6. E por mais que seja clichê, é fato que a juventude não está na idade. Idades são apenas números. A juventude está na inquietação, no desejo de não parar, na mudança. Como bem colocado nesse ótimo poema da Ana Lia,

    "Não abandonemos, suplico, os jovens inconformados que há em nós
    Mesmo quando não mais formos jovens e, porventura, haja algum conforto em nossas vidas"

    Para esse não-abandono, lembro de Chico Buarque, quando nos convida a "romper a incabível prisão, Voar num limite provável, Tocar o inacessível chão". Sendo essa lei, sendo essa questão, fica mais fácil virar este mundo.

    E contemplado pelo apelo de Pazello ao projeto Coletivo, trago o já bem conhecido poema de Thiago de Mello pra dialogar com o poema de Ana Lia, principalmente quando toca que "contagiemos cada vez um número maior de pessoas com nossa síndrome de inquietude", é preciso então

    "deixar de ser apenas
    a solitária vanguarda
    de nós mesmos.

    Se trata de ir ao encontro.
    ( Dura no peito, arde a límpida
    verdade dos nossos erros. )
    Se trata de abrir o rumo.

    Os que virão, serão povo,
    e saber serão, lutando."

    A imagem, senão me engano é do Bansky, artista inglês, que gosta de dar vida às paredes cinzas de Londres, com grafite e stencil. Vale muito a pena conferir o trabalho dele: http://www.banksy.co.uk/

    Abraços

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  7. "deixar de ser apenas
    a solitária vanguarda
    de nós mesmos"

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