quinta-feira, 23 de abril de 2015

A luta e a resistência dos fundos de pasto baianos

Na semana em que lembramos a conquista portuguesa do território brasileiro, nada melhor que enfatizarmos as formas de uso da terra que não aquelas impostas pela colonização. A experiência dos fundos de pasto, com o uso comum de sua territorialidade, nos ressalta bem isso na coluna AJP na Universidade de hoje. Vale a pena ler o texto da advogada popular baiana Leila Santana da Silva, militante do MPA e que produziu sua reflexão no âmbito da disciplina de “Teorias Críticas do Direito e Assessoria Jurídica Popular”, da Especialização em Direitos Sociais do Campo da UFG, na Cidade de Goiás.

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FUNDO DE PASTO: LUTA E RESISTÊNCIA NO SERTÃO



Leila Santana da Silva
Advogada popular na Bahia, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), estudante da Turma de Especialização em Direitos Sociais do Campo - Residência Agrária (UFG)

Desde que me conheço por gente, meu manejo é na Caatinga. Não existia nem o lago de Sobradinho [construído na década de 1970] quando minha família chegou aqui. (Seu Joaquim, conhecido por Quinquim, Comunidade de Fundo de Pasto de RiachoGrande, Casa Nova – BA).

A história dos fundos de pasto está ligada à história da ocupação das terras do Brasil. Esta ligação tem relação, mais precisamente no sertão, com as fazendas de criação extensiva de gado, isto é, na solta, onde foram surgindo a partir das subdivisões das sesmarias1 (extintas em 1822) os chamados currais, e constituíram a forma de ocupação das terras do sertão baiano. Estas fazendas entraram logo em decadência, por diversas razões, falindo assim o modelo agroindustrial da cana de açúcar no litoral, principal consumidor da carne e do couro do sertão.

As terras dos antigos donos pecuaristas decadentes passaram a ser partilhadas entre moradores e os trabalhadores das próprias fazendas. Ao longo do tempo o gado foi substituído por caprinos, mais resistentes e acessíveis para viver no sertão, criados da mesma forma extensiva, na solta. As terras de uso comum que resultaram deste processo são abertas, sem cercas que delimitem onde começa ou onde termina a posse dos seus moradores, como também seus limites gerais. Às vezes, de comum acordo, são usadas variantes para demarcação destes limites.

Esta forma de vida estabelecida a partir do modo de uso comum da terra para viver e criar animais vai além de ser somente um sistema produtivo, é na realidade uma formação social bem própria da cultura sertaneja. Hoje este modo de possuir e usar de forma coletiva a terra é conhecido como fundo ou fecho de pasto.2 Fundo de Pasto é um modo tradicional de acesso e uso dos recursos naturais de um território no semiárido brasileiro, ainda muito comum na Bahia, pelo qual a área ao fundo e no entorno das roças familiares cercadas é usada coletivamente para pastagem dos animais, em especial caprinos e ovinos, mais resistentes à seca.

Articulada com esta importância recente destes territórios controlados por comunidades tradicionais está uma das mais antigas formas de democratização do direito à propriedade da terra no Brasil e que até os dias de hoje resiste às investidas do capital/poder econômico dominante.

Reconhecidas como comunidades tradicionais pela legislação, as comunidades de fundo e fecho de pasto estão num processo de articulação que garanta a efetiva regularização das terras que historicamente ocupam, e, a partir daí - e da necessidade de proteger seus territórios de investidas externas - construíram uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que visa a alterar a Constituição do Estado da Bahia, em seu artigo 178, na intenção de ver garantida a titulação de suas terras ao mesmo tempo em que as protege da destruição sócio-ambiental imposta pelos interesses econômicos externos, constituídos pelos grandes empreendimentos que chegam a todo tempo no nordeste e das mãos “interessadas” do Estado.

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1 As sesmarias eram a subdivisão das Capitanias Hereditárias (1534 - 1549), ou seja, eram extensões de terras públicas dadas aos amigos (chamados sesmeiros) do Rei.

2 Lembrando que os fechos de pasto são mais comuns no oeste da Bahia, mais precisamente, no cerrado, enquanto os fundos de pasto estão mais presentes na caatinga localizados no norte da Bahia.

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Leia também:

Insurgência quilombola e assessoria jurídica popular, 19 mar. 2015
AJP e etnodesenvolvimento, 14 abr. 2011
Os sujeitos históricos da transformação: organização político-jurídica e antropologia, 24 out. 2010

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Poema "Resistência no Paraná"

Por ocasião da segunda etapa do curso Lutas Populares do Paraná, organizado pelo Centro de Formação Milton Santos-Lorenzo Milani em parceria com o CEPAT, torno pública pequena aventura poética, resultado de estudos sobre a "Resistência no Paraná: índios e negros invocados".

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RESISTÊNCIA NO PARANÁ: ÍNDIOS E NEGROS INVOCADOS

Para o amigo Cido

I. Resistência indígena ante o “vazio demográfico”

Levanta, Guarani!
Levanta-te, Caingangue!
Levanta e vem, Xetá!
Levanta e vai, Xocleng!

*
 
1. Levanta, Guarani!
E amplia as reduções
Pacifica o branco “brabo”
Deblatera contra o estado
Peabiru, suas missões

Resgata Guairacá
Chorando Sete Quedas
Cinco exércitos vencidos
Cinco séculos perdidos
Recupera as tuas terras

Cacique Guairacá
2. Levanta-te, Caingangue!
E faz guerra ao invasor
Segue o exemplo Carijó
Vai e ocupa o Inhoó
Recuar é tua dor

Assusta o tal Barão
Derruba sua bandeira
Ataca aquele aldeamento
Pra impedir o arrendamento
E refaz tua fronteira



3. Levanta e vem, Xetá!
Faz, sim, ecoar tua voz
Do forte tronco Tupi
Reaparece bem ali
Onde se foi de nós

Preenche o sempre vazio
Imposto já a espingarda
Extermina teu algoz
E o museu, feição atroz
Lhe expondo a retaguarda

4. Levanta e vai, Xocleng!
Ocupar o Ibirama
Pois dileto foi você
Para a família Jê
Construir sua própria trama

Rompido Paraná
Sem cordão umbilical
Te alimenta o filho índio
Nada menos ameríndio
Em sua terra natal

5. Cuaraí Oguatá,
Ocoí, Iviporã,
Xetá, Marangatu,
Araçaí, Coho Um
M’Biá, Itamarã

Guaíra, Guairacá
Vaiton, Viri, Condá
Jataí, Arapquembé
Mangueirinha, Cretã
E Cacané Porã

Cacique Ângelo Cretã

Levanta, Guarani!
Levanta-te, Caingangue!
Levanta e vem, Xetá!
Levanta e vai, Xocleng!

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II. Resistência negra ante o “Brasil diferente”

1. Irrompe, Povo Negro!
Evoca, assim, teus bantos
Quantos ancestrais sagrados
Em corpos escravizados
E em incontidos cantos

Insurge, Negro Povo!
Contra estas leis tiranas
De vãos colonizadores
Sesmeiros e (maus) feitores
Torturas veteranas

Documentos sobre a abolição da escravatura no Paraná

2. Rebenta, Povo d’África!
Revela ao Paraná
Que se diz ume estado alvo
Mas que nunca esteve a salvo
Do pranto em iorubá

Ressurge, Quilombola!
Jogando capoeira
Vai trocar a mão com pé
Respeitar o candomblé
No Vale do Ribeira

Navio idêntico ao Cormorant, do combate de Paranaguá

3. Atenta, Negritude!
Tua elite traficante
Combatente em nosso porto
Para ver o negro morto
E agride o Cormorant

Insurge, Povo Negro!
E vai dar o teu Ultimatum
Libertando tua irmandade
Construindo outra sociedade
Com cheiro, som e tato

4. Angolas, Congos, todos
Bantos pretos, Cabindas
Mais Cassangas e Rebolos
Outros Benguelas e Crioulos
De quimbunda e outras línguas

Também os Sudaneses
Nagôs, Jejes, Hauçás,
Minas e Guinés terão,
Mesmo mais que Redenção,
Suas terras, Paraná.


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Levanta, Guarani!
Levanta-te, Caingangue!
Mas vem, Xetá, Xocleng!
Irrompe, Povo Negro!
Insurge, Povo Banto!


Coré-é-Tuba, 20 de abril de 2015.

Ricardo Prestes Pazello


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Leia mais:

quinta-feira, 16 de abril de 2015

II Tribunal popular do Ceará pauta violações de direitos

A coluna AJP na Universidade desta semana traz o relato de Iara Vanessa Fraga de Santana, sobre o tribunal popular do Ceará. Uma das muitas maneiras que o povo experimenta com o fazer justiça, decidir sobre a responsabilidade e denunciar graves violações. Como não lembrar do tribunal nacional contra os crimes do latifúndio, tribunal popular da terra e tantos outros que continuam mantendo acesa a brasa da libertação. O texto foi produzido para a disciplina de “Teorias Críticas do Direito e Assessoria Jurídica Popular”, da Especialização em Direitos Sociais do Campo da UFG, na Cidade de Goiás.

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Iara Vanessa Fraga de Santana
Assistente social no Ceará
estudante da Turma de Especialização em Direitos Sociais do Campo - Residência Agrária (UFG)

Em novembro de 2013 realizou-se o II Tribunal Popular do Ceará. Teve como pauta os “Conflitos sócioambientais e violação de direitos: impactos dos grandes projetos econômicos sobre comunidades tradicionais e lutas em defesa dos direitos territoriais no Estado do Ceará”.
Sessões, encontros preparatórios – como visitas domiciliares, reuniões periódicas, assembleias, seminários e fóruns - foram realizadas anteriormente em várias comunidades atingidas do Ceará. O objetivo foi coletar as denúncias e construir um projeto alternativo para estas regiões, que travam lutas históricas na busca pela garantia de suas vidas.


O II Tribunal Popular julgou os seguintes conflitos: a) agronegócio e perímetros irrigados no Baixo Jaguaribe; b) atingidos pela construção da barragem do Figueiredo; c) mineração de urânio e fosfato no sertão central; d) violação de direitos humanos da população de rua, crianças e adolescentes, população carcerária e remoções na região metropolitana de Fortaleza; e) megaeventos: Copa do Mundo da FIFA de 2014, a obra do veículo leve sobre trilhos, em Fortaleza; f) cinturão das águas e aterro sanitário no Cariri; g) demarcação de terras indígenas e violação de direitos no Estado do Ceará; h) agrotóxicos e povo Tapuya-kariri na Ibiapaba; i) injustiças ambientais em territórios tradicionais pesqueiros - eólicas, carcinicultura e especulação imobiliária na zona costeira e promoção, proteção e defesa de direitos da juventude.

Fonte: CPT CE
Com um público com mais de 60 pessoas, entre especialistas da Universidade Federal do Ceará, 11 jurados  - Movimento de Mulheres, Juventude, Quilombola; Rede Brasileira de Justiça Ambiental; Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra etc -, um juiz, um defensor e um promotor. O julgamento durou três dias e decidiram ser o Estado o grande responsável por aqueles crimes.
A sentença foi lida em praça pública, após seguiu uma passeata e o documento foi entregue, junto com a versão preliminar do dossiê, ao governo do Estado. Esta é uma prática que deveria ser garantida no Estado democrático.

Vale relembrar que a primeira edição do Tribunal Popular no Ceará foi no início da década de 1990. Naquele momento denunciou as violações de direitos e a exploração sofrida por trabalhadores, em especial os impactos das tecnologias emergentes. O movimento, na época, pautou o desemprego e o subemprego; as formas de trabalho escravo, infantil, temporário e degradante. Tais ações populares caracterizam o que se propõe como direito insurgente.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Direito, delírio, experiências e coisas reais



Este pequeno texto não é o nosso primeiro neste blogue. Em nossa primeira e recente experiência, tentamos expressar um pouco das angústias e conhecimentos que brotam da práxis extensionista de uma AJUP universitária.

Aqui, marca-se o início de uma nova caminhada. Agora advogados, neste início de ano passamos de graduandos à condição de colaboradores externos do LUTAS (UEL) a AJUP que há três anos ajudamos a construir em Londrina/PR. Assim nos tornamos dois jovens recém-graduados que não conseguem, porém, enxergar-se de modo algum como formados em direito. Como fazê-lo, afinal, se a cada experiência, a cada dia, a cada delírio, sempre crescem mais e mais as perguntas diante desse estranho objeto que é o fenômeno jurídico?

Foi nesse momento de transição pessoal que, com muito prazer, aceitamos o convite de escrever uma coluna e, assim, contribuir com este espaço de crítica e formação.

Nossas intervenções aqui serão mensais. E, assim como em nosso primeiro texto, nosso objetivo será o de problematizar questões vivas, cotidianas, provocar debates e reflexões e, com isso, desafiar o direito a ser desmistificado a partir do real. Daí o nome da coluna: Direito, delírio, experiências e coisas reais.

Começaremos falando sobre o que representou e representa participar de uma AJUP a esses dois caminhantes de primeiras viagens. Parece a nós que a grande vantagem da extensão universitária em relação ao ensino superior “tradicional” sempre foi o pisar no desconhecido. Longe das salas de aula e dos livros, o concreto das relações sociais desafia muito mais o estudante em sua dinâmica cognitiva. Nesse sentido, é possível perceber que a experiência ajupiana cinde-se inevitavelmente em dois momentos, complementares, mas distintos entre si: 1) trabalhar com o direito e com as demandas das comunidades assessoradas em conjunto com elas; e 2) pesquisar o direito como objeto do conhecimento humano, especialmente a partir dessas mesmas experiências práticas.

Bakhtine, acima, autor do conceito de
carnavalização como critério de
interpretação literária.
No primeiro desses momentos, no qual se desenrolam as atividades de assessoria jurídica propriamente ditas, as experiências são geralmente intensas, urgentes, impactantes, angustiantes, nos fazem chorar e nos desesperam. Ao final, voltamos para casa com a sensação de que seria necessário fazer mais, muito mais. Mas, sobretudo, é inegável que voltamos para casa diferentes. As marcas de nossos sapatos na extensão, que foram por um momento vivas, agora já vão se vertendo em pequenas memórias. E essas, ao se decantarem em nossa consciência, finalmente reviram toda a constelação teórica sobre o direito que carregávamos dentre os muros da graduação. Em poucas palavras: apreender o direito pelos olhos de uma AJUP inevitavelmente significa carnavalizá-lo, escancarar as suas mais íntimas contradições e, ao final, enfrentá-lo como algo palpitantemente estranho. E assim chegamos ao segundo e desafiante momento de uma AJUP universitária: pesquisar o direito, esse direito ao avesso e desafiante, esse direito carnavalizado e crú que acaba de ser apreendido na prática extensionista.  

A carnavalização não poderia
tornar possível
a criação da estrutura aberta,
da grande polifonia,
contra os costumes gnosiológicos
que deixam os juristas
com sua consciência em paz?
Luis Alberto Warat 1

 
 Capa do álbum Alucinação (1976), 
de Belchior
Lançados nessa aventura de brilho e escuro, sombra e luz, ao integrarmos uma AJUP vivemos essa intensa alucinação, semelhante a de um jovem Belchior que, logo no início de seu álbum de 1976, afirmava a condição histórica de ser um apenas rapaz, latino americano, sem dinheiro no banco, e vindo do interior, já denunciando, ao mesmo tempo, a incômoda contradição imposta pelo antigo compositor baiano que dizia tudo é divino, tudo é maravilhoso...

Também percorremos nossa própria alucinação na graduação, conhecendo por meio de simplificações de sala de aula aquilo que viria a ser o direito. Até que podemos, em dado momento da graduação, dar dois grandes gritos, ainda que prematuros. O primeiro deles veio da desilusão: nada é divino, nada, nada é maravilhoso, nada é sagrado, nada, nada é misterioso, não.

Já o nosso outro grito, esse que ainda amadurece em nós, vem da puberdade de nossa alucinação, como o cantor ao chegar à faixa central de seu disco: o grito de já não estar mais interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. O que nos interessa, agora, são justamente todas as coisas concretas, narradas nos versos seguintes da música, versos carregados de cotidianidade (jeans, motocicleta, violência, tráfego, pessoas cinzas normais) que chegam a passar despercebidas até a chegada do refrão novamente.


Curiosamente, após o ápice do álbum representado nessa música que lhe dá o nome, o poeta-advogado destina as quatro canções finais, já em musicalidade mais densa e de prosa entristecida, para falar do passado, presente e futuro. Alerta para o delirante não cantar vitória muito cedo não (Não Leve Flores); anuncia as mudanças em um passado que não nos serve mais (Velha Roupa Colorida); retrata sua pesada caminhada, de sonho, de sangue e de América do Sul (À Palo Seco); e tem a certeza que aflora da pele do retirante de que nada é divino nem maravilhoso para aquele que vem do Norte (Fotografia 3x4).

Como o compositor cearense, que deixa o futuro para a última canção do álbum, Antes do Fim, nós o fazemos igual.

Regredindo ao estranhamento do direito após a carnavalização da ordem jurídica pelos delírios do real, nos perguntamos: será que aí, nesse caos instaurado, poderá abrir-se a possibilidade de transformar o velho, aquelas falsas percepções sobre o direito, em algo novo verdadeiro?

Talvez.

Talvez seja esse o misterioso local onde, pelo esforço do delírio, poderemos conhecer teoricamente o direito. Essa será nossa aposta: arriscaremos aprender a delirar com as coisas reais, arriscaremos nos entregar a esses delírios como negação do retorno ao velho antigo. Apostaremos em, assim, nos reaproximarmos do direito, depois de carnavalizá-lo, como objeto pensado, agora enfim a partir das experiências concretas.

Pelo olhar dos olhos do povo, dissipadas as nébulas de suas mistificações, o nosso compromisso será com aqueles que sofrem nas mãos da ordem posta, com os pretos, pobres, mulheres, discriminados, estudantes, humilhados do parque e todos os trabalhadores… Essa será a nossa aposta epistemológica. Essa será a subida ao mirante2 mais elevado para observarmos as determinações concretas que permeiam a nossa sociabilidade e o direito dentro dela. Eis o método pelo qual o delírio nos regredirá ao concreto. Eis o método pelo qual esperamos, enfim, encontrar o direito nas coisas reais...

E a única forma que pode ser norma
é nenhuma regra ter;
é nunca fazer nada que o mestre mandar.
Sempre desobedecer.
Nunca reverenciar.”
Belchior, Como o diabo gosta

Reservamos a esses últimos parágrafos uma nota indesejada, cujo motivo ainda nos é difícil aceitar. Não poderíamos terminar o texto sem reservarmos suas linhas finais a um rapaz, latino americano, pai, que no dia 13 de abril de 2015 deixara órfãos seus versos e poesias. Eduardo Galeano, poeta que também sonhava a partir de coisas reais, que era capaz de mirar lo que no se mira, pero lo que merece ser mirado, coincidentemente nomeara uma de suas poesias pelo nome de El derecho al delírio, declamada no vídeo logo abaixo.

Por ocasião de sua partida, assumimos então mais um compromisso com o advento desta coluna, um compromisso galeano: qualquer que seja a nossa busca, o de sempre poetizar a vida e a escrita com simplicidade, sem perder de vista os sonhos, nem o contato com o real.

¿Que tal si deliramos por un ratito?
¿Que tal si clavamos los ojos, más alla de la infamia
para adivinar otro mundo posible? 3



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(1) WARAT, Luis Alberto. Territórios desconhecidos: a procura surrealista pelos lugares do abando do sentido e da reconstrução da subjetividade. Vol. I.   Florianópolis: Fundação Boiteux, 2004.

(2) Ver LÖWY, Michael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

(3) GALEANO, Eduardo. Patas arriba. Madrid: Centro Bibliográfico y Cultural: 1998.

domingo, 12 de abril de 2015

Coluna O Direito Das Marias - Dos retornos de uma mãe solteira mestra...

Dos retornos de uma mãe solteira mestra... Ou do porquê não queremos ser “guerreiras”



Como algumas e alguns de vocês sabem, eu ando sumida de muitos espaços.
Passei os últimos dois anos matando uns três leões por dia.

No primeiro desses dois anos de afastamento eu ainda me fiz presente em alguns espaços, mas de forma bem mais reservada que a costumada efusividade de antes. Mas, bom, eu estive presente. Quem não lembra desses momentos?

Pesquisa de Campo - 2013

Seminario IPDMS 2013

Mística no I Encontro Nacional do MMC

Reunião Conselho de Seções IPDMS 2013


No segundo, eu me ausentei de verdade, mas ninguém sabe muito dessa ausência e desse silêncio.
As mulheres e os não ditos mais uma vez...
As mulheres e os espaços privados...
Aquele privado que não é...
político?
O que eu estava fazendo?
Alguns diriam que eu estava sendo mãe.
Eu digo que não.
Eu estava sendo mulher.

Deixa eu ver se eu desenho pra vocês entenderem:
É que eu estava sendo mulher nessa sociedade patriarcal e marcada pela divisão sexual do trabalho.
E...
Nessa sociedade em que as mães, casadas ou não, são as responsáveis principais e/ou exclusivas pelas crias.
Nessa sociedade em que políticas como creches não são grande preocupação de espaços como Universidades...
Ser mãe de criança pequena e tentar ser mestra é massacrante.
Você não passa por isso, quando passa.
Você sobrevive.

Nunca “fui” tão mulher, como nesse momento da minha vida.
Nunca fui tão colocada no “meu lugar” de mulher, como nesse momento da minha vida.
Antes eu tinha conseguido escapar de algumas amarras do patriarcado, mas depois que eu fui mãe, não deu mais pra escapar...
Nunca entendi tanto as ausências de muitas companheiras e a presença de muitos caras que, mesmo sendo pais de criança pequena, continuavam nos espaços de militância... que, mesmo sendo pais de criança pequena, acabavam monografias e se formavam nos períodos regulares sem qualquer necessidade de pedido de prorrogação...
Simples: eles não são os principais cuidadores ou mesmo não cuidam de jeito nenhum.
Por que?
Porque eles podem.

Mas o que me aconteceu mesmo?
Eu engravidei, de forma não planejada, no meu primeiro semestre de mestrado. Passei a minha pesquisa de campo inteira, ou com uma gravidez avançada, ou carregando um bebê. Cheguei a ter bolsa, mas tive que abrir mão dela, porque a Universidade não tinha creche e eu precisava sustentar a mim e ao meu filho. Me vi, no meio do processo, com trabalho, filho, mestrado e bicos tendo que gerenciar creche, babá (quando pude ter) e mesmo cuidar diretamente as noites e todos os finais de semana.

Isso quer dizer muito trabalho não remunerado na esfera de cuidados mesmo com babá e/ou creche.

Coisas que só alguém que é cuidadora sabe... médico, compras de alimentos frescos, cozinha, lavagem e passagem constante de roupas, vigília atenta do sono, vigília redobrada durante o período em que a criança (cada vez mais agitada) está acordada, compra de fraldas, remédios, cuidados especiais quando se está doente, noites em claro com febre...

Nessa rotina louca somos muito felizes em alguns momentos, mas ficamos bem desesperadas na maioria do tempo e acabamos nem conseguindo aproveitar com leveza todos os momentos gostosos.

E somos nós, as mães, as principais responsáveis... Exceções que se abrem quando outra mulher nos substitue na tarefa de forma um pouco melhor remunerada que antigamente.

Vamos lembrar que há bem pouco tempo se tinham “escravas domésticas”, mulheres, na sua maioria negras, que trabalhavam sem limitação de carga horária, sem pagamento de horas extras, sem qualquer compensação de horário, as vezes de domingo à domingo, com uma tarde ou dia “livres”.

Graças a PEC do trabalho doméstico, as mulheres de classe média e alta começaram a perceber que, na verdade, precisariam de três (ou mais) trabalhadoras caso quisessem ter apoio constante, 24 horas por dia, sete dias por semana.
Digo as “mulheres”, primeiro, porque os homens ainda não perceberam isso, porque o trabalho antes não pago e executado pela “escrava” doméstica agora foi “repatriado” pela “sua” mulher.
Digo, também, as de “classe média e alta”, porque as de classe baixa, a grande maioria negra, sempre acumulou de forma gratuita esses serviços dentro de casa e, não a toa, não vemos tantas mulheres negras na Universidade, menos ainda sendo mestras, menos ainda doutoras...

O que nos leva ao seguinte quadro... nós, mulheres brancas ou negras, de classe média ou baixa, e universitárias, somos vistas como disponíveis 24 horas para a criança e a pergunta que fica: estamos em igualdade de condições com as outras mulheres não mães e com os homens, mesmo os que são pais? Claro que não.
Mesmo quando a babá ou a creche está cuidando, nós mulheres é que organizamos toda a infra estrutura para que a criança esteja com esses outros cuidadores o quer dizer um tempo considerável dos nossos dias.
Isso fora o tempo de cuidado direto que dispensamos e as noites veladas, porque essas quase ninguém coloca na conta.
Já ouvi a pergunta: ué, se você vai colocar na creche por que continuar com babá? O que responder? Por que eu preciso de apoio? Por que além da creche temos 16 horas de trabalho que esperam que eu faça de forma não remunerada? Por que esse trabalho precisa ser remunerado até que seja de responsabilidade de todas e TODOS? Por que, quem sabe, eu e outras mulheres também queiramos ter, eventualmente, vida social?
E... finalmente... por que eu tenho uma dissertação ou uma tese pra escrever?

Escreva uma dissertação com isso: criança doente, criança chorando querendo sua atenção, babá que falta ou que espera que você cuide da criança porque, oras, você está em casa “só” estudando, dívidas pra pagar porque você contratou mais cuidadores pra dar conta de escrever, trabalho formal e vários bicos porque você tem que dar conta de pagar toda essa estrutura...

E qual o apoio público que a gente recebe diante desses condicionamentos?
A capes dá só 6 meses de prorrogação da “rica” bolsa que você, até um tempo atrás não podia acumular com nenhum trabalho...
A maioria das universidades não tem creche.

Seja mestra assim! Seja doutora assim!

E isso porque eu consegui, em alguns momentos desses dois anos, ter acesso a creche e babá por conta da renda que eu conseguia com meu trabalho, bicos e com os vários empréstimos familiares ou bancários, que eu ainda hoje pago. E as mulheres que nem isso tem? Como ser mestras e doutoras com isso?

Muitas pessoas têm me chamado de guerreira e corajosa esses dias.
Olha, fui mesmo.
Não tenho nem idéia de como eu consegui fazer.
Mas eu digo com toda a certeza: eu não queria ter sido.
Eu não acho que isso é um mérito.
Eu acho que isso acaba caindo bem em uma das mentiras do próprio patriarcado em um nó com o capitalismo de que as mulheres são capazes de fazer essas múltiplas tarefas e os homens não conseguem.
Muitas de nós não conseguem mesmo e desistem dos seus sonhos no meio do caminho e acabam tendo que ficar na sombra financeira, emocional, política e social de homens.

É o seguinte: o machismo pode matar sonhos e pode dilacerar e massacrar as mulheres que ousam tentar sonhar, mesmo com barreiras e obstáculos materiais tão bem forjados.
Sou mestra, apesar de tanta coisa que quase me impediu de ser.
Me sinto vitoriosa, é verdade, mas além de estar aliviada e feliz, me vem um incômodo que precisa ser dito.
Acho que eu e outras mulheres não queremos ser guerreiras.
Queremos uma outra sociedade em que a divisão sexual do trabalho e os trabalhos ditos reprodutivos sejam de todas e todos e valorizados e valorados de igual forma.

Voltei, Marias.
Não sei ainda bem como será essa volta, mas uma coisa eu prometo, como sempre prometi:
Vamos incendiar esse país!