quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Como formar uma AJUP?




Muito mais do que receita pronta, o que disponibilizo a seguir são onze elementos que acredito serem fundamentais para a formação e manutenção de uma Assessoria Jurídica Universitária Popular (AJUP).




1. Descobrir-se coletivamente: encontrar estudantes e, por vezes, docentes e técnicos que compartilhem dos ideias e da vontade de atuar no ambito da AJUP é tarefa que transcende o próprio curso do Direito. Em muitos casos, a reunião do grupo de sujeitos que dará início ao processo de formação e manutenção da entidade ocorre pelo compartilhamento da crítica às práticas tradicionais dos cursos universitários, voltados para propostas desvinculadas das problemáticas sociais relevantes, o que coloca o referencial da AJUP como contra-proposta ao marasmo acadêmico, e potencializa a inserção da educação popular em direitos humanos enquanto discurso de repercursão e inserção interdisciplinar, de reencontamento com a educação e de fomento ao protagonismo estudantil na formação e politização universitária. Importante frisar que o planejamento do trabalho coletivo deve ser realizado de modo a não sobrecarregar determinadas pessoas, potencializar as práticas educacionais a partir da valorização das diferentes contribuições de cada participante e manejar a passagem das gerações que irão atuar na AJUP.




2. Projeto Político: trata-se da elaboração do projeto para a AJUP e da AJUP para a sociedade e universidade em relação ao conteúdo intrínseco da(s) problemática(s) que a constitui. É fundamental a elaboração escrita deste documento, que se torna a matriz identitária e político-organizacional da proposta ajupiana, onde podem ser encontrados os pressupostos, as reivindicações e as propostas, passíveis de serem reformulados ao longo da atuação. A estrutura do projeto pode conter sistematização similar às encontradas no ambito acadêmico formal – introdução, justificativa, hipóteses, metodologia, objetivos, etc. –, mas deve sinalizar com atenção as bases político-ideológicas e teórico-metodológicas da entidade, de forma a garantir a coerência da ação e a manutenção para além de conjunturas político-institucionais pontuais. O projeto político não pode ser confundido com o projeto extensionista ou de pesquisa, ele é, a meu ver, a carteira de identidade de cada AJUP, sua carta de apresentação e representação que sinaliza a própria razão de existir da entidade e responde, basicamente, a três perguntas: por que formar uma AJUP? para (o) que(m)? e a favor/contra o que?




3. Institucionalização: processo de enraizamento das entidades nos espaços universitários estrategicamente ocupados. A institucionalização ajuda tanto na manutenção financeira da entidade, em especial a partir do ingresso em editais de seleção de bolsas de extensão e pesquisa, como no fortalecimento político, por meio da defesa da valorização da prática ajupiana como modalidade extensionista que necessita de local próprio para operacionalizar as atividades, se possível com a aquisição de sala com materiais de consumo e permanentes, e da oferta de carga-horária anual para os discentes que participam diretamente – algo que pode ser incluído na carga-horária obrigatória de atividades complementares ou como disciplina optativa do percurso acadêmico. Não se pode esquecer de reinvindicar, quando possível, a inclusão da AJUP no Plano Pedagógico do Curso e nos Planos de Gestão, o que reforça o caráter permanente da proposta e instrumentaliza a entidade para posteriores reivindicações político-institucionais pela melhoria das condições da AJUP e do curso universitário.




4. Interdisciplinaridade: o trabalho interdisciplinar envolve o esforço do reconhecimento das incompletudes teóricas dos ramos da ciência moderna e a proposta de articulação solidária e planejada entre diferentes sujeitos de saberes científicos para a potencialização das ações extensionistas desenvolvidas na AJUP. A reivindicação da interdisciplinaridade na AJUP ganha ares de bandeira de luta pela expansão interna na universidade, saindo do gueto tradicional dos cursos de Direito para procurar integrar sujeitos oriundos de outros campos do conhecimento científico, como Pedagogia, Psicologia e Sociologia. O trabalho com a educação popular e com os direitos humanos, além das inserções específicas de cada entidade na realidade local de atuação, são fontes própícias para o fomento do diálogo interdisciplinar, e necessitam serem realizadas de modo a garantir a autonomia de cada sujeito de saber no espaço de atuação e articular engajamentos conjuntos para a melhoria das atividades.




5. Formação interna: a formação interna deve ser contínua, dando enfase ao caráter permanente desta tarefa. De início, é necessária a leitura e discussão de textos, concomitante a problematização de vídeos, poesias, músicas, entre outros recursos didáticos, sobre conteúdos compreendidos como relevantes pelo grupo para o amadurecimento da entidade. Neste caso, as discussões coletivas tem peso fundamental no processo de constituição das marcas identitárias da AJUP, pois possibilitam a determinação de posições majoritárias em relação a determinados assuntos, o que se reflete no modo como a AJUP pode externalizar para outros sujeitos e entidades suas definições. Além disso, é salutar que a formação interna abarque temas – universidade, direitos humanos, educação popular, movimentos sociais, interdisciplinariedade, acesso à justiça, socialismo e assessoria jurídica (universitária) popular – que são cruciais para o diálogo com outras AJUP’s no ambito da Rede Nacional de Assessorias Jurídicas Universitárias (RENAJU) e compreensão do que seja atuar em/como AJUP. Por isso, o ideal seria que a formação interna contínua fosse planejada de modo a acolher assuntos gerais, os mencionados acima, e temas específicos dos grupos de estudantes, sobretudo os voltados para as práticas de extensão, pesquisa e ensino de interesse.




6. Intercâmbio regional e nacional: o início da prática de AJUP num determinado local universitário está quase sempre atrelado ao incentivo desenvolvido em estudantes, isolados ou coletivamente organizados, por meio da participação no Encontro Nacional dos Estudantes de Direito (ENED), onde ocorre o Encontro das Assessorias Jurídicas Universitárias (ENAJU), quando há o primeiro contato com participantes de AJUP’s e a compreensão da maneira de atuação e organização destas entidades. O passo seguinte é a inserção na lista virtual da RENAJU e a participação nos outros eventos nacionais ou regionais que compõe o cronograma de atividades da Rede – o Encontro Nacional das Assessorias Jurídicas Universitárias Populares (ERENAJU), normalmente realizado no mês de abril de cada ano, no feriado da pascoa; e os dois Encontros Regionais, norte-nordeste e sul-centro-oeste-suldeste, que ocorrem no segundo semestre de cada ano. A participação nestes eventos e na lista virtual possibilita o intercambio de idéias, materiais e experiencias fundamentais para o amadurecimento de novas AJUP’s e estratégicos para o fortalecimento da RENAJU. Em muitos casos, como ocorreu durante o período de formação do Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular “Aldeia Kayapó” da UFPA, em 2004, o deslocamento de membros de AJUP’s mais antigas – no nosso caso, do companheiro Igor Almeida do NAJUP “Negro Cosme” da UFMA – para realizarem oficinas com os membros de novas AJUP’s é ação estratégica que possibilita intercambio prolongado sobre o cotidiano, os marcos teóricos e os caminhos a serem traçados.




7. Rede de parceiros: a designação representa o conjunto de atores e instituições sociais, públicas ou privadas, que dialogam com a AJUP e possibilitam a articulação de ações em rede. Os parceiros podem contribuir tanto para a participação em ações internas de cada entidade quanto para o desenvolvimento de atividades coletivamente construídas e organizadas, como os Comites e Fóruns. Sobretudo, é importante pensar a formação da rede de parceiros como medida para ampliar a repercussão e abragencia de ações extensionistas desenvolvidas pela AJUP, principalmente quando ocorre a articulação com instituições estatais e movimentos sociais, pois isto garante a transformação de discussões pontuais em pautas de reivindicações e políticas públicas para a efetivação de determinados direitos humanos que mostram-se ausentes ou violados em outros locais além daquele onde se trabalha mais detidamente.




8. Ação extensionista: historicamente, as AJUP’s garantem a institucionalização e a representação na universidade por meio da tradução de suas ações sociais em projetos de extensão universitária. Por que a extensão? Porque é o espaço acadêmico privilegiado para o diálogo e a interação com a sociedade, materializado, notadamente na AJUP, respeitando a indissiocialibilidade entre extensão, pesquisa e ensino, e promovendo a politização da função social da universidade, e dos saberes científicos engajados, para a articulação democrática com os saberes e sujeitos populares. O que a tradução como extensão universitária garante? Em primeiro lugar, mínimos recursos financeiros, por intermédio da concessão de bolsas que subsidiam as despesas necessárias para a realização das atividades e manutenção da entidade. Em segundo lugar, a formalização da entidade, ou seja, o reconhecimento institucional de sua(s) proposta(s) de intervenção sócio-acadêmica e credibilidade do grupo de participantes. Em terceiro, a inserção no espaço das extensões universitárias, com a possibilidade de intercambio de conhecimentos e sujeitos entre os diferentes projetos que a integram e a divulgação das atividades desenvolvidas e do ideal de AJUP nos eventos institucionais regionais – as Jornadas de Extensão, que ocorrem normalmente no final do ano – e nacional – o Congresso Nacional de Extensão Universitária. No entanto, é necessário haver a construção de projeto escrito e a procura por professor universitário que possa coordená-lo, este último requisito alvo de muita dificuldade, na maioria das AJUP’s, devido a carência de educadores que se comprometam em coordenar atividades extensionistas – haja vista o total descaso com que a extensão universitária é tratada no ambito acadêmico, com disponibilização de parcos recursos e desvalorização em relação a pesquisa e ensino – ou compartilhem dos ideais e forma de atuação da assessoria jurídica – pois a maioria deles (ainda) pensa a extensão univeristária pela ótica da assistencia jurídica, com foco na prestação de serviços esporádicos, paternalistas e conservadores. Ainda assim, e seja qual for o coordenador escolhido, a autonomia e o protagonismo estudantil não podem ser abalados, sob pena de perda de uma das principais marcas identitárias e organizacionais da AJUP.




9. Divulgação e Produção: divulgar a AJUP significa, literalmente, dá-la visibilidade nos espaços sociais e acadêmicos onde atua. Muitas vezes, os estudantes de Direito passam o curso todo sem sequer terem ouvido falar da AJUP que nele existe. A divulgação da AJUP fortalece sua imagem, incentiva a inserção de novos membros e amplia a rede de parceiros. De que modo é possível divulgar a AJUP? De muitos modos, por meio de cartazes, folderes, camisetas, seminários, blog, passagem em salas de aula, entre outras medidas. Em especial, a divulgação também pode ser feita através da produção teórica e publicação decorrente em revistas, anais, livros ou outros meios impressos ou eletrônicos. No entanto, a produção teórica traz consequências maiores do que a divulgação, torna-se mecanismo fundamental de reflexão sobre as ações desenvolvidas, de apropriação de marcos teóricos, de amadurecimento individual e coletivo, e de registro histórico. O engajamento na teorização das práticas necessita ser igual ao da pratica do teorizado, pois esta relação dialética permite a melhoria das ações e o fortalecimento da AJUP.




10. Registro histórico: a produção de banco de dados sobre o passado de cada AJUP garante a oportunização de informações sobre sua história. Muitas vezes, a preocupção apenas com o cotidiano, com o que ocorre no presente, atrelado ao fato de sermos sobrecarregados com múltiplas tarefas diárias, impossibilita que os participantes da entidade tenham a real dimensão da importancia desta ação. A produção e manutenção de registros históricos, seja os de ambito administrativo – as atas de reuniões, os e-mails da lista virtual e os produtos técnicos (cartazes, folderes, informativos, ofícios, gravações, fotografias, estruturas de oficinas, listas de frequências, entre outros) – ou os de cunho acadêmico – os artigos, as monografias, dissertações e teses, os livros e demais materiais bibliográficos que formam a biblioteca de cada AJUP, entre outros – representam medida estratégica para a longevidade das entidades e compreensão dos caminhos a serem tomados no presente e no futuro. Por isso, seria salutar que alguns membros ficassem responsáveis pela organização deste banco de dados e disponibilização para os outros membros ou demais pessoas/entidades interessadas.




11. Fomentar o tesão: o tesão é um princípio ajupiano, ou melhor, é um princípio de todo ato revolucionário que se reconhece como solidário, democrático e emancipatório. Postular o fomento ao tesão é fazer da participação na AJUP momento de diversão, de descontração e de reencontro com sentimentos pouco valorizados pela ciência, educação, mercado e sociedade moderna, como o amor, a amizade e o companheirismo. Por um lado, a inserção de dinâmicas e outras atividades lúdicas ou artisticas (poesias, músicas, brincadeiras, teatro, dança, filmes, etc) fomentam a produção do tesão nas ações desenvolvidas, seja numa simples reunião de final de semana, numa formação interna, ou numa oficina da ação extensionista. Mas isto somente não é o bastante. O tesão também precisa ser fomentado pela oportunização de atividades periódicas de lazer, momento em que os participantes da AJUP se reunem para festajar a vida e compartilharem instantes de alegria e descontração que fortalecem a união entre os membros e a vontade de atuar. A leitura (coletiva) do Estatuto do Tesão (Lei Complementar n. 0.001 de 01 de abril de 2003) também é medida importante, para o entendimento da abragência e potencialidade do tesão, e compreensão de que este representa “... a paixão, o entusiasmo, a alegria, a motivação e a juventude necessárias à construção de um mundo livre e igualitário, onde a felicidade e a beleza sejam experiencias cotidianas...”, como disciplina o art. 2º.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Comunicação na América Latina

Aproveitando o ensejo da discussão da mídia, proposta pelo Thiago Arruda, gostaria de apresentar dois jornalistas que contribuíram muito para a comunicação em nosso continente.

O Adelmo Genro Filho (1951-1988)  (sim, ele é irmão do Tarso), foi professor e um dos fundadores da faculdade de jornalismo da UFSC, buscou construir uma teoria marxista para o jornalismo. Sua obra "O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo", está disponível na internete, ou, com sorte, em algum sebo.



Daniel Herz (1954-2006)  foi jornalista e articulador político. Sua obra mais célebre foi "A História Secreta da Rede Globo", que este mês foi relançada pela Editora Dom Quixote, de Porto Alegre. Conforme a sinopse da editora, "este livro, originalmente lançado em 1983, que se encontrava esgotado desde 1987, reconstrói a história da formação da Rede Globo, lançando luzes em muitos aspectos que se faziam invisíveis. A História Secreta da Rede Globo é uma obra polêmica e, sem dúvida, importante para o debate do Brasil Contemporâneo, especialmente no que diz respeito à democratização da comunicação".


"Não há nada mais ousado no universo do que o homem"
Adelmo Genro Filho

América Latina: política e mundo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Os Nossos Direitos Humanos e os Direitos Humanos Deles




Olá, olá. Quem vos escreve é Thiago Arruda, do Ceará, em minha primeira postagem: graças à Globo (ou culpem a Globo)...

Os Nossos Direitos Humanos e os Direitos Humanos Deles

Quem assistiu ao Jornal da Globo da última quinta-feira (7/1) teve a sorte de se deparar com uma aula magistral. William Waack, enquanto defendia (sim, jornalistas não só afirmam, eles defendem) que o Plano Nacional de Direitos Humanos atentava contra os próprios Direitos Humanos, por tocar no monopólio da terra e da comunicação, mostrava a todos do que se trata este debate: disputa política. Não que isso nos seja novidade. Mas foi interessante observar este episódio em paralelo a uma leitura de Bobbio, n’A era dos Direitos: interessante porque essa mistura trouxe à tona debates antigos que fazíamos entre os núcleos de extensão em Assessoria Jurídica Popular, sobre o fundamento dos Direitos Humanos, sobre o que significava lutar por sua efetivação. Vieram-me à cabeça discussões em encontros, grupos de estudo; momentos em que se levantava o questionamento ao Direito de Propriedade como Direito Humano; oficinas em que se inventava o “Direito Humano a nunca ser oprimido” (claro que num sentido bem mais profundo do que o “doutrinário”, ligado às liberdades individuais); em que se atacava o fundamento jusnaturalista e, sem nos conformarmos com a leitura formalista, buscávamos uma compreensão crítica, que – hoje, me parece, com mais nitidez - se liga a uma compreensão materialista do desenvolvimento desses direitos.

Escutei uma vez: “Os Direitos Humanos são uma plataforma política”. No final das contas, defender Direitos Humanos é defender um projeto político e um modelo societal. Nisso, faz diferença o como defender e a compreensão sistêmica na qual se encaixa esta defesa. Bobbio chega ao reconhecimento do caráter histórico desses direitos; sua leitura é interessante neste ponto. Nós? Nós, militantes de Direitos Humanos, estamos dentro dessa historia e precisamos de um lado. Para a Globo, o Agronegócio e o DEM, trata-se do direito humano ao monopólio da terra e dos meios de comunicação. Em outras palavras, o monopólio dos meios de produção econômicos e dos consensos. Bastou que triscassem nele para que os telejornais mais uma vez evidenciassem sua verdadeira essência, a de panfletos sanguinolentos. Audiências sobre reintegração de posse com a participação do movimento social são transformadas em um “preconceito contra o agronegócio” (os latifundiários são, agora, quase uma “minoria”, ou, aliás, eles são mesmo, das menores delas), em um enorme atraso à desocupação de paraísos na terra que servem ao progresso da nação. Os Direitos Humanos, então, só confundem? Colocam a todos do mesmo lado? Adotamos uma estratégia equivocada? Os nossos Direitos Humanos são os mesmos Direitos Humanos deles? Precisamos fazer mais: além.

A nossa tarefa de fazer mais significa lutar por este projeto, socialista, expressando seu caráter emancipatório também em direitos. Significa perceber que os Direitos Humanos são, de fato, este balaio de gato, ou esse saco vazio (ou cheio de tudo?), e que é a política, é a disputa de hegemonia que vai dizer o que eles são e serão, assim como já disse o que eles foram. Eles, no Jornal da Globo, nos mostram de novo – e nos mostram sempre – que a luta de classes existe, e que, fora dela, falar em Direitos Humanos é flutuar num lugar-nenhum (o que soa “ideal”, tentador, até pseudopoético, e nada constrói), muito próximo de um racionalismo abstrato daquele fundamento metafísico absoluto. O inimigo – e não há qualquer pudor mesmo neste termo, sem que se abandone uma perspectiva humanizadora, sem que se personalize o conflito – transforma em direitos seu projeto elitista; é, na verdade, bastante didático, e nos ajuda a desenhar o mapa em que traçaremos o percurso; nos ajuda a perceber por que lado cada sujeito opta. A nós, resta assumir a História em sua concretude, assumir a luta de classes, assumir o nosso lado, manter-se à esquerda, até a última gota; até que se efetivem direitos, se criem direitos, e que se destruam (também) direitos, para que os novos nasçam ("a todo o direito corresponde uma obrigação" - obrigado, Bobbio - e, a todo privilégio da burguesia corresponde uma forma de exploração dos trabalhadores); até que a liberdade não signifique monopólio, que não se trate da liberdade para uns de ter uma Hilux (agora percebo, o “alto-luxo” no nome) ou uma L-200 (prometo pesquisar a origem deste nome), enquanto a liberdade para outros oscila entre dormir embaixo de uma ponte ou de um viaduto - e olhe lá. Lutemos pelos Direitos Humanos até suas últimas conseqüências; até que seja um direito humano, por exemplo, não ter o produto de seu trabalho roubado; até que seja um direito humano não ser oprimido, como naquela oficina que faz tempo. Isso mostra(rá) as diferenças. A radicalidade prefere o nosso lado, é essa a melhor parte.

(O link do vídeo, que infelizmente não contém o início do jornal com o William Waack – mas Globo, ABERT, CNA, DEM e PSDB garantem a lição:
http://video.globo.com/Videos/Player/0,,GIM1187223-7759-PROGRAMA+NACIONAL+DE+DIREITOS+HUMANOS+VOLTA+A+GERAR+POLEMICA,00.html)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Revisão da lei de anistia




Na "Coluna de Jacques Alfonsin e Antonio Cechin" desta semana divulgamos o artigo publicado ontem no Instituto Humanitas da Unisinos intitulado "Revisão da lei de anistia: a pregação contrária trata a impunidade como imunidade".

Opiniões necessárias neste mar de reacionarismo que temos acompanhado na mídia, inclusive por parte de integrantes do governo. Como nosso ministro da agricultura, que inclusive é contra a reforma agrária.


Ver ainda:
Plano Nacional de Direitos Humanos

Entrevista com Jair Krischke - Verdade, justiça e reparação

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Alô, assessoria jurídica popular!


Um ótimo ano de 2010 prá tod@s.

O ano começa com os primeiros produtos da Relatoria Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Como sabem, atualmente a relatora especial da ONU para o Direito À Moradia Adequada é a urbanista RAQUEL ROLNIK, militante do Movimento pela Reforma Urbana desde o início da década de 80. Achei importante trazer esse subsídio para o blog porque são cartilhas bem práticas sobre a defesa do direito à moradia, especialmente em situações de despejos.

Para conferir o Panfleto "Querem nos despejar. E agora?" e o guia "Como atuar em projetos que envolvem despejos e remoções?", clique nos links abaixo.


Panfleto:
Ler na tela -
http://issuu.com/unhousing/docs/folheto_portugues
Arquivo -
http://bit.ly/4IEbd1


Guia:
Ler na tela -
http://issuu.com/unhousing/docs/guia_portugues
Arquivo -
http://bit.ly/5k4UcE



Divulgue, imprima, distribua!


Um abraço,

Betânia Alfonsin


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Poesitando


“É de sonho e de pó, o destino de um só...” Assim inicia a música Romaria, de Renato Teixeira, sinalizando as ambigüidades da esperança do sertanejo nordestino na peleja diária pela sobrevivência e melhoria das condições de vida.
Em muitos cantos do Brasil, outros destinos são sonhados altivos e empoeirados sorrateiramente. De um lado, o clamor, a fé e o sonho, do outro a angustia, a dor e a realidade. Pobreza, discriminação, exploração e assassinatos, a violência assume múltiplas formas, mas sempre apontando no sentido da violação de direitos humanos e na, quase sempre, reação dos lutadores e lutadoras para fazer valer o(s) sonho(s) como destino(s) coletivo(s) e democrático(s).
Numa tarde de julho de 2005, durante o XXVI Encontro Nacional dos Estudantes de Direito (ENED), acompanhávamos a marcha dos estudantes pelas frias ruas da cidade de Goiânia, reivindicando a qualidade na educação jurídica universitária, e, conjuntamente com os companheiros e companheiras do Movimento de Luta pela Moradia “Sonho Real”, o fim da criminalização perpetrada pela polícia, mídia e justiça local contra este movimento, além da efetivação do direito à moradia.
A poesia que segue abaixo emergiu neste momento, entre cânticos de luta e olhares desconfiados dos “pacatos” moradores citadinos.

Sobre peitos e respeito
Carandiru,
Eldorado dos Carajás,
Chacina da Candelária,
Sonho Real...

Quantos mais?
Quantos mais!

Até que você se comova,
Até que você se mova,
Quantos mais?

As pessoas são enterradas, são esquecidas,
São sumidas...
As vidas tornam-se pouco, muito pouco,
Para eles, para nós, nossas vidas,
E você?

Cidadania, isto vos diz respeito!

Porque em todo peito
Aberto por uma bala, um cassetete;
Em todo peito
Que sangra o sangue mais humano,
A dor mais digna pela indignidade
Mais dolorosa,

Há um clamor e uma angústia,
Uma fé e uma luta,
Um sonho e uma realidade.

E este peito, desta gente,
Que você não vê,
Que você não quer ver,
Que você finge que vê,
É igual ao seu
E é tão mais humano que o seu

Porque nele ainda bate
Um coração
(Vivo ou morto).

Da biblioteca "Poesia crítica do direito"

Preparação para o primeiro dia

Costumamos chamar o primeiro dia numa comunidade para o trabalho popular de visita zero.
Mas isto não quer dizer que este seja o primeiro dia de trabalho, uma intensa preparação anterior é necessária.

Além de boas leituras, todas seguidas de discussões em grupo, é preciso cumprir uma etapa de pesquisa da conjuntura social, econômica e cultural da comunidade.
Esta não é tarefa simples.

A grande maioria dos educadores populares dedicam boa parte de seus escritos para este contato inicial. Podemos ficar com três exemplos significativos: Clódovis Boff, Paulo Freire e Carlos Rodrigues Brandão.
O educador das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) Clódovis Boff, descreve a postura ética do trabalhador popular, que pode ser desde um contato mais extemporâneo e impessoal, até a radicalidade de um "viver junto", como muitos religiosos costumam fazer.
Já Paulo Freire, nos ajuda muito com sua proposta metodológica de pesquisa do tema gerador. Esta que é uma tarefa conjunta para o educador-educando e educando-educador, de perceber na realidade local qual é a necessidade mais urgente para ser trabalhada.
Carlos Rodrigues Brandão traz contribuição a respeito da pesquisa-participante, que é a comunhão da pesquisa entre os sujeitos envolvidos na comunicação, dedicados a encontrarem resoluções para seus problemas e contribuir para a educação das novas gerações.

Com a leitura, e discussão, destes textos, resta a tarefa de eleger a melhor metodologia, ou combinação destas, para iniciar o trabalho na comunidade.
Estejamos certos de que o caminho se faz ao caminhar, mas que de mãos dadas com a experiências anteriores podemos diminuir nossos problemas e melhorar muito a nossa contribuição na educação popular.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A contradição do direito

A contradição do direito insurgente vem da própria contradição do direito capitalista.

Ora, para lutar contra um direito que oprime e que ao mesmo tempo mantém ferramentas de atenuação desta opressão, somente uma estratégia que construa a transformação pela agudização desta contradição.

Um bom exemplo desta contradição está justamente no direito que procura regular as relações de trabalho no regime capitalista. No livro "Noções do direito do trabalho", de Ipojucan Demétrius Vecchi, tem-se um trecho que elucida bem este argumento. O direito do trabalho "ao tempo em que representa um caráter compensatório, justifica o regime capitalista de exploração do trabalho. Ao tempo que consagra alguns direitos fundamentais, assegura a continuidade do próprio regime de acumulação, inerente ao capitalismo". [VECCHI, Ipojucan Demétrius. Noções de direito do trabalho: um enfoque constitucional. Passo Fundo: Ediupf, 2007. v. 2. p. 14-15].

domingo, 3 de janeiro de 2010

Educação: de geração para geração


Um dos maiores desafios do educador popular é a renovação do grupo.

Principalmente nos projetos elaborados pelos estudantes universitários, essa questão está sempre presente. Isto porque os estudantes têm consciência da efemeridade de sua passagem pela universidade, assim como da necessidade de contituidade das atividades, depois que forem embora, no dia seguinte da formatura.

Em função disso, é preciso planejar com cuidado os momentos de passagem de uma geração para outra. Entenda-se uma geração como aquela formada pelo conjunto de estudantes de diferentes anos e até mesmo de diferentes cursos.

A primeira dica importante é a de evitar o desperdício da experiência. Uma geração de estudantes que registra suas ações, realiza autoavaliações, e busca produzir teoria, está dando um grande passo para facilitar o trabalho da geração vindoura.

Outra dica é a comunicação e articulação com outros grupos de assessoria estudantil. A Rede Nacional de Assessoria Jurídica Universitária (RENAJU) representa uma contribuição decisiva para a articulação, politização e consequente continuidade do trabalho das assessorias, na medida em que voltar seus encontros nacionais e regionais para este objetivo. Podem ser organizadas ainda atividades conjuntas entre grupos da mesma cidade, ou de regiões próximas. Sem esquecer ainda da importância da troca de experiências, dicas sobre metodologia, relatos de oficinas etc.

Por fim, espera-se que este blogue constitua-se num instrumento relevante de comunicação para os assessores populares, colaborando com a organização da assessoria estudantil e a comunicação com os advogados, para que finalmente possamos melhorar a ponte dos assessores estudantis com os advogados, para que o trabalho popular não termine com a formatura.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O advogado popular: um ser em extinção?

Os assessores estudantis querem saber: o advogado popular está em extinção?


Há cerca de três anos iniciei uma pesquisa para buscar responder esta e outras perguntas, como, por exemplo, qual o envolvimento deles com a educação popular.

Entrevistei, de 2007 a 2009, advogados em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, com destaque para os grupos ACESSO - Cidadania e Direitos Humanos e Instituto Apoio Jurídico Popular (AJUP).

Escolhi o ACESSO (1986) e o AJUP (1985-2002) porque ambos desenvolveram atividades de assessoria jurídica e educação popular por mais de 15 anos. Também porque seus integantes atuaram em conjunto antes que o AJUP finalizasse suas atividades em 2002. Em função disso, tive que entrevistar assessores que fizeram parte das turmas de formação do AJUP ou que inspiraram-se em seus princípios e diretrizes.

Uma ressalva é necessária quando fala-se em educação popular por parte destes grupos de advogados, uma vez que esta atividade diferencia-se substancialmente daquela desenvolvida pelos estudantes.

O AJUP desenvolveu uma série de trabalhos neste sentido. Os exemplos mais importantes são as visitas aos locais de conflito, as turmas de formação e a publicação "Socializando o conhecimento".

Era comum, que os advogados, educadores, sociólogos, antropólogos, entre outros integrantes do AJUP, fizessem visitas em comunidades em conflito. Muitas vezes, eles conviviam por alguns meses com a rotina dos acampamentos e assentamentos, rurais ou urbanos. As atividades envolviam desde a assessoria jurídica ao conflito específico, quanto atividades de formação e outras típicas da solidariedade de um militante orgânico.
As turmas de formação ocorriam nos locais de conflito ou então próximo a cidade sede do AJUP, Rio de Janeiro, com o objetivo de formar estudantes universitários e militantes para o trabalho popular. Era bastante comum a participação de militantes que atuavam no interior do Brasil, onde não havia sequer uma estrutura mínima de assessoria jurídica, quando muitos trabalhavam como juristas leigos, peticionando, participando de audiências etc.
Já a publicação "Socializando o conhecimento" reuniu uma série de textos para a leitura de integrantes de movimentos e assessores populares. Foram feitas entrevistas com militantes com o objetivo de registrar experiências, assim como foram publicadas teorias dos assessores populares, no sentido de comunicar as suas reflexões aos assessorados.

Por sua vez, a ACESSO conta com duas frentes de educação popular. A primeira é a de assessoria universitária, o grupo NAJUP que iniciou seu trabalho na sede da ACESSO e na PUCRS, e que hoje é autônoma, mas conserva o vínculo com o advogado popular Jacques Alfonsin. A outra frente é justamente o trabalho de Jacques Alfonsin nas CEBs, quando por muitas vezes aborda temas ligados à política e ao direito, em comunidades no Rio Grande do Sul, inclusive assentamentos e acampamentos rurais e urbanos.

Por fim, pode-se afirmar que existem exemplos concretos de educação popular na advocacia. Para citar alguns outros, inclusive inspirados no trabalho do AJUP e da ACESSO: o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP) de Recife-PE, a Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR), e o grupo de Assessoria Jurídica Popular Mariana Crioula do Rio de Janeiro-RJ.