domingo, 7 de agosto de 2011

Justiça, uma canção de amor e liberdade

"Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,
quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos
e saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram
ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos
os povoadores de minha pátria longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?"

("Dito no Pacaembu", de Pablo Neruda, em "Canto geral")
 
Com estas palavras de Neruda, Taiguara epigrafa seu disco "Canções de amor e liberdade", de 1984. É seu primeiro LP depois do segundo exílio que vivenciou, em decorrência da proibição levada a cabo pela ditadura militar brasileira da divulgação de sua obra-prima, o disco "Imyra, Tayra, Ipy", de 1976. Já tendo se exilado em 1973, gravara na Inglaterra um disco chamado "Let de children hear the music", disco este nunca ouvido pelos brasileiros. Em três discos, o comunista Taiguara Chalar da Silva, cantor, faria miséria e seria dos mais afamados proscritos da música popular brasileira - uma dívida histórica circunda nossa polpuda MPB...
 
Meu interesse, hoje, é "Canções de amor e liberdade". Ouvi este disco, pela primeira vez, por intermédio de um amigo, estudante universitário como eu, perito na arte de recolher raridades audiovisuais. Lembro-me do forte impacto que me causou o disco, em versão "pirata", na qual só constavam os títulos das músicas e uma breve ficha técnica, de uma versão remasterizada e ampliada do documento sonoro.
 
Coincidência maior, não poderia ter havido. Hoje, cerca de 5 anos depois do primeiro contato, tenho em mãos o vinil do mesmo disco, adquirido junto a um sebo, casa comercial inscrita nas franjas do modo de produção capitalista, por vezes burlando e por vezes acentuando o mercado baseado no capital. Que seja, o mais interessante é notar que o disco é mais importante do que parece. Um pequeno depoimento do Maestro Gaya, arranjador do álbum, que fora gravado em - pasmem! -  Curitiba, me tocou particularmente:
 
"a proposta de um artista é transmitir emoções. Em toda a minha longa vida ligada ao Disco, nunca participei de um tão carregado de emoção em sua elaboração. O coro que paricipou de 'América del Indio' ficou cerca de quinze minutos emocionado, sem poder cantar, quando se inteirou da Letra. Uma assistente ocasional foi às lágrimas quando ouviu a mensagem de 'Mais-valia'. Em 'Estrela vermelha', a choradeira foi geral: minha, do técnico, dos assistentes e do próprio cantor/autor que, na primeira vez, não pôde terminar de cantar. Razão: a Letra retrata o que sentia o compositor, quando partia para o exílio, oprimido pela ditadura, vendo seu navio mais e mais se afastar de seu querido Brasil. Quase que o nome do Disco poder ser: 'Choros com Taiguara...'"
 
No mesmo encarte, daqueles grandes, próprios dos vinis que quase não existem mais, há uma mensagem de Taiguara, dizendo o seguinte:
 
"em 73 eu parei de cantar em público e me comprometi a só voltar quando houvesse menos censura e mais direitos pr'os trabalhadores da minha sofrida Terra das Palmeiras. Fui embora. Fui indo. Europa e África me re-fizeram Ameríndio. Em 76 gravei aqui, passei uns meses perseguido e silenciado. Aí parei até de gravar enquanto não liberassem meu povo, meus trabalhos de música e letra e de informação. Ouvi estórias que o 'poder' espalhou a meu respeito e nenhuma verdadeira. Na África de meus avós ouvi a História: da escravidão à libertação. Voltei à luta dos meus. Olinda, Tatuapé, Concepción do Paraguai e Mato Grosso-Guarani do Brasil... A classe operária empurrou a porta-de-ferro e a abertura de uma fresta foi só o que nós conseguimos até aqui.
 
Peço licença às mulheres e homens em luta constante contra o roubo e a miséria, p'ra cantar e tocar a nossa dor, e p'ra oferecer a minha Esperança:
 
'PELA PAZ MUNDIAL'
Qual o coração, humano,
que não erra?
- O que diz: Não,
aos tiranos. Não,
à Guerra.
E qual a paixão que não finda?
Que nem cansa?...
- A que diz: Sim.
Tenho ainda
Esperança.
Taiguara Chalar da Silva


PS. Saudações africanas a Mãe Olga e a Celso Prudente e família. Até à vitória. Sempre."
 
Certamente, quis Taiguara dizer, porque sentia, o mesmo que Neruda aos brasileiros. Neruda di-lo no Pacaembu e em homenagem a Luís Carlos Prestes. Taiguara, de igual modo, dissera algo ao velho Prestes: uma música chamada "O cavaleiro da esperança" - canção retumbante, por sinal.
 
O disco apresenta um verdadeiro arsenal de canções revolucionárias. É certo que, entre os compositores brasileiros, Taiguara foi dos mais censurados, ao lado de figuras como Sérgio Ricardo, Gonzaguinha e Chico Buarque. Mas, quiçá, seu cancioneiro e discografia estejam, nesta fase mais politizada, no mesmo pé que os de um Victor Jara chileno ou de um Alí Primera venezuelano. O certo é que Taiguara merece a devida lembrança e nós estamos fazendo o mínimo, nesta postagem.
 
Para não dizer que não falei de "flores", ou melhor, de floreios jurídicos, quero chamar a atenção para uma das 12 canções do LP. O disco contém as seguintes:
 
1. Anita (Taiguara)
2. Índia (J. A. Flores e Ortiz Guerrero; versão de Taiguara)
3. Voz do leste (Taiguara)
4. Mais-valias (Taiguara)
5. Che Tajira (Taiguara)
6. Moina me sorriu (Taiguara)
7. O amor da justiça (Taiguara)
8. Estrela vermelha (do crepúsculo do sul) (Graciliano Corrêa da Silva e Taiguara)
9. Guarânia guarani (Taiguara)
10. Marília das Ilhas (Taiguara)
11 América del indio (Taiguara)
12. Avanzada (Oscar N. Safuán)

"O amor da justiça" abre o lado B do disco. Poderia ser uma frase, esta, descomprometida, mas não: de fato, o amor da justiça abre o lado B. Dentre as muitas interpretações para as quais se abre a obra de Taiguara, uma pode ser a nossa discussão própria deste blogue e com ela encerro esta postagem de caráter muito mais de divulgação que qualquer outro.

A primeira estrofe diz:

Pois é.
Companheiro, não dá
Pra ver tanta injustiça
E estar a dizer "eu te amo"
Pra alguém que não vê.
Por isso esses anos.
Calado.
Por isso meus versos.
Proibidos.
Por isso não houve notícia
de mim pr'a você.

Sem dúvida, é um testemunho de punho próprio. Mas é também uma chamada de atenção contra o platonismo do amor tolerado: "eu te amo" só é frase de um amor concreto e não pode ser mentiroso. Como pode o artista se calar? Apenas se o calarem. Lembra os versos de Horácio Guarany: "si se calla el cantor/ calla la vida/ porque la vida misma/ es solo un canto".

Em sede de discussão marxista, logo remetemos à sugestão de um princípio de justiça que envolve capacidade e necessidade. E entre justiça e direito temos toda uma história de filosofia e ciência. Muitos críticos do direito buscaram resgatar a justiça histórica e não metafísica para fundar suas pretensões de mudança social e política: Lira Filho, Torre Rangel, Roberto Aguiar, Amílton Bueno de Carvalho... O certo é que não dá pra ver tanta injustiça e dizer "eu te amo, meu Brasil"...

A segunda estrofe entoa:

Pois é.
Já não quero cantar
esse amor sem justiça
que me CENSUROU
me CEGOU
pr'essa FOME em você,
que mesmo você
faz que esquece
e esconde de mim
que padece...

Amor sem justiça é moléstia, é sadismo, é alteridade negada. A violência física dos que foram "cegados", a violência cultural dos que foram "censurados", a violência vital dos que foram "miserabilizados" - toda esta injustiça não permitia o dístico: "ame-o ou deixe-o"! Impossível amor sem justiça, repita-se. Assim como impossível direito de normas autoproclamadas, a liberdade e seus limites em margens muito estreitas e estreitadas por decisão de quem é mais estreito ainda: o "poder", poder-entre-aspas, que nos faz lembrar os chiapanecos gritando aos quatro-ventos do continente: mandar mandando é arbítrio pois só há democracia quandos se manda obedecendo ao povo!

Mas mais do que tudo isso, amor sem justiça pode ser direito e isto nos leva a sua rejeição. Se este é possível, é preciso catapultá-lo de nosso horizonte, construindo um verdadeiro horizonte popular erigido sob o poder obediencial. É próprio da forma jurídica "esquecer", "esconder" o padecimento... se nem todos são tão iguais assim o que fazer? Perante a "lei", a mulher de Ló nem precisa olhar para trás para virar, irremediavelmente, uma estátua de sal...

Enfim:

Cantar, sim.
Mas bem mais HONESTO
é LUTAR
Com você

Cantar (uso tático) é preciso. Mas bem mais honesto é lutar (horizonte revolucionário). O uso tático do direito não pode enfronhar-se na injustiça da desonestidade de quem não luta "com", mas apenas "para". A suposta "guerra de posições" intraestatal de pouco servirá se as trincheiras não forem decisão popular e a insurreição seu corolário, porque a "guerra de movimento" é o fronte inescapável de qualquer movimento popular verdadeiramente insurgente!
Cantar, sim. Mas bem mais honesto é lutar com você.

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