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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Teresina indignada exige passagem

O povo teresinense protesta na capital do Piauí, ocupando a avenida Frei Serafim e as ruas da cidade. Faz lembrar uma famosa música de Teresina que diz "quando eu chegar na Frei Serafim/ laços de fita, meu bem, acene para mim". Mas ao contrário da letra de Vavá Ribeiro que se chama "Calmaria", o que vige agora é o clima caloroso de movimentação. Advogados e estudantes, inclusive de direito, têm participado das manifestações e, em seguida, reproduzimos um texto que expressa essa "juridicidade de combate", escrito na segunda-feira, dia 9 de janeiro de 2012, por Álvaro Feitosa e Lucas Vieira. Importante testemunho histórico - pois vivo - da assessoria jurídica popular!



Teresina indignada exige passagem

A CAUSA

No fim do mês de dezembro, o Prefeito de Teresina Elmano Ferrer (PTB) assinou decreto elevando a tarifa de ônibus de R$ 1,90 para R$ 2,10. Esse tipo de aumento, comum nas prefeituras em todo o país, se efetivaria no primeiro dia útil do ano (2012), visivelmente como forma de desmobilizar as manifestações contra o aumento, marcada pela forte organização e presença estudantil nos protestos.

Ocorre que no final de agosto e começo de setembro de 2011, já havia ocorrido uma grande movimentação em Teresina: 05 dias de longos e intensos protestos no centro da cidade fizeram que o prefeito recuasse sua primeira tentativa de aumentar o valor da tarifa para R$ 2,10.

Não obstante o aumento da tarifa, o prefeito de Teresina anunciou que o sistema de transporte agora contaria com a Integração - pauta antiga de reivindicação da população. Ocorre que, na prática, a integração mostrou que não integra quase nada: uma falsa integração.

A integração, que na maioria das capitais é feita através de um terminal, em Teresina seria meramente temporal, se limitaria a diminuir pela metade o valor de uma 2ª passagem. Entretanto, essa 2ª passagem só poderia ser minorada caso o usuário fizesse a 2ª viagem 01 hora após ter embarcado no 1º ônibus. E mais: a integração 'começaria', segundo a própria STRANS (Superintendência de Transportes e Trânsito), apenas em 35% das linhas, e cada linha só poderia "integrar" com outras linhas pré-determinadas pela prefeitura. Somado a isso, a Prefeitura resolveu remover alguns pontos de ônibus, bastante importantes, de uma das principais avenidas da cidade (Av. Frei Serafim), aumentando ainda mais o tempo em que o usuário permaneceria no ônibus - e, reduzindo, as chances de o cidadão usufruir da dita "integração".

Se a intenção da Prefeitura era desmobilizar a população, a realidade mostrou-se de outra forma, a farsa da integração só fez fomentar a indignação popular e o movimento ressurgiu fortalecido. No momento de escrito desse texto, já ocorreram 05 dias de manifestações e um 6º ato está acontecendo. Se tudo continuar no mesmo ritmo, o movimento somente cessará quando a tarifa realmente diminuir.

O CONTEXTO DO TRANSPORTE PÚBLICO EM TERESINA

O Sistema de transporte público em Teresina é completamente ilegal e, principalmente, incostitucional, as primeiras concessões de linhas foram outorgadas há mais de 30 anos e seguem, desde então, sem licitação - em que pese a imposição constitucional de tal certame.  Tal sistema é exercido através de empresas concessionárias. Essas concessionárias estão 'organizadas' no SETUT (Sindicato das Empresas de Transporte de Teresina), que sempre apareceu para a população como o verdadeiro órgão 'público' responsável pelo transporte.

É de se reafirmar que NUNCA houve licitação para a concessão de transporte público em Teresina. Por meio da lei municipal nº 3.946, prorrogou-se por mais quinze anos os contratos de concessão vigentes. Ou seja, essa Lei Municipal de 2009, descaradamente, quis passar por cima da Constituição. (Existe uma ação civil pública tramitando, interposta pelo MPF, suscitando a inconstitucionalidade da lei).

Todos as administrações anteriores foram convenientes com a política do SETUT. Aliás, conveniente é eufemismo para falar do conluio entre o SETUT e a Prefeitura Municipal Teresina: o aparato institucional da Prefeitura sempre serviu para que a lucratividade do SETUT não só permanecesse como aumentasse, como ocorreu quando da implantação sistema de bilhetagem eletrônica que deveria ser supervisionado e coordenado pelo STRANS, porém o sistema, em todo o seu processo, é conduzido pelo SETUT.

Nem as gestões anteriores (todas do PSDB), muito menos partidos de oposição com chances de chegar ao governo, se pronunciaram em enfrentar ou, ao menos, regularizar, dentro dos marcos legais, a relação com o SETUT. 

Para completar o rol de ilegalidades, o cartão magnético que permitira a integração é ou foi confeccionado pela empresa CRED SHOP, administradora de cartões de crédito, pertencentes ao Grupo Claudino, cujo um dos donos é João Vicente Claudino, Senador da República pelo mesmo partido do atual prefeito da cidade. Acrescente-se que tal cartão também funciona como um cartão de crédito, induzido, forçosamente, o/a trabalhador/a, ao endividamento.

Assim, fica fácil perceber também de como a mídia local (em especial, a televisiva) também acaba sendo refém (ou cúmplice) dessa relação SETUT-PMT, veiculando, quase sempre, informações que seguem o interesse de tais grupos políticos e empresariais.

O MOVIMENTO

Sempre que há um aumento de passagem, movimentos populares, em especial entidades estudantis, convocam atos em Teresina. Alguns tiveram bastante força, outros com pouca repercussão. Assim foram os últimos atos (anteriores a 2012) em Teresina, com pouca visibilidade, embora organizados, pensados e planejados. Vez ou outra, também se viam estudantes sendo agredidos por policias. Porém, agora em 2012, assistimos à ascendência de um movimento nunca antes visto, nas ruas de Teresina, pelo tamanho da força, pelo poder de agregação e persuasão, pela beleza de ver as ruas pintadas de povo, recusando-se contentar migalhas oferecidas pelas elites, que expropriam, diariamente nossa dignidade.

Somada à criação recente do Fórum Estadual em Defesa do Transporte Público, que já vinha promovendo estudos, debates e atos públicos em defesa da mobilidade urbana, a articulação via redes sociais foi fundamental para esse processo. Assim que, em 26 de agosto de 2011, o prefeito anunciou que a passagem aumentaria para R$ 2,10, a revolta da população em saber que pagaria tão caro por um serviço tão precário foi canalizada pelas redes sociais, como twitter e facebook. Espontaneamente, articulou-se um movimento para o primeiro dia de implantação do novo valor da passagem. Para uma manifestação chamada às pressas, sem grande planejamento, o primeiro dia de manifestação já surpreendera, pelo número de gente e pela capacidade de mobilização e resistência. No mesmo dia já houve repressão forte da polícia, com suas já conhecidas armas ditas não-letais.

Contrariando algumas previsões, no outro dia o movimento continuou nas ruas com um número de pessoas bem maior, dia em que o Prefeito após se reunir com uma comissão de negociação, informou que o preço da tarifa continuaria o mesmo. Durante todos esses dias, a repressão policial fora truculenta, a criminalização por parte da mídia foi intensa, acrescida da ação ilegal do SETUT (em que tirava os ônibus de circulação, para que a população pensasse que a culpa é dos estudantes), e a conveniência da Prefeitura e do Governo (que, comanda a Polícia Militar, frise-se).

Na sexta-feira, 02 de setembro, o prefeito revogou o decreto que aumentou a tarifa, que permaneceria por 30 dias, prorrogáveis por mais 30 dias, enquanto durasse a auditoria da planilha apresentada pelo SETUT. Formou-se uma comissão para a referida auditoria, composta por várias entidades da sociedade civil. Ocorreu que, tal auditoria se deu nos marcos da metodologia adotada pelo próprio SETUT, metodologia que utiliza índices de referências datadas de 1993. Assim, ao fim da auditoria, não foi surpresa que a mesma ratificou o aumento proposto pelo SETUT. 

Assim, como já dito, no final do ano aumentou-se novamente a tarifa para R$ 2,10, reacendendo a chama da indignação. Nos 05 dias de manifestações, entre os dias 02 e 06 do presente mês, o que vimos foi uma repetição mais cruel da criminalização de um movimento legítimo, democrático e popular. As cenas que vimos de violência policial recrudesceram-se na última semana na tentativa o sufocar o movimento, antes que tomasse a mesma forma do #contraoaumento de agosto/setembro.

Cada vez mais, o cerco se fecha em torno dos manifestantes, em ação conjunta da Prefeitura, Governo e Mídia Local, que abafou todas as cenas de violências amplamente divulgadas pela Internet. O movimento, contudo, ganha mais força e adesão popular, justamente por entender a violência que é o transporte público de Teresina (Precisaria de um outro longo texto para descrever as inúmeras deficiências de tal sistema).

Neste momento, ao passo que lutamos, aguardamos pelos desdobramentos do movimento #contraoaumento, por um lado, receosos quanto à atuação da Polícia Militar e, por outro, esperançosos que o sentimento de indignação e união permanençam e nos conduzam a uma verdadeira vitória popular.  Somos inspirados e inspiramos, também, as movimentações para transformar a mesma realidade, em outras cidades, cujas prefeituras continuam tratando nossos direito à mobilidade como mercadoria.  Aqui, se respira luta, sabendo que essa luta não é pontual, ela está dentro de toda uma luta para transformação de nossa realidade opressora. Que consigamos respirar lutas por todos os cantos, e aspirar liberdade e justiça para todos os povos. A luta continua, apenas começamos...

Alvaro Dias Feitosa
Estudante de Direito da UFPI

Lucas Vieira
Advogado


Ver mais:

- Blogue do movimento #contraoaumento;
- Histórico resumido das manifestações no portal 180 graus - Veja o resumo das manifestações #contraoaumento da semana;
- Postagem no blogue do Rovai - Estudantes são massacrados nas ruas de Teresina.

A Luta d@s indignad@s em Teresina pelo Direito a se mover na cidade e a Repressão Policial - CARTA ABERTA DA RENAJU

Segue Carta Aberta da RENAJU - Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária sobre as manifestações em Teresina contra o aumento de passagens e o sistema de integração imposto pelo prefeito Elmano Férrer do PTB.



CARTA ABERTA DA RENAJU A TERESINA


A formação das cidades brasileiras está interligada ao desenvolvimento do transporte público. De 1940 a 2000, a população urbana teve um crescimento de 135 milhões de habitantes. Formaram-se as grandes periferias, regiões afastadas do mercado de consumo e trabalho. A lógica da formação da cidade brasileira está imbricada à dependência da classe trabalhadora aos centros comerciais. Nesse contexto, a classe patronal, detentora dos meios de produção, potencializou a espoliação da classe trabalhadora, apropriando-se da função social do transporte público, restrigindo-o tão somente ao transporte do operariado ao trabalho. Hoje, o ranço dessa lógica permanece no país. Contudo, com um novo recorte: atualmente, o transporte público é uma verdadeira máquina de lucro. 
O alto valor das tarifas cobradas para termos acesso ao transporte coletivo - e não público- é mais uma forma de exploração da classe trabalhadora e estudantil.

Em 2012, iniciamos o ano com o aumento do valor da tarifa do transporte publico em várias cidades do pais e devemos todos nos perguntar: Este aumento me afeta enquanto indivíduo? E enquanto membro da sociedade? Afinal, qual a importância do sistema de transporte público e, principalmente, da luta por melhores e mais justas condições da infraestrutura deste serviço público?

Para alguns, pode-se viver uma vida sem utilizá-lo, para outros constitui verdadeira condição para usufruto do espaço urbano. Fato é que o transporte público é expressão do direito de ir e vir e do direito à cidade para todos, independentemente do poder aquisitivo. Além da tremenda importância social, exerce grande impacto sobre o mercado, haja vista que é a forma mais comum de deslocamento dxs trabalhadorxs ao local de trabalho.

A despeito de sua importância sócio-econômica, observa-se no Brasil um profundo descaso com o sistema de transporte público, com as tentativas de mercantilização deste serviço. E isto é realizado das mais diversas formas: desde o aumento da tarifa, passando pela precarização do serviço, as manobras do lobby de empresários e seus jogos de interesses com o Poder Público.

Os usuários de transporte público beneficiam toda a sociedade, uma vez que este serviço possui baixos custos sociais relacionados ao transporte (poluição, trânsito) em comparação às frotas de automóveis. No entanto, é justamente sobre nós que os impactos da lógica mercantilista do transporte ressoam mais forte. E é precisamente por isso que a luta contra a precarização e mercantilização deste serviço público é tão importante e é de toda a sociedade.

Os protestos de estudantes e trabalhadorxs de Teresina contra o aumento da tarifa de ônibus, embora legitimado pelas garantias constitucionais sobre as quais está fundado este pretenso Estado Democrático de Direito, sofrem uma dura repressão das forças governamentais. Seja através da Polícia Militar, de grupos de seguranças privados contratados pelos empresários da SETUT ou da mídia hegemônica, a repressão brutal (que inclui agressões à estudantes, prisão de inimputáveis, intimidações e outras formas mais ou menos sutis de violência estrutural) é a exposição de uma realidade na qual a economia (a lógica do mercado e da concorrência) se naturalizou como ideologia hegemônica - se impondo a todos os setores da vida social e individual - ao custo dos princípios elencados na Carta Magna.

A democracia não é uma coisa pronta e acabada, e sim um processo dinâmico e frágil que deve ser defendido enquanto conquista humana. A Constituição Federal de 1988 garante a livre manifestação do pensamento e o direito de reunir-se em locais abertos ao público, independentemente de autorização. Dadas as atuais condições de opressão e espoliação, a mobilização e os protestos de estudantes e trabalhadorxs da capital do Piauí constituem verdadeiros atos democráticos contra um discurso unilateral e fascista que se apropria dos instrumentos estatais para, ao custo da sociedade civil, garantir privilégios para uma elite vetusta e criminosa.

Desse modo, os movimentos sociais representam a potencialidade que mulheres e homens têm em se organizar e construir coletivamente uma sociedade verdadeiramente popular. Apesar de existirem diversos tipos de movimentos sociais, apenas alguns realmente ganham dimensão e expressividade, notadamente aqueles que têm um caráter emancipatório e que expõe à sociedade as brechas e contradições do sistema capitalista.

Diante do cenário brasileiro de exploração do homem pelo homem, Teresina não poderia continuar calada. A mobilização em torno da defesa de transporte público de qualidade desmacara o sistema que está posto, na medida em que denuncia a máfia entre a prefeitura e os empresários do SETUT, o aumento desmedido da tarifa de ônibus, a instalação de um sistema de integração, que de integrador só possui infelizmente o nome.

Quando estudantes, trabalhadorxs e entidades se organizam para denunciar as mazelas que o povo teresinense está sofrendo, atacam diretamente o sistema e os interesses hegemônicos de poder. Assim, políticos e empresários buscam seus meios e armas mais eficazes de defesa.

A grande mídia se apresenta, por excelência, como instrumento da ideologia dominante e em Teresina, está tendo um papel destacado na criminalização do movimento, adjetivando os militantes de baderneiros e bandidos, facilitando a criação de um falso consenso na sociedade local de que o movimento é ilegal e de puro vandalismo.

Nesse sentindo é que a Rede Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias (RENAJU), levando em consideração sua trajetória de lutas e a busca incessante pela emancipação popular, compreende como ato fundamental o repúdio a este conjunto de opressões e de truculências governamentais que vem sendo implementados sobre os estudantes e trabalhadorxs teresinenses!

Somado a isso, a RENAJU se solidariza com este movimento combativo construído na luta popular, que se opõe a exploração cotidiana da classe trabalhadora e estudantil, que denuncia como o governo trata o seu povo!

Solidariza-se, em especial, com xs companheirxs da Rede Estadual de Assessoria Jurídica do Piauí (REAJUPI), composta pelos núcleos CORAJE, MANDACARU, CAJUÍNA E JÁ!

Porque defender um transporte público de qualidade, combater a exploração humana, gozar de liberdade de manifestação e lutar por direitos não é crime!

Rede Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias - RENAJU 
Direito e Movimentos Sociais - UFRJ

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Há um ano, em Teresina...


Dois forasteiros aportaram por estas paragens. Umas barbas estranhas, um sotaque diferente... O que será que eles queriam?

Relutante e desconfiada, decidi me aproximar. Como pano de fundo, um mini-curso com um título que mais parecia um eco: “a crítica da crítica crítica...” ( “a sagrada família jurídica”).

Confesso que não estava muito predisposta para o evento. A cabeça dolorida pelo dente que havia arrancado no dia anterior por conta do bendito aparelho, o mau humor por não estar assistindo ao ” Fórum Íbero-Américano de Direito” que acontecia simultaneamente e que prometia ser um evento de debates e novas idéias. Tudo culpa do Macell que praticamente me obrigou a ir ao mini-curso!

Retornei à UESPI onde havia me formado um ano antes- sem poucos traumas. Foi lá que o mini-curso aconteceu.

Então eles começaram: Kant, Hegel, Marx... Até aí tudo bem. O primeiro ano da graduação havia sido razoavelmente bem aproveitado. Depois a coisa toda começou a tomar um rumo muito estranho: Stucka, Pachukanis, Boaventura, Sidekum, Alfonsim, Freire, Warat, Lyra Filho e até mesmo Saramago? Pensei comigo: “Peraí, cadê o bom e velho direito dogmático, ou sua crítica bem alinhada, cortês, de riso desdenhoso?”. Onde eu havia me metido?

Mantive-me um pouco afastada dos facilitadores, ainda que trocasse uma ou duas palavras a partir do segundo dia. Eu precisava de distância para pensar...

Percebi, então, que ali eu estava adentrando numa das mais profundas, conscientes, sensíveis e avassaladoras críticas às nossas instituições e aí também, obviamente, ao direito. Um “pré-ssentimento” de um porvir...

Ao final do mini-curso, que foi muito intenso, eu sabia que algo havia acontecido. E era dentro de mim. Uma voz que havia quase emudecido por conta de desilusões acadêmicas. Eu podia ouvir as cadeias rompendo e tudo o que eu havia reprimido por conta do curso de direito (por motivos que não cabem nesta postagem), simplesmente desaguando, águas rolando como no poema do Rosa ( Águas da Serra).

Não me senti revolucionária como os outros participantes- para mim eles eram revolucionários! Eles me pareciam bem mais maduros quanto a isso e acho que eu teria ainda muito o que resolver antes de me reconhecer como tal, mas a sensibilidade, o desejo de transformação, a perspectiva do plural, a dialogicidade, a ludicidade ( a literatura!), o sonho... Tudo estava de volta! E eu mal cabia em mim de contentamento.

E, bom, eles foram embora. Aqueles barbados de sotaque diferente. Soube que logo depois se tornaram professores e que hoje são vozes chaves do “u-tópico”, que aqui interpreto como o lugar que ainda pode ser...

Foram embora, mas deixaram um importante legado dentro desta que vos escreve.

....................................................................................................................................................................

Trecho de Águas da Serra ( João Guimarães Rosa- Magma)

“(...)

E então, do semi-sono dos paraísos

perfeitos,

os diques se romperam,

forças livres rolaram,

e veio a ânsia que redobra ao se fartar,

e os pensamentos que ninguém pode deter,

e novos amores em busca de caminhos,

as águas e as lágrimas sempre correndo,

e Deus talvez ainda dormindo.”



segunda-feira, 19 de abril de 2010

XII ENCONTRO DA REDE NACIONAL DE ASSESSORIA JURÍDICA UNIVERSITÁRIA




Em meio a um feriado espiritual, por entre salas e verdes lousas, ocorreu na cidade de Teresina (PI), no período de 31 de março a 04 de abril, a consagrada e intensa renovação de tesão da Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária cujos rituais e símbolos fazem crer que se trata da maior reunião anual da RENAJU. Trata-se do ERENAJU, que este ano foi realizado em sua 12ª Edição, organizado pelos projetos Cajuína (UFPI), CAJUP Mandacaru (CEUT), NAJUC Justiça e Atitude (ICF) e CORAJE (UESPI).

O Encontro possuiu um cárater diferenciado não só pela tonalidade do debate sobre a Organização Política da Rede como também pelo fato de se ter priorizado espaços para a formação dos participantes na temática da Assessoria Jurídica Popular (AJP) o que é vislumbrado pela realização da I mostra de pesquisa da RENAJU na qual houve a apresentação de artigos sobre as teorias e práticas da AJP; e também pela distribuição de um caderno de textos no qual constavam autores como Miguel Pressburger, Luiz Otávio Ribas, Miguel Baldez, Assis Oliveira, entre outros, que serviram como portos de saída para os debates calorentos (Teresina é cristalina com a intensidade de mil sóis) sobre as concepções de AJP.

A plenária final contou com a participação de projetos que ainda não ingressaram oficialmente na Rede, a exemplo do Serviço Universitário de Resistência e Justiça para a Autonomia (UFPel) e do Paraisopólis (USP), além de 17 projetos do total de 23 de compõem a RENAJU atualmente, a saber: NAJUP Isa Cunha (UFPA), NAJUPAK (UFPA), NAJUP Negro Cosme (UFMA), NAJUP Maria Aragão (FSL), PAJUP (UNDB), CORAJE (UESPI), Cajuína (UFPI), CAJUP Mandacaru (CEUT), NAJUC Justiça e Atitude (ICF), PAJE (URCA), NAJUC Ceará (UFCE), CAJU (UFCE), SAJU (CE), NAJUP Direito nas Ruas (UFPE), SAJU (USP), NAJUP (UFGO) e SAJUP (UFPR).

O relátorio da Plenária Final bem como o dos projetos participantes encontra-se em fase de elaboração, mas já é possível antecipar pontos concenssuais como a aprovação da Campanha Anual com a temática do Financiamento da Extensão e a participação da Rede no Encontro Nacional de Extensão, a ser realizado durante o Encontro Nacional de Estudantes de Direito (ENED), em Brasília, em julho de 2010.

Sobre a Organização Política da RENAJU para a qual houve diversas propostas durante o Encontro, devido a dimensão da querela, a RENAJU agendou uma reunião virtual de cunho deliberativo para o dia 02.05.2010, às 17h (horário de brasília), quando também serão tratadas algumas pautas pendentes como ANCED e a organização da Campanha Anual. É esperar para ver! Até lá!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Quem constrói a ponte não conhece o lado de lá


Segue um pequeno e breve relato sobre a experiência CORAJE (Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil) na Vila São Francisco, Teresina. O Coraje, núcleo de AJUP que surgiu em 2007, tocados por estudantes da UESPI (Universidade Estadual do Piauí), iniciou o trabalho na comunidade, há mais de um ano, inicialmente se articulando com líderes comunitários e associação de morades e agora inicia um novo trabalho: Um ciclo de oficinas sobre mobilização, participação popular e Direitos Humanos com um grupo de jovens da Comunidade.
O relato, feito por Jorge André, integrante do projeto, é sobre a primeira oficina desse ciclo.

Quem constrói a ponte não conhece o lado de lá
Jorge André

A primeira vez é sempre complicada. Nervosismo dos dois lados, cada um querendo mostrar o melhor de si. Será que eu vou agradar? Será que eu vou fazer a minha parte direito? O que será que o outro está achando? Essas perguntas certamente povoam a mente de ambos.

No começo, acanhamento; um novo horizonte se apresenta para cada parte. A apresentação, um pouco desajeitada, um pouco pulando etapas, é reflexo da empolgação por iniciar uma nova jornada, e a vontade de que tudo dê certo. Uma criação de vínculos que há muito – pelo menos pelo projeto CORAJE – era esperada.

Um a um, os nomes vão se revelando; é complicado fixar quem são todos, pois uns acabam se destacando mais do que outros. Quem se propõe a construir ideias junto com uma comunidade, no entanto, tem que valorizar não só os que são mais explícitos, mas também os que não se manifestam, o porquê de eles não falarem. Coisas que o tempo ensina.

A falante e espevitada Bianca, o articulado Damião, o nervoso Hélio – mas cuja vontade de agir faz superar essa limitação – têm tanta importância quanto os que não falaram – talvez por isso seja difícil fixar-lhes os nomes, e dar-lhes a atenção devida.

Logo após, a dinâmica do quebra-cabeças, e dois grupos se formam com o objetivo de mostrar as dificuldades de se construir coletivamente (e o desejo de montar a figura, que não deixa perceber que faltam algumas peças, adquiridas no contato com o outro grupo).

Demora muito para que se faça algo de efetivo, mas os participantes têm a possibilidade de entender como vale a atuação de cada um para montar a figura (bem como para “montar” a realidade em que estão inseridos).

Ao final, uma oração, reflexo de se trabalhar com um grupo de jovens ligado à Igreja Católica. Ainda que o CORAJE não se pretenda atuar “com fins religiosos”, deve ter em mente que o respeito à realidade deles passa pelo respeito à crença deles.

Por meio da comunhão dessas vivências, espera-se, um novo saber há de emergir nos/pelos dois grupos, que, no final das contas, fazem parte de um todo maior: a sociedade.