quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Com tristeza, Luis, adeus!


"Lamentamos informar que Luis Alberto Warat no está más con nosotros" (16/12/2010).

Assim se inicia a postagem do blogue de WARAT, nesta quinta-feira. E, praticamente, é assim que termina. Creio seja o suficiente.

Falece um dos maiores teóricos críticos do direito que o Brasil pôde conhecer. Muito polêmico e contraditório, o argentino exilado no Brasil por conta da repressão em seu país tornou-se, junto a nomes como o de Roberto Lira Filho ou Luiz Fernando Coelho, pioneiro do pensamento jurídico crítico entre nós. Só por isso, vale a lembrança desta figura que a tantos foi capaz de influenciar, sendo seu legado de ludicidade para o direito bastante inspirador ainda hoje.

A partir do final da tarde, todas as listas de grupos virtuais se estremeceram, com as mensagens acerca do falecimento do cronópio-Vará. Para fazer ressoar estas mensagens, reproduzamo-las aqui no blogue, afinal incontáveis são os assessores jurídicos populares envolvidos pelo pensamento varatiano:

Leopoldo Fidyka, às 17:57 h.

Queridos amigos/as:


Algunos ya sabian que Luis no está bien de salud los últimos días, pero lamento comunicar esta noticia: Luis ya no está más con nosotros, hoy hace muy pocas horas murió, partió y nos seguirá acompañando desde otro lado.

Sus restos serán velados hoy jueves 16 a partir de las 19 hs y hasta mañana, en la calle Malabia 1662 (Palermo) Buenos Aires. Por favor avisen a todas las personas que consideren oportuno que sepa esta noticia. Pondré información en el blog

Un abrazo enorme,

Leopoldo


Wilson Levy, às 17:46 h.

Prezados,

Escrevo para informá-los que faleceu hoje o Prof. Luis Alberto Warat,
em Buenos Aires.

Pa
ra quem o conheceu pessoalmente, um exemplo de ser humano e, porque não dizer, o "cronópio-mor" de Cortazar.

Para quem se inspirou em suas ideias, foi e é certamente um dos mais lúcidos referenciais teóricos do ensino jurídico, da linguagem jurídica, da teoria do direito. E, ao menos desde a última década, um crítico ferrenho do espaço de poder e ego que se transformou o espaço universitário, e que deslocou o eixo da produção de saberes orientados à emancipação para outros não tão dignos de nota.

A ABEDi e muitos de nós certamente deve muito a ele, que deixou muitos filhos e filhas espalhados por aí, com seu Cabaret Macunaíma, o senso comum teórico dos juristas, o surrealismo jurídico, e milhares de ideias que contribuíram para transformar muitas concepções decadentes de Direito em nosso país.

Wilson Levy
Universidade de São Paulo

Mesmo aqueles que não se identificam com sua postura teórica e seus quefazeres práticos, mesmo estes, sentiram a perda. É mais um referencial que a crítica jurídica perde. E se algo de bom fica disso é que precisamos nos esforçar por superá-lo, o que, por si, é uma tarefa tapuia (para não dizer homérica) para uma vida.
-
Eu, que tanto impacto sofri ao ler, nos primeiros anos da faculdade, a obra de Vará, ainda que hoje não me identifique tanto assim com ela, devo dizer: que fique nosso reconhecimento a figura tão importante para a crítica ao direito.

Finalizo com um trecho de sua obra clássica, "A ciência jurídica e seus dois maridos", em que lamenta a morte de Cortázar, num 13 de fevereiro. Vará era apaixonado por Cortázar e sua literatura. Creio que é justo homenageá-lo com essa lembrança.

"2.9. 13 de fevereiro. São dez tristes, chuvosas horas da manhã, em uma cidade que, quando lhe tiram o sol de verão, fica perdida. Estou escrevendo devagar e com torpor, com a ressaca de um resfriado que me embota as idéias. Minha irmã traz a notícia de que Cortázar morreu. Deixo este quebra-cabeças que estava tentando consertar, peço para comprarem os jornais e, enquanto espero, sinto a necessidade de dizer por escrito adeus ao homem que me mostrou, com impecável perícia, como se deve viajar em direção ao fantástico, para poder ter as realidades e evidências por enigmas; como poder transmutar em loucas as razões, para poder sobreviver socialmente a tantos monstros que, nobre, militar e sensatamente nos governam.

Ainda adolescente aprendi em Cortázar a horrorizar-me das antinomias e a gostar dos textos que transpirassem, por todos seus poros, uma vitalidade ardentemente exposta e comprometida. Durante todos estes anos, cada vez que, como nesta manhã, me sentia lento e entorpecido frente a uma folha de papel em branco, recorria a Cortázar, porque sabia que teria uma leitura inspiradora. Junto com Barthes, é o autor mais anonimamente citado em meus trabalhos. Os dois são minha gramática do desejo.

Chegam os jornais. Júlio Cortázar morreu ontem em Paris, ficando, desde agora, só Cortázar nos outros. Daqui em diante, unicamente de nós dependerá que seu modo de iluminar tudo o que olhava, descobrindo o que nós não víamos, ou víamos cheio de lugares-comuns, não se perca como um lugar literário.

Acabamos de perder um grande cientista social que, como diz Vargas Llosa [sic], soube combinar um tipo de literatura cotidiana, baseada na experiência comum das pessoas com elementos fantásticos, com o elemento imaginativo mais audaz e insólito. As palavras de Vargas Llosa [sic] encerram uma preciosa definição do que é romanesco carnavalizado, como expressão do compromisso das linguagens com a democracia. A obra de Cortázar responde bastante ao ideal de linguagem política tal como a pode ver um Barthes ou a vê Lefort, Eco e Morin.

Foi um cronista do caos, das imobilidades cotidianas, do fantástico e da ilusão. Foi um cronista do insólito.

Sinto um certo mal-estar nos ecos de sua morte. Borges, por exemplo, fala mais dele e de sua irmã do que de Cortázar. O jornal 'La Nación' diz que é inaceitável para um homem de seu talento haver aderido ideologicamente aos movimentos esquerdistas da América Latina, sem medir as razões daqueles que exerceram o terrorismo. Aflorou muita raiva contida em uma nota que fala muito mais das infelicidades de um jornal, para entender um homem que viveu fora dos 'clichês', que precisamente, através de diários como esse, prepararam o terreno para muitas das pátrias militares que assolaram este continente. A este jornal, cabe-lhe direitinho este verso de Cortázar: 'Sube cayendo hasta la nada'.

Na televisão está passando uma entrevista que Cortázar concedeu em sua fugaz passagem por Buenos Aires (alguns dias antes da entrega do poder a Alfonsin). Neste momento ouço-o dizer que a democracia não pode ser uma palavra, e sim uma vivência. Pego outro fragmento da entrevista, onde Cortázar fala de nossos imobilismos, dos engarrafamentos de nossa vida, de como nossas ilusões, nossos costumes, nossos lugares-comuns nos paralisam, nos deixam atolados enquanto dura a vida. Por que não pensar então também em como as leis, como as verdades que escrevemos com 'maiúscula' (para afirmá-las melhor), como o sentido adquirido da ordem é o uso juridicista da palavra democracia, imobiliza-nos e deixa-nos politicamente atolados. Em um dia 13 que não é nem sexta-feira, está me chegando a notícia da morte de Cortázar. Lendo os jornais, sinto que eu também com Cortázar começo a morrer. Ele é uma de minhas mortes moleculares. Hoje todos os cronópios estão chorando. Morreu um de seus grandes. Hoje, em algum lugar cotidiano do fantástico, um gato muito parecido a Teodoro W. Adorno tem um olhar perdido no ar, certamente porque haverá encontrado a imagem de um Júlio que, desde um domingo 12 de fevereiro, é definitivaente o 'ponto vêlico' da narrativa latino-americana contemporânea.

Com tristeza, Júlio, ADEUS!"


15 comentários:

  1. Que linda homenagem, Ricardo, muito pertinente o texto escolhido. O legado de Warat nós carregaremos (e compartilharemos) com orgulho...
    Abraço.

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  2. Sinto por Warat a mesma tristeza da despedida que senti quando soube da morte de Mercedes Sosa. Certamente, suas idéias foram cruciais para que pudesse entender como a arte, a ludicidade e a subjetividade (ou melhor, o desejo) podem subverter o status quo da ordem jurídica e da teoria do direito.
    Deixo registrado a admiração por este intelectual tão apaixonado pelo amor, naquilo em que esse sentimento se transforma em atos de libertação das amarras físicas e ideológicas da vida, na universidade e para além dela.
    Abraços Warat, seu legado está em nós!

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  3. O CANTO DAS SEREIAS
    (Para Luis Alberto Warat)

    Eu ...
    Que sempre fui um tolo num mundo dos práticos
    Hoje sei que as sereias só cantam por nós
    E isso é muito pouco
    É nada
    É apenas, caro Luis,
    ... o que importa

    Vladimir Luz
    17.12.2010

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  4. Poetas não morrem. O homem das frases marcantes e inesquecíveis:

    "ESTUDANTE - Warat, você prepara aula?:
    WARAT - Você se prepara para o sexo? Professor que prepara aula é ruim de cama"

    "ESTUDANTE - Prof. Warat, como se faz para ser subversivo?
    WARAT - Você trepa bem?"

    "WARAT - Você estuda direito?
    ESTUDANTE - Sim.
    W - Você gosta?
    E - Sim.
    W - Você acha boa esta faculdade?
    E - Sim.
    W - E se eu te disser que tudo que se faz nesta faculdade é uma merda?
    E - Não concordo.
    W - Mas eu estou dizendo, é uma merda.
    E - ... (silêncio...)

    "ESTUDANTE - Warat, e o sujeito coletivo?
    WARAT - Você já fez sexo com o sujeito coletivo?"

    "ESTUDANTE - Qual sua proposta para as faculdades de direito?
    WARAT - Aulas de tango."


    E as formas de começar as falas:

    "Estou passando por uma reflexão muito profunda e estou convencido que..."
    "Hoje estou em meu desamparo..."


    E o documentário "Amor tomado pelo amor", que ganhou o festival de cinema de Havana? Agora, finalmente vai aparecer? Vai estar no Youtube? Ou precisarão ir-se também os seus protagonistas "surubáticos"?

    A melhor forma de homenagem é lembrá-lo...

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  5. O silência imperou, a tristeza tomou de conta ...

    Mas Warat é por demais eloquente e alegre ...

    Sendo assim, estamos em coro, juntos, em Teresina, que chorou o dia inteiro a ida dele, alegremente, à noite, carnavalizando a vida, celebrando o encontro, alimentanto os sonhos.

    Ode à LAW!!!

    Andreia, Lucas, Glaucia, Macell, Nayara, Ciro, Heiza, Amanda, Ricardo Seoane, e outros mais que estão chegando ... com vcs no coração e na mente.

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  6. Ontem, sexta-feira, 17 de dezembro de 2010, a "Casa Warat" materializou-se em Teresina.

    Um grupo de amigos e amigas unidos por um forte desejo de compartilhar o sentimento de perda, com a partida de nosso querido Luis Alberto Warat, bem como de lembrar tudo de bom que ele nos deixou. Confissões, declamações, música, danças e muito, muito afeto entre os participantes do "Ode à LAW" ou "LUAL", até o amanhecer deste sábado.

    E em meio a tudo isso, surgiu o poema escrito à vinte e duas mãos. Transcrevo-o abaixo:

    Ode à LAW

    Warat, Warat, Warat
    Varou Varou Varou a noite
    E vai Warat
    Que vai War(e)a(r)t, vai War(e)a(r)t... no Wara(l)t
    LUAL virado dia claro, manhã cheirando novos amores
    Kung LAW, Metal is the LAW, MeneLAW, tudo é LAW.
    Dia suado, todo dia para carnavalizar.
    Eu só não vou carnavalizar se não chover serpentinas.
    Ao Warat digo: até mais!
    Para me desterrritorializar de certa paz
    que nenhum sentido me faz.
    Nos mobilizar de um outro mundo sou capaz (es)
    Warat nos corpos, nos sorrisos, no ar,
    tomando forma e ajudando espíritos a surrealizar!
    Luis
    Alberto
    VIVAR!


    por
    Amanda, Andreia, Ciro, Gláucia, Heiza, Jorge André, Lucas, Macell, Monna, Nayara, Seoane.

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  7. O dia após a segunda grande pilastra da crítica jurídica desabar, estou eu, coincidentemente, no inteiror do Rio Grande do Sul, local do primeiro exílio de Vará no Brasil (ainda que não na mesma cidade...). Gostaria de ter compartilhado do Varal-Menelau-poético de vocês, em especial reconhecendo tantos e tantos nomes fraternos. Um abraço com gosto de crítica superadora!

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  8. Oxe!

    Mas você e Ribas estavam lá, piá!

    ;)

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  9. Ribas, lembraram desse documentário no Ode à LAW... É verdade essa passagem "surubática"? Como se faz para encontrá-lo?

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  10. Olá Macell,
    Então, esta é a pergunta que não quer calar? Este realmente foi gravado? Juízes, promotoras e outros "operadores" do direito realmente gravaram cenas surubáticas em cima da mesa do tribunal do júri?

    Em tempo----
    Warat está num programa de televisão, quando um juiz lhe interpela, depois de muitos comentários sensualizados seus:
    JUIZ - O senhor é um pervertido, um tarado, só fala em sexo!
    WARAT - O senhor sabe há quanto tempo eu não trepo EM uma mulher?
    JUIZ - silêncio (consternação)
    W - O senhor sabe há quanto tempo eu não vejo o meu próprio pinto?

    Gostaria de deixar claro que para mim o nosso pimpão é erótico, sensual, e não um anjo pornográfico.

    Conforme Albano Pepe, "A atitude apaixonada da escritura Waratiana possibilita o desnudamento não pornográfico da linguagem, mas erótico, sensual. Tal escritura revela a máscara autoritária da erudição acadêmica do saber jurídico, lugar instituído dos cursos de Direito". p. 10
    Prefácio do livro "Manifestos para uma ecologia do desejo", escrito por Warat, e publicado pela Editora Acadêmica, em 1990.

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  11. ahahahahaha!!!

    Adorei sua participação,Ribas!

    E Macell, querido, você tem acesso livre a esta obra: Andreia está com meu exemplar, é só pedir para ela depois que terminar. Mas claro que a arte visual também é um estímulo a ser ressaltado...

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  12. É isso aí gente, mas do que chora, temos que carnavaliza! Acho que Warat, realmente, gostaria que fosse desse jeito...
    Abraços a todos os juristas eróticos pelo Brasil afora!

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  13. Pois então, Ribas, eu também já havia lido um texto em que o Warat diferenciava o erótico do pornográfico, exatamente identificando este com o imaginário instituído... (Tu também já havias me contado esta passagem em que o Warat foi entrevistado).

    Contudo, é difícil 'contingenciar' o pensamento do Warat. Ele já teve muitas e diversas fases... Isso me faz não duvidar da sua capacidade, inclusive, de produzir uma cena tal qual a descrita! Abraços!

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  14. Caro Ribas, Caro Marcell,
    o filme foi gravado!!! Sei que dois professores da UnB têm a cópia, mas nem sob tortura eles liberam-na! Já pedi diversas vezes! Uma pena...risos

    Eduardo Rocha

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